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Estudo descobriu que a pimenta-do-reino é eficaz contra o novo coronavírus?

Falso

Estudo descobriu que a pimenta-do-reino é eficaz contra o novo coronavírus?

Estudo descobriu que a pimenta-do-reino é eficaz contra o novo coronavírus?

Nas últimas horas começou a circular através de alguns sites de notícias (a exemplo da agência “Sputnik Brasil” e do site “Brasil 247“), que um estudo teria descoberto que a pimenta-do-reino é eficaz contra o novo coronavírus.

Eis o que é mencionado, por exemplo, no primeiro parágrafo:

A piperina contida na pimenta-do-reino é capaz de bloquear infecção por partes do coronavírus responsáveis pela reprodução e penetração no corpo humano, conforme um estudo publicado na revista Journal of Biomolecular Structure and Dynamics

Aliás, cabe destacar que o texto publicado pelo site “Brasil 247” é uma cópia idêntica ao texto publicado pela agência de notícias “Sputnik Brasil”.

Aliás, cabe destacar o texto publicado pelo site “Brasil 247” é uma cópia idêntica ao texto publicado pela agência de notícias “Sputnik Brasil”.

Entretanto, será que o estudo realmente mostrou isso? Usar pimenta-do-reino na alimentação irá impedir uma infecção pelo novo coronavírus? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Falso! O título, subtítulo e o primeiro parágrafo do artigo que foi originalmente publicado pela “Sputnik Brasil” são altamente enganosos. Embora o estudo citado seja verdadeiro, ele não comprovou que a pimenta-do-reino seja capaz de bloquear/impedir uma infecção pelo novo coronavírus.

A seguir, vamos explicar rapidamente o estudo para vocês!

O Nome do Estudo Dava uma Ideia do que Esperar

O estudo citado chama-se “In silico investigation of spice molecules as potent inhibitor of SARS-CoV-2” e foi publicado em meados de setembro de 2020 no periódico “Journal of Biomolecular Structure and Dynamics”. Ele foi elaborado por três pesquisadores do Instituto Indiano de Tecnologia, em Dhanbad, na Índia.

Somente pelo nome do estudo já daria para ter uma noção do que poderíamos esperar dele. Isso porque “in silico” é uma expressão usada no âmbito da simulação computacional e áreas correlatas para indicar algo ocorrido “em ou através de uma simulação computacional”, ou seja, não é sequer um teste “in vitro” e muito menos “in vivo“.

Para vocês terem uma ideia, testes “in vitro” já se encontram nos níveis mais básicos da pesquisa na área de saúde. “In silico“, então…

Somente pelo nome do estudo já daria para ter uma noção do que poderíamos esperar dele.

Além disso, ao traduzirmos o nome do artigo logo percebemos outro problema. Trata-se de uma investigação de moléculas de especiarias como POTENCIAIS inibidoras do SARS-CoV-2.

Portanto, não houve nenhuma descoberta dizendo que a pimenta-do-reino é eficaz contra o novo coronavírus, mas tão somente uma proposta dos pesquisadores sugerindo a piperina um composto orgânico presente na pimenta preta (também chamada de pimenta-do-reino no Brasil) como uma molécula ativa para a inibição do SARS-CoV-2.

Um Rápido Panorama do Estudo

O estudo é basicamente uma simulação em computador do acoplamento de 30 moléculas de especiarias selecionadas para identificar os potenciais inibidores para o RBD Spro (proteína spike) e Mpro (enzima proteolítica) do SARS-CoV-2.

Nessa simulação foi visto que, embora todas as moléculas se liguem ativamente a essas estruturas, por assim dizer, a piperina tem a maior afinidade de ligação dentre as 30 moléculas selecionadas, sendo inclusive, mais eficaz do que alguns fármacos usados atualmente.  Ao fazer essa ligação, a piperina, talvez, pudesse inibir a replicação viral do SARS-CoV-2. O problema é que isso é uma simulação de computador, e não sabemos se isso funciona tão bem assim no corpo humano.

