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Jovem com morte cerebral ressuscitou após familiares cantarem louvores?

Acidentes

Jovem com morte cerebral ressuscitou após familiares cantarem louvores?

Jovem com morte cerebral ressuscitou após familiares cantarem louvores?

Recentemente, a história sobre uma jovem com morte cerebral, que teria ressuscitado após familiares cantarem louvores, viralizou nas redes sociais. Segundo o site “Bíblia Sagrada de Estudo“, a “família de uma adolescente com morte cerebral declarada pelos médicos acreditou que um milagre era possível, e se reuniu para cantar hinos no quarto onde a jovem estava internada“. Ainda segundo o site, o “resultado do gesto de fé vem sendo noticiado pelos maiores portais de comunicação dos Estados Unidos.

O nome da jovem seria Lexi Hansen, uma estudante de 18 anos de idade. Lexi tinha apenas 5% de chance de sobreviver quando deu entrada no hospital após ser atropelada enquanto andava de longboard. Com severos danos cerebrais, Lexi teria passado por testes que acusaram morte cerebral, mas os pais da jovem optaram por não desligar os aparelhos. Após vários dias, a jovem teria despertado no dia 9 de março (descrito como “último domingo”), enquanto seus familiares cantavam hinos ao seu redor. Incrível, não é mesmo?

Publicação do site “A Bíblia Sagrada em Estudo”.

Entretanto, será que essa história é verdadeira? Uma jovem com morte cerebral ressuscitou de forma milagrosa? Qual a verdade por trás dessa história? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Fora de contexto! A história relatada pelo site “Bíblia Sagrada de Estudo” foi tirada completamente do seu contexto original! Em primeiro lugar, esse caso é bem antigo, visto que o atropelamento da jovem chamada Lexi Hansen data de fevereiro de 2014! Em segundo lugar, Lexi não teve a morte cerebral declarada pelos médicos. Na verdade, Lexi despertou alguns dias após ter ficado em coma, um estado clínico bem diferente da morte cerebral. Além disso, o despertar de Lexi não ocorreu exatamente a partir o canto de louvores por parte de familiares.

Na parte final do texto, o site “Bíblia Sagrada de Estudo” citou duas fontes, mas não incluiu nenhum link. A primeira fonte foi um site chamado “Lifenews“. Segundo esse outro site, Lexi estava se recuperando, teria voltado a falar e daria início a um processo de fisioterapia. Já o texto do site “Bíblia Sagrada de Estudo” em si teria partido de um outro site chamado “Portal do Trono. Encontramos essas fontes, e no decorrer do artigo vocês irão perceber o quão desastrosas eles são ou foram, visto que o artigo do site “Portal do Trono” foi apagado ao longo da linha do tempo.

Portanto, a seguir vamos contar direitinho essa história para vocês!

O Acidente Envolvendo uma Jovem Norte-Americana Chamada Lexi Hansen

No dia 24 de fevereiro de 2014, pouco antes das 18h30, Lexi Hansen, 18 anos, então estudante da Brigham Young University, estava andando de longboard próximo ao campus da sua universidade. A Brigham Young University é uma instituição de ensino particular de propriedade da “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias” (popularmente conhecida como “Igreja Mórmon” embora não seja um termo correto), que fica localizada na cidade de Provo, no estado norte-americano de Utah.

Lexi, que pertence a uma família de mórmons, estava sem capacete e indo em direção a universidade para estudar.

Num determinado cruzamento, no entanto, Lexi foi atropelada por um carro. Testemunhas teriam dito a polícia, que Lexi estava usando fones de ouvido e acabou se chocando contra um carro que estava virando a esquina. Um detalhe interessante é que o motorista, chamado Karson Pasker, tinha preferência de passagem, ou seja, o erro, em princípio, teria sido cometido por Lexi.

Para completar, não teria sido constatada a influência de álcool ou drogas, naquilo que polícia denominou apenas de “infeliz acidente”.

O Blog de Amanda Hansen: A Esposa do Irmão de Lexi

Na época, Lexi Hansen foi encaminhada para o Utah Valley Hospital, também localizado na cidade de Provo. Tanner, irmão de Lexi, juntamente com sua esposa, a Amanda, foram os primeiros familiares que chegaram no hospital. Posteriormente, um por um, os demais familiares também foram até o hospital. Nesse sentido, existe um blog muito interessante, chamado “The Happy Hansens“, que é gerenciado pela esposa do irmão de Lexi. Nesse blog, Amanda conta detalhes importantes do que a equipe médica do hospital teria dito para os familiares.

Inicialmente, Amanda relatou que um assistente social chamado Travis explicou para eles, que Lexi apresentava sangramentos na parte profunda e, possivelmente, nas camadas superiores do cérebro. Ela também tinha uma fratura na vértebra C2 da coluna cervical e contusões nos pulmões. O rosto de Lexi estava muito inchado e repleto de sangue. Em seguida, um médico apareceu para dizer que a jovem tinha sofrido uma lesão por cisalhamento na região subaracnoide do cérebro, além de sangramento na região epidural ou subdural. Não havia como operá-la devido a extensão da lesão.

Trecho do blog “The Happy Hansens“, que é gerenciado pela esposa do irmão de Lexi

Uma página no Facebook chamada “Pray for Lexi” chegou a ser criada pelos familiares no dia seguinte ao acidente (27). A página recebeu inúmeras manifestações de apoio, carinho e solidariedade de todas as partes do mundo, inclusive do Brasil.

