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domingo, agosto 1, 2021

Será verdade que uma cobra perseguiu e picou 8 vezes um jovem na Índia?

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Provavelmente, na semana passada vocês devem ter se deparado com uma notícia muito estranha disseminada na imprensa brasileira. Um jovem indiano teria sido picado oito vezes pela mesma cobra e “milagrosamente” sobrevivido.

E a história não parou por aí, porque familiares teriam dito que a cobra perseguiu (ou “farejou“/”rastreou”) o rapaz até um vilarejo “vizinho”, algo considerado “inexplicável”.

Como exemplo, podemos citar as notícias disseminadas pelo site “Metrópoles“, “O Dia“, “Correio 24 horas“, “RICMais“, “IstoÉ“, “Jornal Correio“, entre outros.

Exemplo de manchete sobre o jovem que teria sido perseguido e picada 8 vezes pela mesma cobra.

Mais um exemplo de manchete.

Entretanto, será que essa história é verdadeira? Um jovem foi realmente picado 8 vezes pela mesma cobra, sobreviveu milagrosamente, e essa cobra foi capaz de persegui-lo por quilômetros de distância? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Falso! Em primeiro lugar, tudo o que temos sobre esse caso é um mero relato por parte do pai do jovem. E relatos são evidências anedóticas, ou seja, sozinhos não servem para nada. Não deveriam ser utilizados para fazer quaisquer afirmações, servir de prova cabal ou ser utilizados em subterfúgios jornalísticos do tipo “, diz famíliares”. Em segundo lugar, o relato possui diversos problemas, e nenhum herpetólogo ou biólogo foi consultado, o que é um desserviço ao leitor. Se fosse, todo esse enredo de novela mexicana, quer dizer, indiana, teria caído por terra.

Enfim, a seguir vamos explicar a origem dessa história, e mostrar o porquê ela não faz nenhum sentido.

A Origem da História

Aparentemente, essa história surgiu, em hindi, no dia 30 de agosto de 2020 através do site do jornal indiano “Navbharat Times”. Segundo o texto, um jovem de 17 anos chamado Yashraj Mishra teria sido picado por uma cobra venenosa (não foi mencionada a espécie da cobra), cerca de oito vezes num período de um mês, no vilarejo de Rampur, distrito de Basti, no estado de Uttar Pradesh.

Aparentemente, essa história surgiu, em hindi, no dia 30 de agosto de 2020 através do site do jornal indiano “Navbharat Times”.

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A notícia mencionava que na primeira vez o rapaz se recuperou bem e retornou para casa. Posteriormente, a mesma cobra teria lhe mordido mais três vezes. Então, o pai do jovem teria o enviado para a casa de um parente, chamado Ramji Shukla, num outro vilarejo “próximo” chamado Bahadurpur. O pai do jovem alegou que teria visto a cobra rondando a casa, em Rampur, e depois ela teria sumido. Cerca de dez dias depois, a mesma cobra teria mordido o jovem em Bahadurpur. Na crendice do pai, a cobra teria ido atrás do jovem para mordê-lo novamente.

O jovem acabou voltando para casa, em Rampur, onde teria sido mordido pela oitava vez no dia 25 de agosto deste ano. Então, encantadores de serpentes também teriam sido convocados para capturar a tal cobra, realizar rituais de proteção, e até pedir perdão a cobra por qualquer motivo que a tivesse deixado irritada com o jovem. Tudo teria sido em vão, e sequer acharam a tal cobra. Curiosamente, o texto contabiliza “apenas” seis picadas, não oito, mas enfim.

Diversos veículos de comunicação locais fizeram reportagens sobre esse caso (1,2), a exemplo do “Punjab Kesari UP”:

A Distância entre os Vilarejos

É sempre muito complicado calcular distâncias entre vilarejos na Índia, porque muitos têm o mesmo nome, e nem sempre é fácil identificá-los no Google Maps.

Tendo isso em mente, acreditamos que o mapa abaixo seja o mais próximo da distância real (na melhor das hipóteses) entre esses dois vilarejos no distrito de Basti:

Acreditamos que o mapa acima seja o mais próximo da distância real (na melhor das hipóteses) entre esses dois vilarejos.

Basicamente, para tornar esse relato como prova cabal do ocorrido, teríamos que acreditar que uma cobra “farejou” um ser humano por quilômetros de distância. No entanto, cobras não saem por aí farejando e atacando pessoas, muito menos a essa distância. Cães, talvez, pudessem fazer isso se o jovem tivesse ido a pé, mas cobras, definitivamente não.

