É verdade que uma pesquisa fraudada mudou o padrão de sono da humanidade?
Uma pesquisa fraudada pela fábrica de colchões Simmons Beautyrest teria feito com que o mundo abandonasse o sono bifásico para dormir 8 horas por noite?
A alegação surgiu nas redes sociais no final de junho de 2026, sendo também bastante compartilhada em grupos do WhatsApp e do Telegram. De acordo com o que foi disseminado, a humanidade havia passado 200 mil anos de sua história dormindo o chamado “sono bifásico” (em dois turnos de 4 horas cada) e que, a partir de uma pesquisa feita por um doutor chamado Nathaniel Kleitman a pedido da fábrica de colchões Simmons Beautyrest, em 1938, o ser humano passou a dormir um único sono de 8 horas.
O estudo, segundo o que diz a publicação viral, teria sido fraudado pelo dr. Kleitman para alavancar as vendas do principal produto da empresa: colchões.
O texto ainda diz que as pessoas aproveitavam o intervalo entre esses turnos para exercitar sua criatividade, citando Mozart como exemplo (que teria composto suas melhores obras sinfônicas nesse tempo em que ficava sem dormir).
Será que isso é verdade ou mentira?

Texto de uma das versões compartilhadas no Instagram: “Você não precisa de 8 horas de sono. Por 200.000 anos, os humanos não dormiram 8 horas seguidas. Esse número foi inventado em 1938 por uma empresa de colchões chamada Simmons Beautyrest. Antes dessa campanha, o ser humano médio dormia em dois turnos. Historiadores chamam isso de “Sono Bifásico”. Você dormia por 4 horas, acordava por 2 e depois dormia por mais 4. Durante esse intervalo de 2 horas, as pessoas oravam, faziam amor, escreviam, pensavam e se conectavam. Algumas das maiores obras da história da humanidade foram criadas nesse intervalo sagrado. Shakespeare escreveu a maioria de suas peças entre 1h e 3h da manhã, durante seu segundo período de vigília. Mozart compôs sinfonias inteiras no que ele chamava de “As Horas de Deus”. Então, a Revolução Industrial precisou de trabalhadores com horários fixos.
Você não consegue administrar uma fábrica com sono bifásico. Então, contrataram um psicólogo chamado Dr. Nathaniel Kleitman para “provar” que 8 horas consecutivas eram o padrão biológico.
O Dr. Nathaniel Kleitman falsificou os estudos. Ele foi financiado inteiramente pela indústria de colchões.
E a comunidade médica adotou sua pesquisa sem questionar, porque ela se alinhava ao modelo fabril. Transformaram as 2 horas mais criativas da consciência humana em um “distúrbio do sono”. Chamaram isso de “insônia”. Patologizar justamente o período de consciência que produziu algumas das maiores obras de arte, música e literatura da história da humanidade. Você não tem insônia. Você está experimentando a forma mais natural de consciência humana. E uma empresa de colchões convenceu você de que era uma doença. Pare de medicar seu gênio. Acorde às 2 da manhã. Escreva.As “Horas Divinas” estão chamando. A maioria das pessoas se concentra na nutrição. As pessoas mais saudáveis protegem seu sono. Dormir mal afeta: * Função cerebral * Hormônios * Gordura abdominal *Recuperação * Longevidade” (foto: Reprodução/Instagram)
Verdade ou mentira?
É verdade que a humanidade tinha o hábito de dormir em dois turnos, mas não é verdade que apenas uma pesquisa fraudulenta tenha alterado essa prática tão ancestral.
Em 1990, o historiador inglês Roger Ekirch concluiu, após mais de duas mil referências históricas da Antiguidade até o século XIX, que as pessoas tinham o “primeiro sono” e o “segundo sono”, com um intervalo variável entre esses dois turnos. Uma curiosidade é que o frade franciscano francês André Thevet, que integrou a expedição à “França Antártica” (na baía de Guanabara, Rio de Janeiro) em 1555, também descreveu com surpresa que os hábitos noturnos dos povos indígenas Tupinambás eram fracionados, da mesma forma que os europeus.