A Escala de Coma de Glasgow

Após resultados de uma tomografia computadorizada, a família foi informada que Lexi, talvez, tivesse 1 ou 2% de chances de sobreviver. Amanda questionou essa porcentagem e disse que estava estudando Enfermagem, logo queria saber detalhes mais específicos sobre o estado de saúde da cunhada. Então, Amanda teria sido informada que Lexi chegou na emergência com nível 3 na chamada Escala de Coma de Glasgow (ECS) – um método para definir o estado neurológico de pacientes com uma lesão cerebral aguda analisando seu nível de consciência.

A ECG foi criada em 1974 por Graham Teasdale e Bryan J. Jennett (ambos do Instituto de Ciências Neurológicas de Glasgow). Ela foi atualizada em 2018, quando foi criada uma nova escala chamada de “ECG-P”. A escala original (ECG) considera três fatores principais e determina uma pontuação de acordo com o nível de consciência apontada em cada um desses fatores (espontaneamente ou através de estímulo). São eles: abertura ocular, resposta verbal e melhor resposta motora. Confira a tabela abaixo (em português):

Amanda teria sido informada que Lexi chegou na emergência com nível 3 na chamada Escala de Coma de Glasgow (ECS).

Após a análise desses fatores, a atualização de 2018 indicou mais um ponto a ser observado: a reatividade pupilar, que é subtraída da pontuação anterior, gerando um resultado final mais preciso. Confira a tabela e o cálculo abaixo (em inglês):

A atualização de 2018 indicou mais um ponto a ser observado: a reatividade pupilar.

Em Nenhum Momento Foi Declarada a Morte Cerebral de Lexi

Uma pontuação de 8 ou menos na ECG configura uma definição geralmente aceita de coma ou lesão cerebral grave. A menor somatória possível de fatores, testáveis, na ECG é 3 (na ECG-P é 1). Portanto, na prática, isso significava que o estado de saúde de Lexi era extremamente grave, mas ela não estava morta! De acordo com Amanda, quando a ambulância de regaste chegou para socorrer Lexi, ela não estava respirando. Segundo ela, Lexi teve que passar por um procedimento de reanimação, a famosa RPC (reanimação cardiorrespiratória). De qualquer forma, em nenhum momento foi declarada sua morte cerebral.

É importante ressaltar também, que do dia 26 de fevereiro até o dia 2 de março, Lexi aparentemente apresentou uma ligeira melhora em seu estado de saúde. Isso porque, de acordo com a “ABC News“, num determinado momento Lexi teria aberto um dos seus olhos, mas os médicos não sabiam se ela tinha consciência do que estava fazendo. Para completar, a própria mãe de Lexi, Marcia Hansen, declarou que a sensação era que Lexi estava melhorando dia após dia.

O Domingo de Louvor da Família Hansen

Desde o início dezenas de populares foram até o hospital visitar os familiares. Muitos levaram comida, oraram e ofereceram um ombro para que os familiares pudessem chorar. Até que, cerca de quatro dias após o acidente, no dia 2 de março, um domingo, o estado de saúde de Lexi mudou completamente!

Nesse dia, num determinado momento, alguns familiares de Lexi estavam no quarto do hospital, ao lado de sua cama. Quando Amanda e Tanner entraram, Lexi começou a piscar os olhos com dificuldade. Em seguida, ela olhou diretamente para o irmão e a cunhada, os acompanhando pelo quarto. Esse momento, ao menos para Amanda, foi classificado como um verdadeiro milagre. Então, eles correram para chamar os demais familiares, que estavam numa sala de espera. Todos entraram no quarto, fecharam a porta, e começaram a cantar hinos de louvor para Lexi, assim como eles já vinham fazendo desde o dia do acidente.

Quando Amanda e Tanner entraram, Lexi começou a piscar os olhos com dificuldade. Em seguida, ela olhou diretamente para o irmão e a cunhada, os acompanhando pelo quarto.

Enquanto cantavam, Lexi teria aberto completamente os olhos, e olhou para cada um dos familiares que estava ao seu redor. Segundo Amanda, Lexi teria estendido a mão para tentar tocar os familiares. Já de acordo com a mãe de Lexi, esse momento de louvor teria durado cerca de uma hora, período pelo qual a jovem teria permanecido com os olhos abertos. Marcia também chegou a dizer que a filha teria feito um gesto, um sinal de “Eu amo você” com uma das mãos, em direção aos familiares.

As Primeiras Palavras Escritas por Lexi Hansen

Ainda no domingo, no período da noite, de acordo com Amanda, Lexi teria escrito sua primeira palavra, “water” (água, em inglês), ao ser perguntada sobre o que ela queria. Quando o irmão perguntou seu nome, a jovem escreveu “Lexi”, demonstrando o grau de consciência que ela tinha naquele momento. Ela ainda teria tentado escrever mais algumas palavras, mas só saíram rabiscos.

A Carta do Motorista que Atropelou Lexi Hansen

Segundo Amanda, por volta das 23h de domingo, uma carta direcionada aos familiares foi deixada no hospital. O autor? O motorista que atropelou Lexi. Até então, os familiares não tinham tido nenhuma espécie de contato com ele. Karson Pasker ficou muito abalado com toda a situação. Amanda disse que não tinha como mensurar o tormento, a dor e a tristeza que ele estava passando. Na carta, Karson deixou um telefone e um email para contato.

No dia seguinte (3), a mãe de Lexi entrou em contato com ele. Ela simplesmente disse que acidentes aconteciam e que ele havia sido o catalisador para que o milagre acontecesse. Ela também disse que sentia muito por ter sido ele, mas estava muito agradecida pelo poder de Deus e por ter testemunhado o que denominou de incrível milagre. Karson disse que iria encontrar com os familiares e jantar com eles naquela noite.

