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Foto mostra um anel do século XVI que se desdobra numa esfera astronômica?

Fotos

Foto mostra um anel do século XVI que se desdobra numa esfera astronômica?

Foto mostra um anel do século XVI que se desdobra numa esfera astronômica?

Em nosso grupo no Facebook fomos questionados a respeito de um suposto anel do século XVI, que se desdobraria numa esfera astronômica. Havia apenas uma imagem para ilustrá-lo, ou seja, não havia nenhuma outra informação mais específica sobre o objeto.

Confira a imagem abaixo:

Em nosso grupo no Facebook fomos questionados a respeito de um suposto anel do século XVI, que se desdobraria numa esfera astronômica.

Entretanto, será que estamos realmente diante de um anel tão antigo assim? Será que ele era usado para navegação ou observação das estrelas? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Tudo indica que o anel seja tão antigo quanto se alega, mas ele não teria nenhuma utilidade para navegação, orientação, observação ou estudo das estrelas! Muito provavelmente, seria tão somente um anel utilizado como objeto de ostentação entre os nobres do fim do século XVI ou início do século XVII!

O anel que aparece na imagem pertence ao acervo do Museu de História da Suécia, que por sua vez alega que o anel teria sido trazido da Alemanha no ano de 1632. No entanto, não se sabe muito sobre sua história. Ao longo deste artigo iremos mostrar a vocês o que realmente sabemos sobre ele e, por isso, vale a pena ler tudo o que pesquisamos sobre o objeto.

Por fim, o anel soa uma tentativa de reproduzir, apenas de maneira bem simbólica, a chamada esfera armilar um antigo instrumento basicamente destinado a navegação que consistia num modelo reduzido do cosmo. As esferas armilares que se destinavam a ter alguma utilidade, no entanto, eram bem maiores que um anel, muito mais elaboradas, e repletas de marcadores. Já os símbolos que compõe o anel soam ser meramente decorativos.

A Divulgação do Anel pelo Museu de História da Suécia

Inicialmente, pensávamos que o anel tivesse sido apenas vagamente inspirado num modelo de “esfera astronômica” idealizada por um humanista alemão chamado Petrus Apianus, em 1534. Acreditávamos que tivesse sido daí que surgiu a narrativa de um “anel do século XVI”.

Inicialmente, pensávamos que o anel tivesse sido apenas vagamente inspirado num modelo de “esfera astronômica” idealizada por um humanista alemão chamado Petrus Apianus, em 1534.

Embora tais esferas fossem, em princípio, algo mais portátil, não havia a expressa premissa de serem utilizadas no dedo, visto que eram geralmente penduradas por uma corda ou corrente. Contudo, ao aprofundarmos nossa pesquisa nos deparamos com o anel, objeto de nosso artigo, no acervo do Museu de História da Suécia.

Segundo uma informação publicada em maio de 2019, originada da conta do museu, no Twitter, ele teria sido trazido da Alemanha em 1632 (durante a Guerra dos Trinta Anos), e se desdobraria para se tornar uma esfera astronômica. Soa incrível, mas havia um grande problema: não havia mais nenhuma informação sobre o anel.

Foto do anel que pertence ao acervo do Museu de História da Suécia.

Outra foto do anel que pertence ao acervo do Museu de História da Suécia.

Mais uma foto do anel que pertence ao acervo do Museu de História da Suécia.

Algumas fotos tiradas do anel pela equipe do museu datam de 2015, mas outras datam de 1995.

Estamos Realmente Diante de um Anel Tão Antigo Assim?

Numa rápida busca no Google é possível encontrar inúmeros sites (1, 2) vendendo réplicas desse anel com uma premissa bem semelhante: um antigo anel alemão do século XVI, que se desdobra numa esfera astronômica. Alguns anúncios dizem que ele serviria para a observação e o estudo das estrelas!

Assim sendo, resolvemos entrar em contato com o Museu de História da Suécia para entendermos melhor o que eles sabem, e se houve algum estudo para datar o item.

Quem nos respondeu foi a Dra. Pia Bengtsson Melin, PhD em História da Arte e Curadora Sênior de Arte Medieval e Eclesiástica do Departamento de Departamento de Coleções e Pesquisa.

