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Apoiadores de Jair Bolsonaro fizeram um gesto nazista ao presidente?

Fora de Contexto

Apoiadores de Jair Bolsonaro fizeram um gesto nazista ao presidente?

Apoiadores de Jair Bolsonaro fizeram um gesto nazista ao presidente?

Entre as inúmeras polêmicas e discussões inflamadas, que habitualmente ocorrem nas redes sociais, surgiu uma muito emblemática. Isso porque ontem (11), o perfil de uma revista chamada “Fórum”, no Twitter, fez uma alegação bem contundente. Eis o que foi tuitado: “Apoiadores de Jair Bolsonaro fazem gesto nazista para o presidente” (1, 2).

Tuíte do perfil da Revista Fórum em 11 de maio de 2020.

O tuíte redirecionava os usuários para o site da revista, onde podíamos ver novamente o título do artigo, em tom afirmativo:

O tuíte redirecionava os usuários para o site da revista, onde podíamos ver novamente o título do artigo, em tom afirmativo.

O Título Foi Posteriormente Alterado

Curiosamente, em algum momento da linha do tempo, provavelmente cerca de dezoito minutos após a publicação (de acordo com o código fonte e descontando o fuso horário), esse título foi alterado no site da revista. Embora pareça um tempo curto, foi o suficiente para que o caos se instaurasse entre os críticos e os apoiadores do presidente.

O novo título, no entanto, lembra o anterior: “Apoiadores de Bolsonaro fazem gesto que lembra saudação nazista ao presidente” (1)

O novo título, no entanto, lembra o anterior: “Apoiadores de Bolsonaro fazem gesto que lembra saudação nazista ao presidente”.

Já no texto do artigo é possível ler:

Na última sexta-feira (8), apoiadores do presidente, durante aparição de Bolsonaro em seu ‘cercadinho’ no Palácio da Alvorada, estenderam o braço direito em uma saudação ao capitão da reserva. O gesto é famoso por ter sido utilizado pelos nazistas na saudação a Adolf Hitler, “Heil, Hitler”, que, em português, significa “Salve, Hitler”. Bolsonaristas, no entanto, negam que o aceno tenham qualquer referência ao nazismo e justificam dizendo que se tratava de uma oração“.

Entretanto, será que apoiadores de Jair Bolsonaro fizeram realmente um gesto nazista ao presidente? A mencionada oração foi apenas uma justificativa? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Fora de Contexto! Os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro não fizeram nenhum gesto nazista naquele encontro ocorrido na última sexta-feira (8).  O gesto registrado na “foto” (daqui a pouco explicaremos a origem da imagem) se trata tão somente de um gesto chamado imposição de mãos durante um ato de oração.

De acordo com o livro “Comunidade Canção Nova – Uma Escola de Formação“, esse é um gesto característico, quando pessoas fazem orações para que outras possa receber a efusão ou o batismo no Espírito Santo. Tal gesto também é utilizado, quando os participantes rezam para que seja Deus a inspirar aquela pessoa que fará a oração numa determinada reunião comunitária. Segundo o site da Associação de Filhos do Pai Eterno, esse é um gesto bíblico, que simboliza a transmissão de poderes ou benções.

Um Pouco de História

Já a saudação nazista é basicamente uma cópia da saudação feita ao ditador italiano Benito Mussolini, que desde 1919 fazia com que seus seguidores cumprimentassem dessa forma. O braço direito estendido a partir do pescoço, com a mão esticada no ar, era chamado de “saudação romana”. No entanto, não existe descrição alguma dessa saudação em pinturas ou esculturas da civilização romana. O “culpado” é o pintor francês Jacques-Louis David (1748-1825), que fez vários quadros retratando pessoas da civilização romana fazendo essa saudação. A imagem foi mais forte do que a realidade — e, a partir de seus quadros, outro pintores retrataram romanos fazendo essa saudação.

A utilização desse gesto por parte do Partido Nacional Fascista, criado por Benito Mussolini, teve influência direta do filme mudo “Cabiria”, cujo roteiro teve colaboração de um ultra-nacionalista italiano chamado Gabriele D’Annunzio, um precursor do fascismo italiano.

Diga-se de passagem, esse gesto já havia aparecido em Ben-Hur, em 1899, e em sua adaptação de 1907.