Karson Pasker ao lado de Lexi Hansen, ainda em processo de recuperação.

Na hora combinada, já no hospital, Tanner o encontrou no elevador e eles entraram no quarto onde Lexi estava. Ele estava vestido de terno e gravata e trouxera flores e uma enorme caixa de cupcakes gourmet. Ele relatou o quão nervoso ele estava por estar lá e que nunca quis causar dor a ninguém em sua vida inteira. Disse também não havia entrado em contato antes, porque não sabia como seria recebido. Karson chegou a visitar a família Hansen em outras ocasiões, sendo que a mãe de Lexi declarou que ele já era um membro da família. Sinceramente, um bonita lição de amor ao próximo.

Plenamente Recuperada, Lexi Hansen se Tornou um Símbolo de Luta pela Vida

Naquele mesmo dia, Lexi passou a respirar por conta própria, ou seja, sem a ajuda dos aparelhos. E, gradualmente, ao longo das semanas e meses seguintes ela conseguiu se recuperar plenamente. Ela simplesmente voltou a fazer tudo aquilo que ela fazia antes! Durante o período de recuperação, Lexi passou por uma cirurgia nas pernas, terapia cognitiva e reaprendeu a caminhar. Cerca de dois meses após o acidente, ela já estava andando sozinha, e foi uma questão de tempo até retomar as aulas na universidade.

Lexi Hansen ao lado da mãe, Marcia Hansen.

Existe um curto vídeo intitulado “Longboarder Gets Hit By Car And Befriends Driver – The Story of Lexi Hansen“, que conta rapidamente a história de Lexa, e que pode ser visto no YouTube. Ele foi publicado cerca de um ano e um mês após o acidente. Confira-o abaixo:

No vídeo, Lexi aparece dizendo:

Nunca fiquei realmente com raiva do Karson… Nunca realmente pensei que a culpa fosse dele… Foi apenas um acidente. Está tudo bem. Não estou com raiva dele, e ele é uma pessoa tão boa que é fácil amá-lo.”

Se em Nenhum Momento Foi Mencionada a Morte Cerebral de Lexi, de Onde Partiu Essa Informação?

Sempre que possível, gosto de mostrar a vocês a origem do erro, ou seja, como que uma história consegue ser divulgada de maneira tão distorcida a esse ponto. Será que foi de propósito? Houve algum descuido na tradução? Quem sabe uma interpretação errada dos acontecimentos? Nesse caso posso dizer que houve de tudo um pouco.

A Notícia Veiculada pelo Site “LifeNews

Vamos começar com o texto publicado pelo questionável site “LifeNews”, que foi uma das fontes citadas pelo site “Bíblia Sagrada de Estudo“. Vale ressaltar nesse ponto, que o “LifeNews” já apareceu aqui, no E-Farsas, em relação a supostos funcionários de uma suposta clínica de aborto que manusearam, de forma jocosa, supostos bebês abortados. Lembram desse caso?

Enfim, vejam o que o “LifeNews” publicou em relação ao caso da Lexi Hansen, no dia 10 de março de 2014:

O texto publicado pelo questionável site “LifeNews”, que foi uma das fontes citadas pelo site “Bíblia Sagrada de Estudo“.

Intitulado “‘Brain Dead’ Teenager Awakens From Coma After Her Family Sings Hymns” (“Adolescente com ‘morte cerebral’ acorda do coma após sua família ter cantado hinos”), esse artigo é um exemplo covarde, cruel e sombrio de desinformação em sua pior vertente. E olha que o artigo é de autoria do Steven Ertelt, editor e fundador do site “LifeNews“.

A Covardia do “LifeNews

O problema do artigo começa pelo título. Repararam que eles colocaram o termo “brain dead” (“morte cerebral”, em português) entre aspas? Isso denota que a história não era bem aquela, mas ainda assim o termo foi utilizado para induzir o leitor ao erro, na esperança que isso não fosse notado. De fato, as aspas raramente são notadas ou devidamente interpretadas se formos considerar tão somente o leitor mediano. Na prática, nesse caso, geralmente funciona como uma tentativa velada de descredibilizar a ciência, fazer o assunto viralizar diante do alarmismo gerado, e promover tão somente o aspecto religioso.

Em seguida, o texto menciona que o site já havia reportado “repetidamente casos de pessoas que foram prematuramente declaradas mortas ou que se dizem em estados vegetativos supostamente persistentes que finalmente se recuperaram“. Isso é muita covardia com o leitor por dois motivos básicos:

  1. Nenhuma pessoa que tenha realmente tido uma morte encefálica ressuscitou até hoje. Os casos que são noticiados dessa forma na imprensa, em sua absoluta maioria, são totalmente imprecisos, incorretos ou sensacionalistas. Geralmente, os textos distorcem as informações oficiais, sequer há uma apuração adequada ou a opinião de médicos da área (daqui a pouco comentaremos mais a fundo);
  2. Morte cerebral, coma e estado vegetativo são estados clínicos completamente diferentes entre si.

A Péssima Utilização da Declaração de Marcia Hansen

Em seguida, o texto diz:

Numa entrevista quinta-feira à noite para a ABC News, Marcia Hansen, a mãe da adolescente, disse que os testes indicaram que sua filha estava essencialmente com morte cerebral quando foi levada ao Centro Médico Regional de Utah Valley, em Provo

Apesar desse trecho ter sido realmente retirado do site da “ABC News, não existe essa história de “essencialmente com morte cerebral”. A pessoa está ou não está morta. Foi ou não foi oficialmente declarada com morte cerebral. Não existe “quase morte cerebral”, “perto da morte cerebral” etc..

