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quinta-feira, maio 13, 2021

É verdade que 87 mil candidatos foram reprovados no Enem por usarem pronome neutro?

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Será que 87 mil candidatos foram reprovados no Enem por terem usado pronome neutro na redação final do Exame Nacional do Ensino Médio?

A afirmação surgiu em forma de memes nas rede sociais no final de março de 2021, e afirma que 87 mil candidatos que prestaram para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) teriam tirado nota zero na redação por usarem o pronome neutro em suas dissertações. 

Segundo o que se espalhou, quem usou palavras como “amigues” (no lugar de “amigos”), por exemplo, teria perdido a nota da prova, sendo totalmente reprovado.

Será que isso é verdade ou mentira?

Memes compartilhados nas redes sociais afirmam que 87 mil candidatos teriam sido penalizados por usarem pronome neutro em suas redações!

Verdade ou mentira?

A discussão sobre o uso de vogais temáticas na língua portuguesa surgiu no meio do ano de 2020 como uma tentativa de se criar uma terceira forma além do “A” para o gênero feminino e do “O” para o gênero masculino. A ideia seria a de se usar a chamada Linguagem Neutra (ou Pronome Neutro) para se referir a todos, sem particularizar gênero.

É claro que como toda discussão sobre modificações no idioma gera polêmica e inúmeras publicações a respeito. No entanto, é bom saber que a Norma Culta ainda não reconhece tal forma de escrita e, portanto, não seu uso deve ser evitado em redações como as das provas do Enem.

Propostas já foram encaminhadas à Câmara dos Deputados proibindo o uso de pronome neutro na grade curricular do ensino público e privado.  

Afirmação publicada no Twitter teve mais de 80 mil curtidas em apenas uma das postagens!

Voltando ao caso dos 87 mil reprovados, o número está correto apenas se pegarmos os que não pontuaram na redação (3,22% dos candidatos tiraram zero na redação), porém é preciso explicar aqui que apenas o uso do tal pronome neutro não reprova no Enem e tampouco zera na redação. Quem usasse pronome neutro na redação poderia ser penalizado como uma falta de um acento ou de pontuação errada, por exemplo. 

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Nesse artigo do Mundo Educação é explicado que há várias causas para reprovação no Enem e erros gramaticais na redação estão entre elas, mas não são as únicas. A falta de atenção e a fuga do tema, dentre outras, atrapalham o desempenho do candidato.

Em 2018, por exemplo, a prova de códigos e linguagens, que envolve português, literatura e língua estrangeira, mostrou que 92,5% dos alunos seriam reprovados. Como a média nacional foi baixa naquele ano, o número de aprovados subiu consideravelmente.

A Redação

De acordo com o Portal do Ministério da Educação, são 5 as competências cobradas na redação do Enem:

  1. Domínio da escrita formal da língua portuguesa
  2. Compreender o tema e não fugir do que é proposto
  3. Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista
  4. Conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação
  5. Respeito aos direitos humanos

É na primeira competência onde é cobrado o desempenho dos candidatos em relação ao domínio da Língua Portuguesa, e cada dissertação é avaliada de acordo com esses requisitos, somando-se ou retirando-se pontos de acordo com o texto do aluno.

Em nota, o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) explicou que as principais causas das reprovações na redação foram:

  • fuga ao tema – 0,93%
  • cópia do texto motivador – 0,46%
  • texto insuficiente – 0,19%
  • não atendimento ao tipo textual – 0,17%
  • parte desconectada – 0,17%
  • redações em branco – 1,12%
  • outros motivos – 0,17%  

Ou seja, mesmo que o candidato tivesse feito “zero pontos” na redação apenas por usar pronome neutro (o que, na prática, é impossível), ele estaria entre os 0,17% dos alunos que não atenderam ao tipo textual ou entre os 0,17% que zeraram a redação por outros motivos (algo em torno de 147 candidatos ou 300 se somarmos ambos).

Procuramos nos principais jornais online e também entre os comunicados oficiais do Ministério da Educação e não encontramos nada a respeito de candidatos reprovados apenas por usarem o pronome neutro em suas redações no Enem.

Os temas das redações do Enem 2020 foram:

  • “O estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira”
  • “A falta de empatia nas relações sociais no Brasil”
  • “O desafio de reduzir as desigualdades entre as regiões do Brasil”

Conclusão

Não é verdade que 87 mil candidatos tiraram nota zero no Enem por usarem o pronome neutro em suas redações!

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Gilmar Lopes
Gilmar Henrique Lopes é Analista de Sistemas. Trabalha com PHP e banco de dados Oracle e é especializado em criação de ferramentas para Intranet. Em 2002, criou o E-farsas.com (o mais antigo site de fact checking do país!) que tenta desvendar os boatos que circulam pela Web. Gilmar também tem um espaço semanal dentro do programa “Olá, Curiosos!” no YouTube e co-apresenta o Fake em Nóis ao lado do biólogo Pirulla!

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2 COMENTÁRIOS

  1. “Ou seja, mesmo que o candidato tivesse feito “zero pontos” na redação apenas por usar pronome neutro (o que, na prática, é impossível),
    ele estaria entre os 0,17% dos alunos que não atenderam ao tipo textual
    ou entre os 0,17% que zeraram a redação por outros motivos”. Não, não estaria. Essa frase está muito esquisita. pois parece que uso da linguagem neutra poderia cair em um dos motivos para zerar redação (como não atendimento ao tipo textual), mas isso não é verdade. Se ele zerasse a competência 1 (língua portuguesa), não zeraria por não atendimento ao tipo textual. O tipo textual do ENEM é dissertativo-argumentativo. Para zerar por não atendimento ao tipo textual, o candidato escreve, por exemplo, uma narrativa. Os tipos textuais são: dissertativo argumentativo, injuntivo, narrativo, descritivo, expositivo.

    Além disso, zerar uma só competência significa que as outras competências são analisadas normalmente, gerando uma pontuação diferente de zero. Para zerar uma redação, o avaliador clica no motivo para zerar. Ele vai clicar em: “fuga ao tema”, ou “texto insuficiente”, ou “texto em branco”, ou “texto ilegível”, ou “parte desconectada”, ou “não atendimento ao tipo textual”, ou “texto inteiramente em língua estrangeira”. O avaliador clica no motivo pelo qual o candidato zerou e depois clica em enviar. Se a redação não cair em nenhuma dessas categorias, o avaliador vai avaliar uma por uma das competências e, nesse caso, nunca será zero, pois, como eu disse, nota zero não é dar zero para as competências, mas sim clicar no motivo por que a redação zerou. É por isso que uma redação cheia de erros de português não é 0 se o candidato não se encaixar nos motivos que citei acima. Se ele discute o tema proposto, com um texto do tipo dissertativo argumentativo, escrevendo mais de 8 linhas NÃO ZERA, independentemente se o português dele é bom ou não, se usou linguagem neutra ou não. E vai zerar se escreveu lindamente mas fugiu ao tema ou ao tipo textual.

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