Portanto, somente isso já tornaria a notícia, no mínimo, parcialmente falsa.

As Espécies de Cobras mais Comuns no Distrito de Basti e a Probabilidade de um Indivíduo Sobreviver a 8 Picadas de uma Cobra Venenosa

Segundo um artigo na Wikipédia, três espécies de cobras seriam bem comuns no distrito de Basti, no estado de Uttar Pradesh: a Naja naja, a Bungarus caeruleus, e a Ptyas mucosus. Dessas três espécies, a Ptyas mucosus é a única que não representa nenhum risco ao ser humano, porque ela não tem peçonha.

A probabilidade de ser picado oito vezes por uma mesma cobra venenosa e sobreviver é muito pequena. O indivíduo teria que estar criando uma cobra, ou seja, manuseando-a ou então importunuando-a constantemente, e precisaria contar com a sorte da cobra não injetar veneno em nenhum dos oito botes. De maneira natural, isso é extremamente improvável. Até porque cobras atacam para se defender, não para matar pessoas.

É muito importante que vocês tenham em mente, que não fazemos parte do cardápio das cobras, e elas não perseguem ninguém com o intuito de devorar ou matar. Elas apenas se defendem e, em seguida, fogem. A absoluta maioria dos incidentes envolvendo cobras acontecem por estarmos no lugar errado, na hora errada ou fazendo algo que não deveríamos com elas (Pedrinho, tssss).

Um Histórico Muito Peculiar

O distrito de Basti tem um histórico muito peculiar de notícias estranhas envolvendo cobras.

Em 2011, um homem que alegava estar cansado de pagar suborno para funcionários públicos resolveu soltar dezenas de cobras num escritório do governo no distrito de Basti. Segundo a NDTV, uma emissora de TV muito popular na Índia, ele teve acesso fácil aos animais, porque era um encantador de serpentes nas horas vagas.

A ironia? O homem teria morrido em 2018, vítima de uma picada de cobra, enquanto tentava capturá-la para demonstrar suas habilidades.

Em 2019, o site do jornal “The New Indian Express” noticiou que a cadeia pública de Basti vinha sofrendo uma infestação de cobras venenosas. Segundo as autoridades locais, na esteira das chuvas incessantes e do acúmulo de água nas instalações carcerárias em agosto daquele ano, cobras venenosas se infiltraram nas instalações e nos alojamentos dos presos. E adivinha quem as autoridades resolveram chamar para resolver o problema? Encantadores de serpentes.

Cerca de quatro cobras foram capturadas numa operação que durou cerca de três horas, mas ainda assim os presos tinham medo que pudessem ter mais cobras na cadeia.

Saúde Pública x Crendices Populares

As cobras são reverenciadas pelos hindus, na Índia, e os encantadores de serpentes são considerados seguidores de Shiva, o deus hindu de pele azul, que geralmente é retratado usando uma naja ao redor do pescoço. Muitas vezes eles são requisitados por aqueles que são mordidos por cobras e atuam como curandeiros. É uma tradição que muitas vezes é passada de pai para filho, e até sustenta famílias.

Contudo, isso revela muito mais do que você pode pensar. O encantamento de serpentes é proibido por lei desde 1991 por lá, e conforme vocês devem ter notado, isso não impediu que encantadores de serpentes continuassem existindo. Além de questões de religiosas atreladas a fortes crendices populares, é importante ter em mente que o soro antiofídico custa muito caro para um indiano, e maioria não tem acesso. Para piorar a situação, por diversos fatores, a Índia é o país que mais tem mortes por picadas de cobra.

Diante da ineficiência do Estado em prover uma saúde pública decente, tais encantadores de serpentes continuarão existindo e tentando convencer as pessoas sobre cobras vingativas, rituais de proteção, que somente eles têm o “poder” de dominar as cobras, entre outras práticas altamente questionáveis, mas que muitas vezes se tornam os únicos recursos disponíveis aos moradores de uma determinada comunidade. Portanto, não soa estranho que o pai do jovem, e o próprio jovem, tivessem sido convencidos a acreditar nisso. A imprensa, é claro, agradece.

Consultamos o Dr. Claudio Machado do Canal “Papo de Cobra” no YouTube

Para falar sobre esse caso, consultamos o Dr. Claudio Machado, PhD em Medicina Tropical no IOC-Fiocruz, e biólogo do Instituto Vital Brazil, exercendo o cargo de assessor da Diretoria Científica e vice-coordenador da Comissão de Ética no Uso de Animais do referido instituto.

Nas Redes Sociais

Claudio também é o responsável pelo perfil “Papo de Cobra”, no Twitter, e um canal de mesmo nome no YouTube, que possui mais de 39 mil inscritos!