É importante destacar que estamos falando de uma mãe, emocionalmente abalada, perante o estado gravíssimo de saúde de uma filha com apenas 18 anos. Não podemos exigir precisão em suas declarações diante de tantas informações e acontecimentos ao seu redor.

Lexi Hansen e sua mãe, Marcia Hansen, ainda no hospital.

Além disso, Marcia Hansen não é médica e não demonstra ter nenhum conhecimento na área diante das declarações que deu. Por exemplo, a mãe chegou a dar a seguinte declaração:

Entre em contato com o E-farsas

(11) 96075-5663 - t.me/efarsas

Ela tinha zero por cento de chance de conseguir quando entrou e depois um por cento. Eles nem tinham chegado a dar pontos no rosto dela

Evidentemente, as chances de Lexi sobreviver eram muito pequenas, mas não era 0%. Lexi deu entrada no hospital em estado gravíssimo, em coma, mas não com morte cerebral. Ela não voltou do mundo dos mortos após seu cérebro ter perdido completamente todas as suas funções. Apesar dos danos, seu cérebro conseguiu se recuperar (algo que iremos conferir mais adiante).

A Disseminação do Erro ao Longo dos Anos, Inclusive no Brasil

Para sermos justos, não foi somente o “LifeNews” que tentou distorcer o que realmente aconteceu no caso de Lexi. Como exemplo, tivemos o site “Family Today“, que foi ainda pior ao dizer que a não existente morte cerebral tinha sido declarada no local do acidente.

Aqui no Brasil também não foi muito diferente. Na época e ao longo do tempo, diversos sites mencionaram, erroneamente, que Lexi teve uma morte cerebral declarada. Entre eles podemos citar o “Gospel Prime“, “Gospel Mais“, “Revista Comunhão” e “Portal do Holanda“.

Péssimo exemplo de divulgação do caso através do “Portal do Holanda”.

Em 2016, essa história viralizou novamente devido a péssima contribuição do site “Portal do Trono.

De acordo com os dados registrados pelo site “Wayback Machine“, a desinformação promovida pelo “Portal do Trono” permaneceu no ar entre agosto de 2016 e julho de 2017. Atualmente, a página referente ao texto desinformativo não se encontra mais ativa.

Mais um péssimo exemplo de divulgação do caso através do “Portal do Trono”.

Para finalizar, o reflexo disso pode ser visto nas redes sociais ao longo do tempo. Vejam abaixo como a versão distorcida dos fatos obteve uma expressiva quantidade de reações e compartilhamentos:

Péssima divulgação do caso pela página “Jovens Evangélicos”, no Facebook.

Péssima divulgação do caso por uma determinada usuária, no Facebook.

Uma Rápida Explicação Sobre a Chamada “Morte Cerebral”

Em primeiro lugar, o termo “morte cerebral” sequer deveria ser utilizado. O mais correto seria morte encefálica. Aqui no Brasil, assim como nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, a morte encefálica é a definição legal de morte. É a completa e irreversível parada de todas as funções do cérebro e do tronco encefálico. Uma vez que a morte encefálica seja declarada, isso significa que uma pessoa não irá recuperar a consciência ou conseguirá respirar sem a ajuda de aparelhos.

Nesse ponto é interessante destacar que o tronco encefálico é a “sede” das estruturas nervosas que controlam as funções que mantêm o indivíduo vivo, assim como a pressão arterial, batimentos cardíacos, a atividade respiratória e o nível de consciência.

Enfim, repetindo para deixar bem claro. Antes da morte encefálica ser declarada, todo o possível é feito para salvar a vida de um ente querido. Após o diagnóstico de morte encefálica, não há qualquer chance de recuperação. Infelizmente, essa é uma triste realidade. Também é interessante deixar claro, que a definição legal de morte pode variar de acordo com o país.

Aqui no Brasil, assim como nos Estados Unidos e no Reino Unido, por exemplo, a morte encefálica é a definição legal de morte.

Parâmetros e Alguns Exames Complementares Realizados no Brasil

Atualmente no Brasil, o quadro clínico do paciente deve apresentar todos os seguintes pré-requisitos: presença de lesão encefálica de causa conhecida e irreversível; ausência de fatores tratáveis que confundiriam o diagnóstico; tratamento e observação no hospital pelo período mínimo de seis horas; temperatura corporal superior a 35ºC; e saturação arterial de acordo com critérios estabelecidos pela Resolução nº 2.173/17. No caso de crianças, os parâmetros são um pouco diferentes, com um período de observação maior.

Além do exame clínico, que deve ser realizado por dois médicos diferentes – não participantes das equipes de remoção e de transplante de órgãos -, com um intervalo mínimo de uma hora entre o primeiro e o segundo exame, o paciente deve ser submetido a exames complementares. Esses exames podem ser a angiografia cerebral, o eletroencefalograma, o doppler transcraniano e a cintilografia. O laudo deve ser assinado por profissional com comprovada experiência e capacitação para a realização desse tipo de exame. O paciente também deve ser submetido a um teste de apneia, que estimula o centro respiratório de forma máxima.

Portanto, o procedimento adotado no Brasil é considerado muito seguro – um dos mais rígidos do mundo – para atestar a morte encefálica de uma pessoa.

E o Coma e o Estado Vegetativo? Uma Confusão que Leva a Desinformação!