Diferente do que a postagem viral afirma, o sono bifásico não era dividido em dois blocos de 4 horas cada. Estudos mostram que o chamado “primeiro sono” começava por volta das 21h e terminava à meia-noite. Já o “segundo sono” durava até o amanhecer. As pessoas usavam esse tempo para rezar, ler, conversar, fazer tarefas domésticas, ter relações sexuais ou até visitar vizinhos. Era o momento também que os fazendeiros faziam uma ronda pelo terreno, verificando se os animais estavam em segurança e para expulsar possíveis invasores.
A mudança veio com a luz elétrica
O comportamento da humanidade mudou drasticamente com a revolução industrial, no final do século XVIII e início do século seguinte, sobretudo com o advento da luz elétrica, que propiciou o povo ir dormir mais tarde, juntando os dois turnos do sono em apenas um.
Ao mesmo tempo, o surgimento das fábricas e dos turnos rígidos de trabalho exigiu que as pessoas otimizassem o tempo: o período acordado no meio da noite passou a ser visto como improdutivo. Assim, a sociedade moldou gradativamente o relógio biológico para concentrar todo o descanso em um único bloco (sono monofásico).
Veja também:
O Dr. Nathaniel Kleitman e a máfia dos colchões
Não encontramos nenhuma prova de que uma fábrica de colchões teria encomendado um estudo fraudulento sobre o sono para vender mais. O Dr. Nathaniel Kleitman (1895–1999) é considerado o “pai da pesquisa moderna sobre o sono”, mas ele não teve uma participação direta na transição histórica do sono bifásico para o monofásico, já que essa mudança ocorreu no século XIX com a Revolução Industrial, muito antes dele iniciar sua carreira.
As pesquisas do dr. Kleitman foram fundamentais para explicar como e por que a biologia humana reage a certas estruturas de sono, ajudando a moldar a ciência por trás dos ciclos biológicos. É errado afirmar que ele fraudou estudos a pedido da “máfia dos colchões”.
O sono bifásico é melhor?
Não há muitos estudos que comprovam que dormir “parcelado” seja melhor que um sono único de mais horas. Também não é consenso que dormir direto seja melhor. Não há evidências de que um adulto saudável precise obrigatoriamente dormir em um único bloco contínuo. O que parece importar mais é:
- dormir horas suficientes (geralmente 7–9 horas para adultos);
- manter um horário relativamente regular;
- ter boa qualidade de sono.
Se a pessoa dorme em mais de um bloco por noite e acorda descansada e sem sonolência durante o dia, não há motivo para se preocupar. O problema costuma surgir quando a pessoa:
- se preocupa por estar acordada;
- tenta forçar o sono;
- começa a associar a cama à ansiedade.
Esse ciclo pode evoluir para insônia e deve ser investigado por um médico especialista em sono.
O sono bifásico pode ser ruim quando ocorre junto com:
- roncos intensos e pausas respiratórias (possível Apneia obstrutiva do sono);
- necessidade frequente de urinar;
- dores;
- ansiedade;
- depressão;
- uso de álcool ou alguns medicamentos.
Nesses casos, o sono está sendo fragmentado por uma causa, e não porque esse é o padrão natural da pessoa.

Mozart compunha durante os intervalos de sono?
Não há evidências de Wolfgang Amadeus Mozart tenha “aproveitado” o intervalo entre um “primeiro sono” e um “segundo sono” para compor suas obras. As cartas de Mozart e os relatos de pessoas próximas mostram que sua rotina variava bastante conforme a quantidade de encomendas, concertos e aulas. Em certos períodos ele trabalhava até tarde da noite, mas também costumava acordar muito cedo. Em uma carta de 1791, por exemplo, ele escreveu que havia se levantado às 4h30 da manhã para compor uma ária antes de outros compromissos.
Conclusão
É verdade que a nossa espécie passou milênios dormindo em blocos, mas esse comportamento foi mudando a partir da revolução industrial. Não há provas de que a indústria de colchões tenha feito lobby para fazer com que as pessoas dormissem mais. Se você não tem o sono bifásico, não force esse costume!