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Confira abaixo o que próprios pesquisadores disseram no artigo:

“Uma vez que este estudo foi realizado computacionalmente, ele requer experimentos in vitro, assim como in vivo para validação posterior”

O problema é que isso é uma simulação de computador, e não sabemos se isso funciona tão bem assim no corpo humano.

Assim sendo, diante desse estudo, é enganoso afirmar que a pimenta-do-reino foi descoberta como agente eficaz contra o novo coronavírus ou que ela seja capaz de um impedir uma infecção pelo SARS-CoV-2. Isso ficou bem claro? Para mostrar como isso é perigoso basta voltar no tempo, em junho de 2020, quando o alho, o gengibre e a cúrcuma estavam sendo usadas por moradores do Iêmen, por puro desespero, como proteção contra a COVID-19, mas sem nenhuma eficácia comprovada.

Diga-se de passagem, até hoje não há nenhum estudo comprovando a eficácia desses alimentos/especiarias contra a COVID-19.

Uma Antiga Sugestão

Esse não foi o primeiro, nem o último estudo tentando sugerir a piperina como uma forma de tratamento contra a COVID-19. Um preprint (artigo não publicado e sem revisão por pares) de outros pesquisadores indianos, que também realizaram simulações em computador, sugeriram a piperina, além de outros compostos naturais, como potenciais inibidores do SARS-CoV-2. Contudo, mais uma vez, eles disseram que seria necessários mais estudos para poder validar isso.

Ao longo do tempo também tivemos mais um preprint de pesquisadores venezuelanos sugerindo a curcumina (presente no curry), a capsaicina (presente na pimenta vermelha) e a piperina como candidatas para estudos experimentais e teóricos para avaliação de suas possíveis atividades biológicas. Novamente, mais estudos eram necessários, visto que também se tratava de uma simulação computacional.

Já um artigo recente, por exemplo, sugeriu a piperina como um composto profilático ou terapêutico para proteger do estresse oxidativo e da hiperinflamação induzida durante a COVID-19. Contudo, o artigo não afirma que a piperina irá funcionar contra a COVID-19, mas que poderia haver uma tentativa de utilização nesse sentido.

Portanto, não adianta ir ao supermercado e encher sua comida de pimenta preta ou pimenta-do-reino. Não há nenhuma comprovação de que isso irá previnir ou amenizar uma infecção pelo novo coronavírus.

O Alerta Dado pelo Biólogo Francisco Sassi

Resolvemos publicar esse artigo após o alerta dado pelo biólogo Francisco Sassi no Twitter.

Segundo Francisco Sassi, os autores do artigo fizeram uma modelagem e encontraram que a piperina, presente na pimenta-do-reino, tem um POTENCIAL de se ligar às proteínas do novo coronavírus. Os próprios autores colocam nas conclusões que são necessários estudos em laboratório para validar a eficácia da piperina. Já na matéria, o título, o subtítulo e o primeiro parágrafo inteiro estão incorretos. Esse erro seria evitado se o autor do texto tivesse lido o próprio artigo a que se refere.

Ao entrarmos em contato com o Francisco Sassi, ele nos disse que esse mesmo tipo de modelagem que foi utilizado para tentar “validar” (com muitas e muitas aspas) a hidroxicloroquina como remédio para tratamento da COVID-19. Contudo, quando os testes clínicos foram realizados, não se confirmou tal eficácia modelada.

Conclusão

Falso! O título, subtítulo e o primeiro parágrafo do artigo que foi originalmente publicado pela “Sputnik Brasil” são altamente enganosos. Embora o estudo citado seja verdadeiro, ele não comprovou que a pimenta-do-reino seja capaz de bloquear/impedir uma infecção pelo novo coronavírus.

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Jornalista, redator, e pesquisador de comunicação social com foco no combate a disseminação de notícias falsas. Colaborador do site de verificação de fatos E-farsas.com desde janeiro de 2019. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos, além de casos supostamente sobrenaturais.

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