Nosso cérebro é incrivelmente complexo, muito mais que o coração. É um órgão que consegue se adaptar a muitas circunstâncias críticas. Pode ser difícil dizer quando um cérebro e um tronco encefálicos estão irreversivelmente danificados e, mesmo que estejam, o restante do corpo pode estar fazendo um trabalho homérico em manter uma certa aparência de estar vivo.

Existe muita confusão em torno desse assunto e muitas vezes decorre de um mal-entendido básico: Tanto no coma quanto no estado vegetativo, uma pessoa está legalmente viva. Nos dois casos, há evidências de função neurológica – os pacientes geralmente podem respirar por conta própria, seus reflexos ainda podem estar intactos e podem responder a estímulos externos.

Na morte encefálica, não há NENHUMA função cerebral.

Na morte encefálica, não há NENHUMA função cerebral.

Qual a Diferença Entre Coma e Estado Vegetativo?

De acordo com o neurologista Antônio Lúcio Teixeira Junior, que também é professor do Departamento de Clínica Médica da UFMG,  o coma é definido por um “rebaixamento profundo do estado de consciência”, traduzindo-se na incapacidade do indivíduo acometido em interagir com o ambiente ou reagir sensorialmente a qualquer estímulo.

Apesar de relatos em que os pacientes curados afirmam ter escutado e sentido a presença das pessoas ao seu redor, Teixeira Júnior, por exemplo, descarta a utilização dos sentidos nesse tipo de situação:

Não há possibilidade de o paciente ouvir, raciocinar ou se lembrar de algo que tenha acontecido durante o estado comatoso, uma vez que as funções cognitivas estão totalmente comprometidas

O coma pode evoluir para uma pronta recuperação do paciente, para uma morte encefálica ou então para o chamado estado vegetativo persistente ou síndrome acognitiva, quando há uma pequena recuperação (volta parcial ao estado de alerta), mas sem interação com o ambiente. No estado vegetativo, o cérebro mantém suas funções automáticas, proporcionando reflexos de sucção ou movimentos das córneas, porém sem nenhuma atividade voluntária por parte do paciente.

O coma pode evoluir para uma pronta recuperação do paciente, para uma morte encefálica ou então para o chamado estado vegetativo persistente ou síndrome acognitiva, quando há uma pequena recuperação (volta parcial ao estado de alerta), mas sem interação com o ambiente.

Nos últimos 20 anos, entretanto, o advento de novos métodos de avaliação das funções mentais permitiu identificar ilhas de atividade cognitiva preservada, em pequena porcentagem de casos classificados como tipicamente vegetativos.

Enfim, esse é um assunto bem complexo e amplo, estamos apenas fornecendo conceitos mais genéricos para vocês, visto que essa é uma área constantemente estudada no mundo todo.

O Caso de Lexi Não Foi um Caso Isolado: A Desinformação Sobre a Morte Cerebral Disseminada Através da Imprensa, Internet, TV e Filmes de Hollywood

O caso relacionado a Lexi Hansen não foi um mero erro aleatório e pontual por parte da imprensa. Esse comportamento errático e sensacionalista por grande parte dos veículos de comunicação é sistemático e rotineiro. Segundo o professor Arthur Caplan, chefe da Divisão de Bioética do Centro Médico Langone, da Universidade da Nova York, nos Estados Unidos, o termo “morte cerebral” sequer deveria ser mais utilizado publicamente. O motivo? A insistência da mídia em relatar a morte cerebral como uma espécie de passo preliminar em direção à morte.

Ainda segundo Caplan, a medicina precisa evitar percepções errôneas, falsas esperanças e custos desnecessários associados à morte cerebral. Aliás, ele considerou inútil educar o público e a mídia a respeito desse assunto. Essa posição, um tanto quanto “radical”, de Arthur Caplan é de alguém cansado de ver sempre a mesma situação se repetindo. E não é pra menos.

Algumas Investigações Sobre a Percepção Pública e Abordagem da Morte Cerebral

Numa rápida pesquisa na internet encontrei duas investigações muito interessantes. A primeira investigação foi sobre a percepção pública na internet sobre a morte cerebral, que foi publicada no periódico “Chest“, em agosto de 2018. Já a segunda investigação foi relacionada a abordagem da morte cerebral na TV e em filmes de Hollywood, que foi publicada no periódico “American Journal of Transplantation“, em setembro de 2016. O resultado foi desastroso para a medicina.

A primeira investigação revelou uma quantidade significativa de informações imprecisas sobre a morte encefálica, afetando o entendimento do público sobre o conceito e resultando em emoções negativas especificamente contra os médicos, além do vínculo entre a morte encefálica e a doação de órgãos. Já a segunda investigação concluiu que as produções que abordavam a morte encefálica proporcionavam pouca educação ao público e eram frequentemente enganosas.

Dois Casos de Grande Repercussão e Pessimamente Divulgados

De nada adiantaria explicar tudo isso para depois alguém chegar e dizer: “Ah, mas e esse caso? Ah, e esse outro que li?” Bem, existem inúmeros casos divulgados de maneira incorreta pela mídia. É até difícil escolher apenas um para comentar, visto que a vontade é comentar sobre todos. Contudo, isso daria um livro, não apenas um único artigo. Então selecionei apenas dois casos para exemplificar e ilustrar o que estamos dizendo.

O Caso do Norte-Americano T. Scott Marr

T. Scott Marr, morador do estado norte-americano do Nebraska, ficou famoso na imprensa no começo deste ano. Segundo diversos veículos de comunicação, a família já organizava a cerimônia de cremação, os trâmites para a doação de órgãos, e havia reservado o dia para se despedir de Scott. Contudo, após os aparelhos que o ajudavam a respirar terem sido desligados, Scott acordou do coma.

