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Há um pôster de abelhas na NASA dizendo que elas não foram feitas para voar?

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Há um pôster de abelhas na NASA dizendo que elas não foram feitas para voar?

Há um pôster de abelhas na NASA dizendo que elas não foram feitas para voar?

Em meados de setembro de 2020, nos deparamos com uma história muito estranha que viralizou nas redes sociais. De acordo com uma publicação no Facebook, que já obteve mais de 10 mil compartilhamentos desde o dia 14 (arquivo), haveria um pôster de abelhas na NASA com a seguinte frase:

Aerodinamicamente o corpo de uma abelha não é feito para voar; o bom é que a abelha não sabe

Ainda segundo a publicação, a lei da física diz que uma abelha não pode voar. Isso porque o princípio aerodinâmico diz que a amplitude de suas asas é muito pequena para conservar seu enorme corpo em voo, mas uma abelha não sabe disso. Ela não conhece nada sobre física, nem sua lógica, e voa de qualquer maneira.

Publicação que viralizou no Facebook.

Em seguida, a publicação termina com uma espécie de mensagem de autoajuda:

Isso é o que todos nós podemos fazer, voar, e prevalecer em cada instante diante de qualquer dificuldade, e diante de qualquer circunstância apesar do que disserem. Sejamos abelhas, não importa o tamanho das nossas asas, erguemos voo e desfrutaremos do pólen da vida

Entretanto, será que existe mesmo um cartaz na NASA dizendo isso? Existe algo inexplicável no voo de uma abelha? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Falso! Em primeiro lugar, a publicação se trata de uma antiga corrente de autoajuda, mas altamente enganosa, porque os cientistas conhecem muito bem o mecanismo de voo das abelhas. Em segundo lugar, não há nenhum indício de que haja um cartaz de abelhas na NASA com tais dizeres. Diga-se de passagem, nenhuma publicação apresenta esse tal pôster, mas apenas uma foto genérica de uma abelha.

A seguir vamos explicar direitinho essa história para vocês!

A Aparente Inspiração da Corrente

Aparentemente, essa corrente foi inspirada numa declaração do Dr. Julian Earls, um físico norte-americano que trabalhou cerca de 40 anos para a NASA, durante um fórum realizado pela agência aeroespacial norte-americana em 2010 chamado “Minority Student Education Forum.

Era um fórum basicamente destinado a estudantes de minorias raciais, no qual o Dr. Julian ficou encantado com o sonho de uma estudante chamada Keosha.

A estudante esperava se tornar uma ginecologista no futuro, e gostaria de abrir um hospital que oferecesse assistência médica gratuita a todos, independentemente de idade, do sexo e da etnia. Esse podia parecer um sonho distante, mas o objetivo do fórum era sonhar grande, alcançar o impossível, abrir as asas e voar.

Nesse sentido, o Dr. Julian declarou:

Você já ouviu a velha lei da física de que uma abelha não pode voar. Todo princípio aerodinâmico diz que a envergadura de sua asa é muito curta para suportar seu enorme corpo em voo. Mas a abelha não sabe disso. Nunca precisou da física. Ele simplesmente voa por todo o lugar, e é isso que você tem que fazer

Trecho onde mostra a declaração do Dr. Julian.

Tudo indica que foi daí que nasceu a inspiração para essa corrente.

A Desinformação Propagada Através do Filme “Bee Movie”

Embora o texto da corrente e a declaração do Dr. Julian Earls sejam muito bonitinhas, não é bem assim que as coisas funcionam. Conforme vocês já devem ter percebido, as abelhas voam e fazem isso por todos os lugares. A ciência por trás disso está na forma como elas batem as asas e os minúsculos “redemoinhos” gerados que as empurram para cima durante o voo.

Essa história é tão popular que apareceu no filme “Bee Movie”, uma animação da DreamWorks, lançada em 2007, ou seja, antes da declaração do Dr. Julian Earls.

Eis o que foi mencionado no filme:

De acordo com todas as leis conhecidas da aviação, não há como uma abelha ser capaz de voar. Suas asas são muito pequenas para tirar seu corpinho gordinho do chão. A abelha, é claro, voa de qualquer maneira. Porque as abelhas não se importam com o que os humanos pensam que é impossível

Trecho inicial do filme “Bee Movie”

Esse Mito Sobre as Abelhas está Cientificamente Incorreto! Entenda a Provável Origem!

Na verdade, as abelhas não desobedecem as leis da física. Se assim fizessem, as abelhas seriam responsáveis por perturbar o tempo e o espaço sempre que voassem, não é mesmo?

Enfim, esse mito parece remontar à década de 1930, quando o entomologista francês August Magnan observou que o voo de uma abelha deveria ser impossível, devido a forma aleatória como suas asas batiam.