Um Espólio de Guerra?

De antemão, Pia disse que eles não sabiam muito sobre o anel, e portanto, nos daria a interpretação deles sobre o objeto. Segundo ela, o anel foi parar na coleção do museu em 1752 a partir da Câmara Real, com a informação de que saído da Alemanha para a Suécia em 1632. O ano sugere que poderia ser um espólio de guerra, uma vez que estava ocorrendo a Guerra dos Trinta Anos, mas, ainda assim, eles não tinham certeza. Eles não têm informações de sua procedência antes de 1632, e para piorar é muito raro que joias desta época tenham qualquer documentação.

O estilo e os ornamentos são renascentistas, entre 1590-1610, e por isso foram datados em características estilísticas e semelhanças com outros itens da mesma época. Na região sul da Alemanha, os artesãos eram extremamente primorosos em fazer objetos mecânicos e a construção sofisticada do anel sugere que ele tenha vindo dessa região. Há uma inscrição bíblica, mas está em francês e foi tirada de Provérbios: “La Renomme est plus desirable que grosse richeres”.

Pessoalmente, Pia disse acreditar que o anel tenha sido produzido no sul da Alemanha por volta de 1600 para uma pessoa rica e intelectual, porque não se trata de uma joia que era usada no dia a dia.

Tinha Alguma Utilidade Astronômica?

Questionamos Pia se ela acreditava que o anel pudesse ter alguma utilidade prática, ou seja, de observação estelar ou navegação. A resposta é não. Ela acredita que seja tão somente uma questão de status. Embora os símbolos astronômicos estejam corretos, ela não acredita que não tivesse muita utilidade prática. Soa ser tão somente um joia cara, sofisticada e elegante.

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(11) 96075-5663 - t.me/efarsas

Anéis Semelhantes se Encontram no Acervo do Museu Britânico! E o que Sabemos? Praticamente Nada.

Paralelamente, descobrimos que anéis bem semelhantes se encontram no acervo do Museu Britânico e aparecem datados dos séculos XVI e XVII.

Um deles (AF.1759) é descrito como um anel esférico de ouro. Tudo o que sabemos desse anel partiu de Ormonde Maddock Dalton, arqueólogo britânico e curador do Departamento de Antiguidades Britânicas e Medievais no Museu Britânico entre 1921 e 1928.

Segundo Dalton, esse item em questão, adquirido pelo museu em 1897, pertenceria ao século XVII. E como ele chegou a essa conclusão? Segundo ele, os números 1555 gravados no anel indicariam a data de fabricação do objeto. Estranhamente, no entanto, o ano de 1555 pertence ao século XVI, não ao século XVII.

Curiosamente, o próprio Museu Britânico reconhece essa contradição.

Um deles (AF.1759) é descrito como um anel esférico de ouro.

No entanto, não há nenhuma outra informação que corrobore isso. O máximo que existe é a citação sobre a existência de um “anel armilar” num periódico chamado “Notes and Queries” de 1863.

Nele é citado somente a existência de um anel armilar medieval, composto por oito anéis contendo um pequeno poema, mas não é mencionada nenhuma data, tampouco é dito que o anel tinha qualquer finalidade astronômica.

O máximo que existe é a citação sobre a existência de um “anel armilar” num periódico chamado “Notes and Queries” de 1863.

Outros Anéis Datados por Dalton

Um outro exemplar (AF.1760) foi datado de forma semelhante por Dalton. Dessa vez, por haver uma gravação dos números 1, 7, 0 e 1, no anel, ele o datou como se tivesse sido fabricado em 1701. Um terceiro exemplar (AF.1761) também foi datado dessa mesma forma, mas dessa vez associado ao ano de 1702.

Ambos os anéis são praticamente lisos ou estão com suas respectivas gravações muito desgastadas. Novamente, não há nada que indique com precisão quando e onde foram fabricados, tampouco que possuíssem qualquer utilidade prática no campo da Astronomia.

Um outro exemplar (AF.1760) foi datado de forma semelhante por Dalton.

Um terceiro exemplar (AF.1761) também foi datado dessa mesma forma, mas dessa vez associado ao ano de 1702.