Após ter os aparelhos que mantinham sua respiração desligados, Scott saiu do coma em que se encontrava e começou a respirar por conta própria.

Agora, notem alguns títulos de artigos publicados na internet sobre o assunto: “Americano com morte cerebral acorda após aparelhos serem desligados” (Veja) | “Homem de Nebraska diz que recuperação milagrosa, depois de declarada morte cerebral, é ‘prova’ de Deus” (FOX News).

O portal “UOL” também divulgou incorretamente esse caso, corrigiu alguns trechos do texto, mas ele continuou errado. Por exemplo, foi mencionado que Scott voltou à vida. Scott não voltou à vida, porque ele NUNCA esteve morto.

Os médicos não acreditavam na recuperação de Scott, mas em nenhum momento declararam sua morte cerebral. Eles apenas prepararam a família para o pior. Contudo, Scott continuou respirando sem a ajuda dos aparelhos e, após novos exames em virtude das respostas a estímulos externos, os médicos finalmente conseguiram diagnosticá-lo da forma correta, tratá-lo e ele conseguiu se recuperar. A competência dos médicos pode ser até questionada (embora Scott sofresse de uma síndrome muito rara), principalmente em fazer a família passar por um sofrimento teoricamente desnecessário, mas a realidade é que, se a morte cerebral fosse oficialmente declarada, Scott não acordaria novamente.

O Caso do Adolescente Norte-Americano Trenton McKinley

O caso do adolescente Treton McKinley, morador do estado norte-americano do Alabama, é igualmente emblemático. Ele também ficou famoso após acordar do coma, no ano passado, devido a severos danos cerebrais, quando ele e um amigo brincavam com um pequeno veículo dotado de reboque. O amigo teria freado o carrinho, virando o reboque, onde Trenton se encontrava. Ele caiu e sofreu sete fraturas cranianas.

No decorrer da história, os médicos, após exame clínico, o recomendaram para o transplante de órgãos. Os pais chegaram a assinar os papéis autorizando que os órgãos fossem doados, caso ele viesse a falecer, um procedimento normal. Após a realização de novos exames, no entanto, os médicos detectaram, mais precisamente no exame final de medição das ondas cerebrais, sinais de atividade e movimento. Posteriormente, Trenton voltou a respirar por conta própria e se recuperou. A recuperação foi possível, porque o estado de coma pode ser reversível. Já a morte cerebral (que não era o caso de Trenton), não.

O caso do adolescente Treton McKinley, morador do estado norte-americano do Alabama, é igualmente emblemático.

Agora, notem os títulos de algumas notícias publicadas pela imprensa sobre esse caso: “Rapaz-milagre’ acorda de morte cerebral” (CM Jornal), “Trenton, o ‘rapaz milagre’ que acordou de morte cerebral” (TVI 24), “Trenton, o ‘rapaz milagre’ que acordou de morte cerebral. ‘Não há outra explicação senão Deus’” (Rádio Observador).

Conseguiram entender como os casos são divulgados de maneira incorreta?

Aqui no Brasil, o site “Gaúcha ZH” inicialmente também divulgou erroneamente esse caso, mas felizmente corrigiu o texto.

Considerações Finais

Infelizmente, e historicamente falando, boa parte da imprensa brasileira e internacional não consegue compreender o fato que a morte cerebral significa morte. Não há retorno, ou seja, não é um passo em direção a morte. É morte e ponto final. Assim sendo, vemos inúmeros casos sendo noticiados como se fossem verdadeiros milagres, quando a ciência teve um papel fundamental na recuperação dos pacientes. Não quero que você deixe de ter fé, acreditar em Deus ou qualquer outra divindade, apenas que compreenda que, atualmente, não há procedimento, mantra ou oração viável para burlar, efetivamente, a fatídica morte.

Sim, existem casos em que a atitude dos médicos poderia ser mais compreensiva em razão do estado emocional dos familiares. Sim, algumas vezes deveria haver uma preocupação muito maior e muito mais extensa na realização de exames clínicos e complementares para minimizar o sofrimento de familiares. E sim, existem situações que um atendimento médico extremamente nebuloso e questionável, colabora para a desinformação sobre a morte cerebral, a exemplo da morte da manicure brasileira Nayara Patracão, em 2013. Contudo, a partir do momento que todos os exames são realizados por profissionais competentes, todas as exigências protocolares são cumpridas, e um ente querido é declarado com morte encefálica, não há mais o que fazer.

Acorda, Imprensa

Estimular a crença, seja por erro ou por sensacionalismo, de que é possível ter um ente querido de volta após uma morte cerebral é estimular dor e sofrimento aos familiares. Como redator, algo que tenho muito orgulho de ser, já escrevi inúmeros artigos no passado (1, 2, 3, 4) sobre casos de familiares desesperados por acreditarem que seus parentes estivessem vivos. É muito difícil culpar essas pessoas, ainda mais considerando o sistema público de saúde de diversos países, incluindo o Brasil.

Entretanto, a imprensa deve fazer seu papel e informar corretamente o leitor. Não deveria explorar de forma perniciosa e rude tais casos, advogando em causa própria ou em busca de cliques.

Conclusão

Fora de contexto! A história relatada pelo site “Bíblia Sagrada de Estudo” foi tirada completamente do seu contexto original! Em primeiro lugar, esse caso é bem antigo, visto que o atropelamento da jovem chamada Lexi Hansen data de fevereiro de 2014! Em segundo lugar, Lexi não teve a morte cerebral declarada pelos médicos. Na verdade, Lexi despertou alguns dias após ter ficado em coma, um estado clínico bem diferente da morte cerebral. Além disso, o despertar de Lexi não ocorreu exatamente a partir do canto de louvores por parte de familiares.