Diga-se de passagem, esse gesto já havia aparecido em Ben-Hur, em 1899, e em sua adaptação de 1907.

Em 1919, quando Gabriele liderou a ocupação da região italiana de Fiume, ele usou o estilo de saudação retratado no filme como um ritual neo-imperialista e o Partido Fascista Italiano rapidamente o adotou.

Um Gesto Questionado pelos Próprios Nazistas

Além disso, é interessante destacar que a utilização dessa saudação foi questionada por membros do então partido Nazista, que viam o gesto como “não-alemão”.  Foram feitos diversos esforços para inventar alguma coisa que justificasse a utilização de um gesto “não-alemão”. Em junho de 1928, Rudolf Hess, que posteriormente se tornaria vice-líder do Partido Nazista, publicou um artigo intitulado “A Saudação Fascista”, que afirmava que o gesto foi usado na Alemanha desde 1921, antes que os nazistas tivessem ouvido falar dos fascistas italianos (The Hitler Salute: On the Meaning of a Gesture,  2008). Contudo, conforme já mencionamos, não é bem essa história da saudação adotada pelo regime nazista.

Portanto, o gesto da “imposição de mãos” não tem relação direta com nenhuma saudação a quaisquer ditadores do passado, e tais saudações sequer foram originalmente criadas pelos regimes que eles representavam.

A Origem da Imagem Utilizada pela Revista Fórum

A imagem utilizada no artigo da Revista Fórum trata-se tão somente de um frame de uma transmissão da emissora “CNN Brasil”. Não é exatamente uma foto, mas a captura de um momento isolado e interpretado de forma aleatória para levantar uma suposição de um “gesto nazista”. Isso não se sustenta por inúmeros fatores.

A imagem utilizada no artigo da Revista Fórum trata-se tão somente de um frame de uma transmissão da emissora CNN Brasil.

Em primeiro lugar, a imposição de mãos é frequentemente utilizada por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em momentos de oração. Confira o vídeo abaixo publicado pelo canal “Folha Política”, no YouTube, no dia 11 de março de 2020:

Em segundo lugar, houve, de fato, um momento de oração ao final do encontro de apoiadores com o presidente Jair Bolsonaro na última sexta-feira (8), conforme registrado por um canal do YouTube chamado “Foco no Brasil”:

Em terceiro e último lugar, o site da emissora “CNN Brasil” publicou a imagem no dia 8 de maio de 2020 e, em nenhum momento, houve quaisquer citações sobre gestos nazistas (arquivo). Pelo contrário, o texto publicado pela emissora afirmava que se tratava de um momento de oração.

Texto publicado pela “CNN Brasil”, onde é mencionado que apoiadores estavam orando pelo presidente Jair Bolsonaro.

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O Slogan da Campanha de Jair Bolsonaro em 2018

Segundo o texto publicado pelo site da Revista Fórum, “o próprio slogan da campanha de Jair Bolsonaro na eleição de 2018, ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’, faz referência direta a um bordão da Alemanha nazista, o ‘Deutschland über alles’ que, em português, significa ‘Alemanha acima de tudo’. O trecho, inclusive, fazia parte do hino nacional alemão, mas foi suprimido ao final da Segunda Guerra Mundial“.

Entretanto, o slogan utilizado na campanha de Jair Bolsonaro não teve inspiração na Alemanha Nazista, mas uma apropriação de brado da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército Brasileiro. Jair Bolsonaro foi paraquedista em sua trajetória militar, assim como o seu vice, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB).

Quem quiser saber mais detalhes sobre esse brado, recomendamos que assista a um vídeo do excelente canal “Hoje no Mundo Militar”, no YouTube, que foi publicado no dia 8 de janeiro de 2017, ou seja, muito antes da eleição presidencial de 2018:

“O Trabalho Liberta”: Um Lamentável Vídeo Promovido pela Secom

O artigo também citou um vídeo publicado no dia 9 de maio de 2020 pela Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), no Twitter, que evocaria a um lema nazista. Esse episódio, de fato, aconteceu, conforme foi noticiado nas últimas 48 horas, a exemplo do que foi divulgado pelo portal  “Poder 360”. Contudo, o secretário especial de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, afirmou em rede social que toda ação do governo é “deformada” para se encaixar em narrativas. Lembrou que ele, Wajngarten, é judeu.