Consultamos o Professor Helio Jaques, do Observatório do Valongo

Para tentar buscar mais informações e ter uma base mais sólida de informações, consultamos o professor Helio Jacques, do Observatório do Valongo, uma unidade acadêmica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) vinculada ao Centro de Ciências Matemáticas e da Natureza (CCMN) da própria universidade.

Segundo Helio, é bem provável que os habitantes do século XVI apreciassem com mais interesse um anel desse tipo. Era o período das grandes navegações e a Astronomia tinha papel fundamental na vida do homem do mar. Há, inclusive, uma outra informação que liga os anéis a esse século: uma passagem no Archaelogia Cambrensis, vol. 140:

A sixteenth – century gold ring known as an armillary sphere ring was found at Bodwrdda  near Aberdaron, Caernarfonshire, in the mid nineteenth century“.

Ainda segundo Helio, embora muito charmoso, o anel não deve ter tido utilidade prática. A esfera armilar nele representada não tem marcações precisas. E mesmo essas marcações são insuficientes para a navegação. É até possível que a disposição dos anéis da esfera armilar que ele mostra servisse para relembrar o possuidor sobre a orientação dos círculos máximos do céu (eclíptica, equador, horizonte, etc.). Contudo, o navegante do século XVI possuía astrolábios, sextantes e quadrantes que fariam toda a tarefa de orientação necessária com muito mais eficiência.

Helio acredita que o anel seja um item de ostentação (até mesmo por ser de ouro) e que evocava um conhecimento específico e valorizado na época. Ele disse que conseguia imaginar, com facilidade, entre os nobres, aqueles que gostariam de demonstrar seus conhecimentos de cosmografia e exibissem aos convivas esse belo anel.

Uma Especulação Muito Interessante

Entramos em contato com Helio ao mesmo tempo que entramos em contato com o Museu de História da Suécia. No entanto, a resposta de Helio veio duas semanas antes da resposta de Pia. Sem saber da resposta de Pia, eis a uma especulação muito interessante que ele fez:

Uma coisa que me ocorreu, e isso é pura especulação, é essa relação do anel com a Alemanha. Ambas as peças que você me mostrou eram da Alemanha. E, talvez, fosse um item com direito de fabricação e comércio exclusivo de lá. Em alemão, esfera armilar é Ringkugel (esfera de anéis). Não é absurdo imaginar que um fabricante bem talentoso tenha pensado em fazer um Ringkugel Ring, isto é um anel que contivesse uma esfera de aneis“, disse Helio.

Portanto, temos uma forte indicação de que esse anel, assim como alguns outros, podem realmente ter sido fabricados na Alemanha do século XVI. No entanto, eles seriam apenas objetos de ostentação entre os nobres. Eles não teriam qualquer utilidade prática em termos de navegação ou observação das estrelas.

Conclusão

Tudo indica que o anel seja tão antigo quanto se alega, mas ele não teria nenhuma utilidade para navegação, orientação, observação ou estudo das estrelas! Muito provavelmente, estamos diante de um anel utilizado como objeto de ostentação entre os nobres do fim do século XVI ou início do século XVII!

O anel que aparece na imagem pertence ao acervo do Museu de História da Suécia, que por sua vez alega que o anel teria sido trazido da Alemanha no ano de 1632. No entanto, não se sabe muito sobre sua história. Ao longo deste artigo mostramos a vocês o que realmente sabemos sobre ele e, por isso, vale a pena ler tudo o que pesquisamos sobre o anel.

Por fim, o objeto soa uma tentativa de reproduzir, apenas de maneira bem simbólica, a chamada esfera armilar um antigo instrumento basicamente destinado a navegação que consistia num modelo reduzido do cosmo. As esferas armilares que se destinavam a ter alguma utilidade, no entanto, eram bem maiores que um anel, muito mais elaboradas, e repletas de marcadores. Já os símbolos que compõe o anel soam ser meramente decorativos.

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Jornalista, redator, e pesquisador de comunicação social com foco no combate a disseminação de notícias falsas. Colaborador do site de verificação de fatos E-farsas.com desde janeiro de 2019. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos, além de casos supostamente sobrenaturais.

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