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13 Comentários

13 Comments

  1. Valmir

    12 de setembro de 2019 em 11:04

    Sempre quando aparece se falando em milagres falsos tem um site cristão por trás das mentiras,nunca se fala nos médicos que emperram para salvar a vida.

  2. Maria

    12 de setembro de 2019 em 21:13

    @Marco Faustino , EXCELENTE matéria sobre Medicina! 🙂 Infelizmente, blogs religiosos são um dos CAMPEÕES em soltar Fake News na Internet, antes mesmo dos adventos de cunho político. Fora que alguns “jornais” e/ou “jornalistas” ADORAM polemizar, inventar, exagerar etc em cima de um assunto, especialmente com manchetes SENSACIONALISTAS, só para ganhar destaque e $$$. Eles NÃO SE IMPORTAM com a DESINFORMAÇÃO e/ou SOFRIMENTO alheio. É como você disse antes: a MENTIRA dá DINHEIRO e POPULARIDADE, a dura verdade e/ou realidade não, infelizmente. 😐

  3. Maria

    12 de setembro de 2019 em 21:18

    @Marco Faustino , não sabia que você era um dos redatores do Blog AssombradO! 😮 Eu gosto de ver o canal YouTube deles de vez em quando, pois ADORO estórias de Fantasmas, apesar de não acreditar nisso. 🙂 KKKKKKKKKKKK! 😀

    • Marcos Adolfo Chaves

      13 de setembro de 2019 em 9:19

      Quem conta um conto, aumenta um ponto…
      Apesar dos exageros de alguns sites cristãos e do ceticismo de grande parte dos jornalistas, a história é incrível e é inegável que milagres acontecem todos os dias, inclusive no caso que acabou de ser relatado. Só não vê quem não quer.

      • Maria

        13 de setembro de 2019 em 12:40

        @Marcos Adolfo Chaves , ou seja, você quis dizer que: “Não é verdade, MAS…blablabla.” 😉 KKKKKKKKKKKKKKKKKKKK! 😀

  4. Adyr Sebastião ferreira

    13 de setembro de 2019 em 8:41

    Parabéns, Marco. Seu dom para pesquisa, mesmo em temas difíceis e delicados, é notável. Ninguém quer duvidar das crenças de outrem, mas é bem clara a intenção piegas e deformadoras de algumas “igrejas”, sobre fatos que não comportam suas versões. Isso só faz mal ao Cristianismo.

  5. Gustavo Lins

    13 de setembro de 2019 em 15:42

    Houve um erro na forma como o efarsas classificou a morte cerebral, ela só representa morte depois de 72 horas, é o protocolo de qualquer hospital , é assim que funciona, sou defensor desse site e acredito na credibilidade dele, tem que tomar cuidado com certas informações.

    • Marco Faustino

      13 de setembro de 2019 em 16:58

      Olá Gustavo Lins,

      Não houve erro algum nas informações fornecidas. As informações foram extraídas diretamente do Portal do Conselho Federal de Medicina (https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27329:2017-12-12-11-27-28&catid=3). Alternativamente, você pode consultar o que mudou da Resolução 1.480/97 para a Resolução 2.173/17: http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27333:2017-12-15-13-07-00&catid=3

      Agora, se você acha que o Conselho Federal de Medicina publicou algo errado, envie um email para eles e, quando obtiver a resposta envie para nós 🙂

    • Maria

      13 de setembro de 2019 em 17:08

      @Gustavo Lins , ajudaria muito se você apontasse ONDE está o suposto erro no texto. A expressão “morte cerebral” aparece 46 VEZES no texto e fica difícil localizar o que você está tentando apontar. 😉

      • Gustavo Lins

        13 de setembro de 2019 em 19:46

        O erro que acorre é que o Efarsas está colocando a morte cerebral no mesmo nivel de morte quando não é, e afirmar que não existe mais volta não é correto, já aconteceu sim casos em que a pessoa reagiu, existe um protocolo a ser seguido, tem que se esperar 72 horas até se considerar uma pessoa verdadeiramente morta, não se deve confirmar uma morte antes disso, isso é ensinado inclusive em faculdade em cursos de comunicação social em disciplina de assessoria de comunicação, é uma questão ética, tomem cuidado ao considerar uma pessoa com morte encéfalica como morta, se quiserem entender melhor leiam esse texto:
        https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=https://saocamilo-sp.br/assets/artigo/bioethikos/96/8.pdf&ved=2ahUKEwj159Gk7c7kAhXpGbkGHZFSDJsQFjAKegQIBBAB&usg=AOvVaw0rovxMtZh8e0hKAyQO-rSc

        • Marco Faustino

          13 de setembro de 2019 em 20:49

          A definição da morte encefálica passou a ser debatida entre a classe médica após a década de 1950, quando surgiram os primeiros aparelhos capazes de prolongar a vida artificialmente. Os primeiros estudos foram realizados pelos franceses Mollaret e Goudon, que, em 1959, descreveram 23 pacientes em coma profundo, sem reações e sem atividade de tronco encefálico e cuja atividade cardíaca se mantinha com suporte respiratório. No entanto, uma definição do que seria morte cerebral só foi dada em 1968, pela Harvard Medical Association (EUA).