Por outro lado, a Confederação Israelita repudiou a mensagem do governo, uma vez que a frase “O trabalho liberta” está na entrada do campo de extermínio de Auschwitz. A ação, no mínimo lamentável por parte do governo, fez com que a Secom simplesmente apagasse o vídeo no Twitter. De qualquer forma, ainda é possível o tuíte original através do serviço “Wayback Machine”.

Ainda é possível o tuíte original através do serviço “Wayback Machine”.

O Caso Roberto Alvim

Segundo o artigo publicado pela Revista Fórum, a divulgação da peça publicitária da Secom aconteceu cerca de quatro meses depois da polêmica envolvendo o ex-secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim. Ele postou um vídeo que copia discurso e estética de Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda na Alemanha Nazista.

De fato, esse foi um outro episódio, no mínimo lamentável, amplamente noticiado pela mídia em janeiro de 2020. Depois da grande repercussão negativa, Alvim foi exonerado por Bolsonaro. Na época, o ex-secretário afirmou que se tratava de uma “coincidência retórica” entre os discursos.

Entretanto, em entrevista ao “Estado de São Paulo”, Alvim afirmou que defendia uma cultura com viés “nacionalista, conservador no campo das artes”, além da “busca por um ideal clássico”.

A Utilização de uma Foto Isolada como Forma de Estigmatizar Pessoas

Em 17 de abril de 2019, publicamos um longo artigo, que contou com um extenso follow-up, sobre a disseminação de fotos em que “muçulmanos” estariam, supostamente, comemorando e sorrindo perante o incêndio da Catedral de Notre-Dame.

Muçulmanos comemoraram o incêndio da Catedral de Notre-Dame?

Para compor o artigo, conversamos com o jornalista e fact-checker francês Alexandre Capron. De acordo com ele, usar imagens como aquelas dos “muçulmanos” , fora de contexto com as pessoas “sorrindo” ou até “rindo” era uma maneira comum e bem conhecida usada pelos “internautas de direita” para culpar as pessoas que desejava estigmatizar.

Na época, Alexandre Capron disse que toda a história soava como uma tentativa de estigmatizar os muçulmanos, em geral, com base numa única foto, num único frame de todo um contexto mais amplo. Ele, inclusive, citou um episódio relacionado ao presidente francês, Emmanuelle Macron, em dezembro de 2108, quando circulou uma imagem em que Macron foi acusado de gargalhar durante uma visita a Estrasburgo, palco de um atentado terrorista que deixou um saldo de oito vítimas fatais.

No caso referente aos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro vemos uma atitude que lembra essa tática. A divulgação de um único frame, que levanta uma hipótese totalmente descontextualizada, acaba servindo como munição para que outros usuários ataquem aqueles que eles desejam estigmatizar.

Imaginem, por um momento, se fossem divulgadas, isoladamente, as seguintes imagens abaixo (1,2,3,4):

Trecho de um artigo publicado pelo site “Folha 360” em julho de 2019.

Isso significa que tais pessoas acima fizeram um gesto nazista? É óbvio que não. Jamais podemos utilizar um único quadro, perante um contexto muito mais amplo, para justificar uma determinada narrativa. Isso também é uma forma de disseminar notícias ou informações falsas.

Atualização #1 – 12/05 às 14h30:

Encontramos um trecho da transmissão ao vivo da emissora “CNN Brasil”, realizada no dia 8 de maio de 2020, que mostra nitidamente e sem sombras de dúvidas, que se tratava tão somente de um momento de oração.

Confira abaixo:

Conclusão

Fora de Contexto! Os apoiadores do presidente Jair Bolsonaro não fizeram nenhum gesto nazista naquele encontro ocorrido na última sexta-feira (8).  O suposto gesto nazista registrado na “foto” (na verdade um frame extraído de uma transmissão realizada pela emissora CNN Brasil) trata-se tão somente de um gesto chamado imposição de mãos durante um ato de oração.

A disseminação de uma única imagem, que desconsidera um contexto muito mais amplo, e que tenha como objetivo justificar uma determinada narrativa para estigmatizar uma ou mais pessoas, também é uma forma de disseminar notícias ou informações falsas.

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Jornalista, redator, e pesquisador de comunicação social com foco no combate a disseminação de notícias falsas. Colaborador do site de verificação de fatos E-farsas.com desde janeiro de 2019. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos, além de casos supostamente sobrenaturais.

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