24 anos do E-farsas: o que mudou nas fake news de 2002 até hoje?
No dia 1º de abril de 2002, simbolicamente o “Dia da Mentira”, surgia o E-farsas, um dos primeiros projetos brasileiros dedicados a desmentir boatos online. (International Journalists’ Network)
Naquela época, a internet ainda era lenta, pouco social e dominada por e-mails. O E-farsas acompanhou essa transição, saindo de um tempo onde as mentiras eram “lendas urbanas” para uma época onde a desinformação é uma ferramenta geopolítica e eleitoral de alta precisão.
Hoje, 24 anos depois, vivemos um ecossistema hiperconectado, algorítmico e potencializado por inteligência artificial.
Veja as principais diferenças entre a desinformação de 2002 e a atual.
1. Meio de propagação: de e-mails para redes virais
2002:
- Correntes de e-mail eram o principal vetor
- Fóruns e blogs tinham alcance limitado
- Disseminação lenta e rastreável
Hoje:
- Redes sociais (Instagram, TikTok, X, Facebook)
- Apps de mensagem (WhatsApp, Telegram)
- Conteúdo viral instantâneo e difícil de rastrear
A tecnologia ampliou drasticamente a escala: hoje uma fake news pode atingir milhões em minutos. (Brasileiras em PLN)
2. Velocidade e alcance: de dias para segundos
2002:
- Uma mentira levava dias ou semanas para circular
- Dependia do envio manual (forward)
Hoje:
- Algoritmos impulsionam conteúdos automaticamente
- Compartilhamento em massa com um clique
- Efeito “bola de neve” imediato
Estudos mostram que a desinformação hoje se espalha em ritmo exponencial, muito mais rápido que a checagem. (arXiv)
3. Complexidade do conteúdo: de simples para sofisticado
2002:
- Textos simples e histórias absurdas
- Pouca manipulação visual
- Fácil de identificar com senso crítico básico
Hoje:
- Vídeos manipulados (deepfakes)
- Imagens hiper-realistas geradas por IA
- Narrativas híbridas (mistura de verdade e mentira)
A desinformação evoluiu tecnicamente — hoje ela é projetada para parecer plausível.
4. Motivação: de brincadeira para estratégia
2002:
- Boatos por diversão ou ingenuidade
- Correntes emocionais (doações falsas, histórias tristes)
Hoje:
- Uso político e ideológico
- Monetização (cliques, anúncios, golpes)
- Operações coordenadas de desinformação
Fake news passaram a influenciar eleições, reputações e decisões públicas. (Brasileiras em PLN)
5. Segmentação: de massa para personalizado
2002:
- Mensagens iguais para todos
- Sem personalização
Hoje:
- Conteúdo direcionado por perfil (microtargeting)
- Bolhas informacionais (filter bubbles)
- Algoritmos reforçam crenças existentes
Isso torna a desinformação mais eficaz — ela fala exatamente o que o público quer ouvir.
6. Volume: de escassez para excesso
2002:
- Poucos boatos circulando simultaneamente
- Mais fácil acompanhar e verificar
Hoje:
- Volume massivo de conteúdo diário
- “Infodemia” (excesso de informação)
- Impossível checar tudo manualmente
Durante eventos como a pandemia, a desinformação atingiu níveis “inimagináveis”. (International Journalists’ Network)
7. Papel da checagem: de nicho para essencial
2002:
- Fact-checking praticamente inexistente no Brasil
- O E-farsas foi pioneiro
Hoje:
- Diversas agências de checagem (Aos Fatos, Lupa, etc.)
- Parcerias com plataformas e até tribunais eleitorais
- Combate institucional à desinformação
O fact-checking virou parte estruturante do jornalismo moderno. (Wikipédia)
8. Impacto social: de curiosidade para ameaça real
2002:
- Impacto limitado ao entretenimento ou pequenos enganos
Hoje:
- Influência em eleições
- Riscos à saúde (ex: fake news médicas)
- Polarização social
Fake news hoje são consideradas uma ameaça à democracia e à sociedade.
9. Tecnologia: o fator decisivo
A principal mudança não foi o comportamento humano — foi a tecnologia:
- Smartphones democratizaram a produção de conteúdo
- Redes sociais amplificaram o alcance
- IA passou a gerar conteúdo falso em escala
A desinformação deixou de ser artesanal e virou industrial.
1. 2002: A Era das Lendas e Correntes
No início dos anos 2000, o foco eram os hoaxes (embustes). As mentiras circulavam via e-mail ou no extinto Orkut.
- Perfil: Histórias fantásticas, como a “gangue do palhaço“, agulhas infectadas em cinemas ou o clássico “o Hotmail será pago“.
- Objetivo: Geralmente o “clique” ou simplesmente causar susto/curiosidade.
- Ferramenta de checagem: O E-farsas era uma das únicas vozes solitárias que usava a lógica e a busca básica para desmentir montagens grosseiras no Photoshop.

Imagem criada com a ajuda da Inteligência Artificial!
2. 2010–2018: A Democratização do Caos
Com a popularização do WhatsApp e do Facebook, a desinformação tornou-se viral e fragmentada.
- A Mudança: O foco saiu do “curioso” para o “ideológico”. Surgiu o termo Fake News como o conhecemos: notícias formatadas para parecerem jornalismo profissional, visando manipular a opinião pública.
- O “Tio do Zap”: A desinformação passou a circular em grupos fechados e criptografados, dificultando o monitoramento e a checagem em tempo real.
3. 2020–2023: A Infodemia
Durante a pandemia de COVID-19, o mundo enfrentou uma infodemia — um excesso de informações, muitas delas falsas, sobre curas milagrosas e conspirações.
- Impacto Real: Pela primeira vez, a desinformação digital teve um custo direto e massivo em vidas humanas, forçando as plataformas de redes sociais a adotarem políticas de moderação mais rígidas.
4. 2024–2026: A Era da IA Generativa e Deepfakes
Chegamos ao presente. Em 2026, o desafio não é apenas um texto falso, mas a simulação da realidade.
- Crescimento Exponencial: Conteúdos falsos criados com Inteligência Artificial (IA) mais que triplicaram entre 2024 e 2025.
- Deepfakes: Vídeos e áudios que clonam a voz e a imagem de políticos e celebridades com perfeição quase indistinguível.
- Regulação: O cenário atual é marcado por batalhas jurídicas. O TSE e o Congresso agora discutem leis específicas para punir o uso de IA em campanhas eleitorais e a desinformação regionalizada.
Hoje, o trabalho de Gilmar Lopes e sua equipe é mais complexo. Não basta apenas dizer “é falso”; é preciso explicar como a IA foi usada para manipular aquele vídeo ou áudio. Em um mundo onde a verdade é cada vez mais fluida, sites de checagem deixaram de ser um passatempo de curiosos para se tornarem pilares de defesa da democracia.
Conclusão
Em 2002, combater boatos era quase um hobby — como começou o próprio E-farsas ao verificar correntes de e-mail. Hoje, é uma necessidade estratégica global. Quanto mais avançamos tecnologicamente, mais essencial se torna o pensamento crítico, exatamente o tipo de trabalho que o E-farsas vem fazendo há 24 anos. Vida longa ao E-farsas! Que venham mais décadas combatendo a mentira, especialmente no dia dela.








