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Será verdade que uma cobra-cega gigante foi encontrada na Colômbia?

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Será verdade que uma cobra-cega gigante foi encontrada na Colômbia?

Será verdade que uma cobra-cega gigante foi encontrada na Colômbia?

No dia 16 de julho de 2020, uma determinada página do Facebook, pretensamente destinada a divulgação científica (arquivo), chamada “ConheCIÊNCIA”, disseminou uma história de que uma cobra-cega gigante foi encontrada na Colômbia.

Sem fornecer nenhum link, mas alegando ter se baseado em textos publicados no portal G1, site do jornal Folha de São Paulo, e no site da National Geographic, a página também divulgou a suposta imagem dessa tal “cobra cega gigante”.

Confira abaixo a publicação:

Publicação da página “ConheCIÊNCIA”.

O texto dizia que a imagem retratava um espécime de cobra-cega gigante (Caecilia pachynema), exposto num museu (dando a entender que seria da Colômbia), mostrando suas três fileiras de dentes. Também foi mencionado que, embora as criaturas fossem chamadas de cobras, na verdade eram anfíbios. Além disso, também foi dito que um estudo do Instituto Butantan teria encontrado a presença de veneno em uma espécie encontrada no Brasil.

Entretanto, será que essa história é verdadeira ou falsa? Será que uma cobra-cega gigante foi encontrada na Colômbia? O estudo do Instituto Butantan realmente concluiu isso? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Falso! Em primeiro lugar, não foi encontrada nenhuma cobra-cega gigante na Colômbia. Em segundo lugar, embora a foto seja verdadeira e realmente retrate um espécime de “cobra-cega”, que na verdade é um anfíbio (conforme mencionado na publicação) chamado de cecília, ela é antiga, claramente não é tão “gigante” assim (basta ver a comparação com um polegar humano) e foi tirada no Equador!

Já em relação a um estudo do Instituto Butantan, que teria concluído a presença de veneno numa espécie de “cobra-cega” encontrada no Brasil, não foi bem isso que o estudo demonstrou. A propagação dessas informações, ao que tudo indica, denota um grave problema de leitura dos textos que foram utilizados como fontes para compor a publicação no Facebook.

A seguir, vamos explicar direitinho essa história para vocês.

A Origem do Problema: A Má Interpretação da Matéria da National Geographic

Para compor esse texto, a página muito provavelmente se baseou numa matéria intitulada “Cuidado onde pisa: cobras-cegas encontradas no Brasil podem ter saliva venenosa“, de 7 de julho de 2020, que é basicamente uma tradução de outros dois textos publicados em espanhol e inglês pela própria National Geographic.

Nesta matéria é possível encontrar a foto utilizada pela página “ConheCIÊNCIA”, mas em nenhum momento é mencionado que uma cobra-cega (cecília) gigante foi encontrada na Colômbia. Aliás, tampouco é mencionado que o espécime da foto se encontra em quaisquer museus da Colômbia.

Nesta matéria é possível encontrar a foto utilizada pela página “ConheCIÊNCIA”, mas em nenhum momento é mencionado que uma cobra-cega (cecília) gigante foi encontrada na Colômbia.

Eis o que foi mencionado na legenda:

Um espécime de cobra-cega gigante (Caecilia pachynema), exposto em museu, mostra suas três fileiras de dentes.

De acordo com o texto, existem cerca de 200 espécies de cecílias (o comprimento da Caecilia pachynema varia entre 47 a 94 cm). O texto cita uma outra espécie chamada Caecilia thompsoni, que pode ser encontrada na Colômbia, e que poderia chegar até 1,5 metro de comprimento, ou seja, bem maior que a anterior. Provavelmente, foi a má interpretação do texto que gerou toda essa confusão.

O texto cita uma outra espécie chamada Caecilia thompsoni, que pode ser encontrada na Colômbia. Essa outra espécie poderia chegar até 1,5 metro de comprimento, ou seja, bem maior que a anterior.

A Origem da Foto: Entramos em Contato com o Fotógrafo

A foto foi tirada por um fotógrafo chamado Alejandro Arteaga em 13 de janeiro de 2019. Diga-se de passagem, ele já havia publicado essa foto no site “Tropical Herping” naquela mesma época. O “Tropical Herping” é uma iniciativa do próprio Alejandro, que visa preservar répteis e anfíbios tropicais por meio de turismo, fotografia, pesquisa e educação.

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Essa foto faz parte de um artigo intitulado “What is this alien amphibian and where does it come from?“. Nele, Alejandro menciona que o espécime em questão teria sido capturado durante uma expedição de campo até um trecho remoto e quase intacto de floresta na província de El Oro, no Equador.