E se as abelhas voassem como os aviões, ele estaria correto. Isso porque os aviões voam devido a um equilíbrio cuidadoso de quatro forças físicas: sustentação, arrasto, peso e empuxo. A força de sustentação deve equilibrar seu peso, e o empuxo deve exceder seu arrasto para possibilitar o voo. Os aviões usam asas para sustentação e motores para empuxo. O arrasto é reduzido graças a um formato aerodinâmico e materiais leves. A envergadura de um avião é grande o suficiente para satisfazer as equações de sustentação para o voo, portanto, elas não precisam bater.

Contudo, as pequenas asas de uma abelha, em comparação com seu corpo relativamente gordinho, não são. Um Boeing 747 decola, por exemplo, a uma velocidade média de 280 km/h, enquanto as abelhas não chegam nem perto dessa velocidade. Devido a baixa velocidade, e a grande quantidade de arrasto, quando as abelhas batem suas asas, pode parecer que elas não foram feitas para voar. No entanto, elas simplesmente voam de uma maneira completamente diferente.

Um Pouco Mais de História

Na década de 1970, Torkel Weis-Fogh, um professor de zoologia da Universidade de Cambridge, mostrou ao mundo como os insetos voavam. Suas ideias também permitiram certos vislumbres da astúcia da natureza. A asa de um inseto funciona estimulando o fluxo de ar sobre ela de tal forma que, quando o ar deixa a borda posterior da asa, ele se move para baixo. O redemoinho resultante produz um impulso para cima na asa. Infelizmente, leva algum tempo até que esses redemoinhos se formem, o que tornaria especialmente complicado para as abelhas.

Em 1996, um zoólogo britânico chamado Charlie Ellington, também da Universidade de Cambridge, mostrou como os vórtices ao longo da ponta das asas de muitos insetos eram uma fonte vital de sustentação. A maioria dos insetos batem suas asas de maneira bem ampla normalmente batendo em arcos de 145° a 165° a uma frequência determinada pelo tamanho do corpo para gerar forças aerodinâmicas suficientes para o voo.

Contudo, isso não explicava como um inseto pesado, com uma batida de asa curta, assim como uma abelha, gerava sustentação suficiente para voar.

Um Estudo Publicado em 2005 Ajudou a Entender como as Abelhas Voavam

Um estudo publicado em 2005 finalmente ajudou a explicar a maneira como as abelhas voavam. Os cientistas compararam as abelhas com as moscas-das-frutas e descobriram que uma mosca-das-frutas tinha um comprimento médio de asa de 2,5 mm, e batia as asas cerca de 200 vezes por segundo. Em comparação, as abelhas tinham um comprimento médio de asa de 9,7 mm, e batiam as asas cerca de 240 vezes por segundo.

Outro ponto levantado foi que as moscas-das-frutas eram 80 vezes menores que as abelhas. Esse comparativo foi considerado surpreendente, porque insetos menores geralmente precisam bater as asas mais rápido para compensar a diminuição do desempenho aerodinâmico.

Um estudo publicado em 2005 finalmente ajudou a explicar a maneira como as abelhas voavam.

No estudo, os pesquisadores colocaram as abelhas em uma pequena câmara cheia de oxigênio e hélio, que é menos denso que o ar normal. As abelhas tiveram que se esforçar bem mais para se manter no ar, o que permitiu à equipe observar como elas compensavam. Eles viram que as abelhas estendiam a amplitude do movimento das asas, mas não ajustaram a frequência.

O estudo também mostrou que as abelhas batem suas asas para frente e para trás, não para cima e para baixo. É justamente essa orientação do bater das asas, que pode ter feito com que August Magnan se metesse em maus lençóis com a Ciência.

A asa de um avião, por exemplo, força o ar para baixo, o que empurra o avião para cima. Os insetos giram parcialmente suas asas. Em vez de ser como uma hélice, o ângulo da asa cria vórtices no ar como pequenos redemoinhos. Os olhos desses redemoinhos têm uma pressão mais baixa do que o ar externo, o que ergue as abelhas. Some isso a velocidade incrivelmente rápida do bater de suas asas e voilá, eis o segredo do voo das abelhas.

Um Interessante Vídeo no YouTube

Confira abaixo um interessante vídeo no YouTube, onde é mostrado o bater das asas de abelhas em super câmera lenta:

Portanto…

…da próxima vez que alguém disser que uma abelha não foi feita para voar, você deve informar a essa pessoa de que isso é apenas um mito perpetuado pela cultura popular. Na realidade, as abelhas simplesmente criam mini-redemoinhos onde quer que vão, o que é muito mais fácil de entender.

Conclusão

Falso! Em primeiro lugar, a publicação se trata de uma antiga corrente de autoajuda, mas altamente enganosa, porque os cientistas conhecem muito bem o mecanismo de voo das abelhas. Em segundo lugar, não há nenhum indício de que haja um cartaz de abelhas na NASA com tais dizeres. Diga-se de passagem, nenhuma publicação apresenta esse tal pôster, mas apenas uma foto genérica de uma abelha.

Jornalista e colaborador do site de verificação de fatos E-farsas entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos e casos supostamente sobrenaturais.

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