          Um mês após a realização do primeiro transplante de coração, realizado, em 1967, na África do Sul, foi criado, sob a coordenação do anestesista Henry Knowles Beeker, o Committee Ad Hoc, da Faculdade de Medicina de Harvard, que teve como função estabelecer os critérios da morte cerebral.

          Em 5 de agosto de 1968, a revista Journal of the American Medical Association, publicou um artigo de autoria desse Committee reconhecendo o critério da morte cerebral, passando-se do conceito de morte fundado no coração ao fundado no cérebro. ‘Trata-se de uma evolução ainda maior, quando se considera que a morte cerebral é a condição essencial para a coleta de órgãos’, argumenta o professor italiano de bioética Antonio Puca.

          De acordo com o relatório de Harvard, a morte cerebral, ao contrário do coma, é a expressão clínica de um dano encefálico total e irreparável, irreversível e definitivo. ‘O indivíduo não tem personalidade nem memória, e não pode sentir fome, sede ou emoções; ele também não consegue respirar nem manter a temperatura corporal sem auxílio de máquinas. As células mortas começam a decompor-se e as enzimas liberadas em razão disso agridem e destroem as outras, iniciando assim um processo inexorável’, explica Puca em artigo publicado na revista Bioethikos, do Centro Universitário São Camilo.

          Os critérios estabelecidos em 1968 foram atualizados em 1981 pela President’s Commssion for the study of ethical problems a UDDA (Uniform Determination of Death Act, que estabeleceu dois critérios de morte: cessação irreversível da função respiratória e circulatória e cessação irreversível de todas as funções do encéfalo, incluindo o tronco. Esses são critérios aceitos universalmente.” (https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=27330:2017-12-12-11-52-18&catid=3)

          ———————————

          Agora, um trecho da resposta do professor Raul Marino Júnior para o artigo que você citou (http://www.institutoneurologico.com.br/sites/inesp/equipe-medica-item.asp / https://saocamilo-sp.br/assets/artigo/bioethikos/99/carta2.pdf). Raul é professor titular Emérito de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP; mestre em Bioética pelo Centro Universitário São Camilo; professor Livre-Docente em bioética e Ética Médica da Faculdade de Medicina da USP:

          O citado artigo, preocupado sobretudo com os conceitos filosóficos de morte, os quais podem variar de um filósofo para outro, deixa de enfatizar as importantes diferenças entre a chamada morte cerebral e a morte encefálica; a primeira caracterizando o paciente que sofre lesão generalizada do córtex e hemisférios cerebrais, podendo permanecer no chamado ‘estado vegetativo persistente’, ainda respirando sem ajuda de aparelhos e mantendo uma circulação normal, embora inconsciente por meses ou anos; em contraposição à morte encefálica, ou morte verdadeira, na qual o paciente se encontra em apneia, sobrevivendo à custa de ventiladores e medicamentos vasopressóricos. (…) Na verdadeira morte encefálica, não há diferença entre um morto cerebral e uma pessoa recém-decapitada, já que o bom senso humano, desde tempos imemoriais, sempre identificou a decapitação com a morte da pessoa

          Ao procurar sobre Antonio Puca, eis um detalhe muito curioso sobre ele:

          Prof. Pe. Antonio Puca – licenciado em Teologia e em Psicologia, com doutorado em Teologia (Teologia Pastorale Sanitária) e em Bioética (Universidade Católica de S. Cuore de Roma). é professor de Bioética do Instituto Internacional de Teologia Pastorale Sanitaria Camillianum di Roma, publicou vários livros sobre temas relativos à Bioética, além de uma série de artigos nessa área, publicados nas principais revistas.” Ele não é médico. Com todo respeito, ele é um padre e bioeticista (http://www.saocamilo-sp.br/novo/eventos-noticias/desafios-da-etica-da-vida-e-da-saude.php).

          Além disso, quais foram as tais artigos nas “principais revistas” que ele publicou? Encontrei cinco livros dele (https://www.bookdepository.com/author/Antonio-Puca), mas artigos em revistas cientifícas conceituadas não há nada que esteja disponível na internet. Existe pouquíssimo material dele nesse sentido, e o que tem foi basicamente publicado na Camillianum, uma revista do próprio instituto onde ele é professor. O artigo apresentado em português é apenas uma tradução publicada na revista Bioethikos, que é do Centro Universitário São Camilo. Resumindo, o mundo das “principais revistas” de Antonio Puca gira em torno dos Camilianos. E olha que o autor (Antonio Puca) declarou não haver conflito de interesses em seu artigo. Sério, mesmo?

          ———————————

          Repetindo, ninguém voltou à vida após uma morte encefálica, comumente citada na mídia como morte cerebral. E esse detalhe, de usar o termo correto (“morte encefálica” em vez de “morte cerebral”), ainda é mencionado no texto.

          Para terminar, conforme disse anteriormente, boa parte do texto sobre morte cerebral foi extraído diretamente do site do Conselho Federal de Medicina. Caso você acredite que o Conselho Federal de Medicina publicou algo errado, envie um email para eles e, quando obtiver a resposta, envie para nós. Fora isso, o texto está de acordo com o que é aceito pela absoluta maioria da comunidade médica, principalmente aqui no Brasil.

        • Maria

          19 de setembro de 2019 em 21:15

          @Gustavo Lins , agora entendi o que você quis dizer. E junto com a resposta do Marcos Faustino, não quero fazer “argumento de autoridade”, mas devo alertá-lo que esse tal de Antonio Puca NÃO É MÉDICO, heim!? 😐 Logo, as afirmações dele não tem credibilidade e respaldo Médico-Científico para abordar a questão, ok? 😐

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