A foto faz parte de um artigo intitulado “What is this alien amphibian and where does it come from?”

Assim sendo, entramos em contato com Alejandro! Ele nos confirmou essa história e disse que, na época, o espécime foi levado para o Museu de Zoologia (ZSFQ) de Universidade San Francisco de Quito. Portanto, nada de cobra-cega gigante encontrada na Colômbia ou exposta num museu da Colômbia.

Algumas Curiosidades

As cecílias são, em princípio, inofensivas aos seres humanos e se alimentam basicamente de minhocas ou pequenos animais. Elas vivem no subsolo e, apesar do apelido que carregam, não são totalmente cegas e, conforme já vimos anteriormente, tampouco cobras. Seus olhos são bem pequenos e muito pouco funcionais, por assim dizer.

E a História de que o Instituto Butantan Publicou um Estudo Sobre a Presença de Veneno Numa Espécie Encontrada no Brasil

Na verdade, pesquisadores do Instituto Butantan com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) publicaram um estudo num periódico chamado iScience, onde foi mostrado que as cecílias possuem glândulas na boca com canais que direcionam à base dos dentes. Com a descoberta dessas glândulas, os pesquisadores esperam encontrar substâncias, numa eventual peçonha, que sejam capazes de paralisar uma presa.

A pesquisa conta com uma comprovação anatômica, mas apenas a análise bioquímica poderá dizer que as cobras-cegas são, de fato, peçonhentas e, consequentemente, os primeiros anfíbios a possuírem uma defesa ativa. Há muitos pontos a favor disso, mas é necessário cautela. Anatomicamente faz sentido, existe até uma análise simplificada da presença de uma enzima presente na secreção expelida pelas cecílias, comum na peçonha de serpentes, mas ainda não há uma certeza absoluta.

E, tudo isso que dissemos acima consta no texto publicado pelo Portal G1, de 7 de julho de 2020, intitulado “Pesquisadores do Butantan podem ter descoberto primeiro anfíbio peçonhento da história“. Logo, qualquer versão diferente disso denota, no mínimo, uma má interpretação de texto.

O Artigo da Folha de São Paulo

Numa tentativa de alegar que a publicação estava muito bem embasada em fontes credíveis houve a menção uma menção a “Folha de São Paulo”. Muito provavelmente, a referência aqui é uma matéria intitulada “Espécie brasileira de cobra-cega tem glândulas de veneno similares às de serpentes“.

No texto é mencionado que a espécie estudada era a Siphonops annulatus. Essa espécie mede até 45 cm, e pode ser encontrada nas chamadas cabrucas, como são conhecidas as combinações de árvores nativas e cacaueiros do sul da Bahia. No entanto, o texto mencionou que ainda falta estudar em mais detalhes a toxicidade e os efeitos bioquímicos das secreções.

Tudo o que temos, portanto, são comparativos anatômicos e uma análise simplificada, mas não há estudo específico comprovando isso de forma definitiva.

Conclusão

Falso! Em primeiro lugar, não foi encontrada nenhuma cobra gigante na Colômbia. Em segundo lugar, embora a foto seja verdadeira e realmente retrate um espécime de “cobra-cega”, que na verdade é um anfíbio (conforme mencionado na publicação), ela é antiga, claramente não é gigante (basta ver a comparação com um polegar humano) e foi tirada no Equador! Na época, o espécime foi levado para o Museu de Zoologia (ZSFQ) de Universidade San Francisco de Quito. Portanto, nada de cobra-cega gigante encontrada na Colômbia ou em museu da Colômbia.

Já em relação a um estudo do Instituto Butantan, que teria concluído a presença de veneno em uma espécie de “cobra-cega” encontrada no Brasil, não foi isso que o estudo demonstrou. Na verdade, pesquisadores do Instituto Butantan com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) publicaram um estudo num periódico chamado iScience, onde foi mostrado que as cecílias possuem glândulas na boca com canais que direcionam à base dos dentes.

Com a descoberta dessas glândulas, os pesquisadores esperam encontrar substâncias, numa eventual peçonha, que sejam capazes de paralisar uma presa. Anatomicamente faz sentido, existe uma análise simplificada da presença de uma enzima presente na secreção expelida pelas cecílias, comum na peçonha de serpentes, mas ainda não há uma certeza absoluta.

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Colaborador do E-farsas desde janeiro de 2019. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos, além de casos supostamente sobrenaturais. Na dúvida, não compartilhe. Reflita, faça uma busca reversa por imagens e pesquise por outras fontes.

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