Ao ler os textos replicados pela imprensa brasileira, muitos podem ter algumas dúvidas, tais como: Uma cobra seria capaz de perseguir uma pessoa? Se sim, por qual distância? Cobras “farejam” uma pessoa com o intuito de picá-la e devorá-la?

Eis o que o Claudio nos disse:

Não. Cobras não perseguem ninguém. Podem, para assustar, se lançar poucos metros em direção a pessoa para intimidar. Normalmente, quem faz isso são cobras não peçonhentas, como a nossa caninana. A estória repete a lenda de cobras como vilãs perseguindo homens, mas toda picada é um ato de defesa. Muita gente diz que a cobra fica escondida esperando alguém passar para picar. Por que ela gastaria veneno à toa? Pelo prazer de ver alguém morrer? Não tem uma linha de verdade nessa estória“, disse Claudio.

Segundo ele, o maior problema não seria a quantidade de picadas.

Muitos acidentes ocorrem sem que a cobra injete veneno. O problema não é ele ser picado 8 vezes. Se ele ficasse importunando uma cobra poderia ser picado 8 vezes em uma hora ou menos. Possível e muito comum com cobras, aranhas e escorpiões. Chamamos isso de ‘bote seco’. Gastar veneno só em último caso ou se a cobra estiver muito estressada. Se a cobra puder afastar o agressor sem gastar veneno será a melhor opção. Se ela deu o bote e se livrou do agressor, vai embora. Por que ele seria perseguido?“, completou.

E Sendo Uma Cobra Venenosa Conforme Citado pelo Navbharat Times?

Se fosse venenosa a probabilidade de receber 8 picadas, todas sendo botes secos, é pequena“, finalizou.

A Opinião do Biólogo Henrique Abrahão Charles

Quem também ficou revoltado com essa notícia foi o biólogo Henrique Abrahão, que possui um canal no YouTube chamado “Biólogo Henrique, o Biólogo das Cobras”, com mais de 127 mil seguidores.

Confira abaixo o vídeo que ele publicou sobre esse assunto no YouTube:

Henrique chegou a citar a divulgação por parte da imprensa como um desserviço a conservação da fauna silvestre.

Conclusão

Falso! Em primeiro lugar, tudo o que temos sobre esse caso é um mero relato por parte do pai do jovem. E relatos são evidências anedóticas, ou seja, sozinhos não servem para nada. Não deveriam ser utilizados para fazer quaisquer afirmações, servir de prova cabal ou ser utilizados em subterfúgios jornalísticos do tipo “, diz famíliares”. Em segundo lugar, o relato possui diversos problemas, e nenhum herpetólogo ou biólogo foi consultado, o que é um desserviço ao leitor. Se fosse, todo esse enredo de novela mexicana, quer dizer, indiana, teria caído por terra.

Cobras não saem por aí farejando e atacando aleatoriamente pessoas, e muito menos possuem qualquer sentimento de vingança contra seres humanos. Elas não ficam escondidas esperando uma pessoa passar para poder atacar. Elas apenas se defendem daquilo que elas consideram uma ameaça para elas, ou seja, o ser humano. Portanto, independentemente do número de picadas e da espécie da cobra (pontos igualmente questionáveis), é impossível que o rapaz tenha sido perseguido pela mesma cobra por quilômetros. Não há fotos, vídeos ou qualquer outro exame que comprove isso. Apenas um mero relato por parte do pai do jovem.

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Marco Faustinohttp://www.e-farsas.com/author/marco
Jornalista e colaborador do site de verificação de fatos E-farsas entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos e casos supostamente sobrenaturais.

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16 COMENTÁRIOS

  1. “E relatos são evidências anedóticas, ou seja, sozinhos não servem para nada…Não deveriam ser utilizados para fazer quaisquer afirmações, servir de prova cabal ou… ” Criatura, de onde você tirou essa evidência? Você criou isso baseado em que?

  2. “E relatos são evidências anedóticas, ou seja, sozinhos não servem para nada…Não deveriam ser utilizados para fazer quaisquer afirmações, servir de prova cabal ou… ” Criatura, de onde você tirou essa evidência? Você criou isso baseado em que?

  3. Nesse vídeo diz que a cobra deixa uma assinatura pra seguir a vítima, então é “possível”, pode não ser esse o caso, talvez mas investigação, se outras cobras tem essa assinatura, outras da mesma espécie podem indentificar essa assinatura, e nem sempre ser a mesma cobra seguindo o Rapaz. https://youtu.be/kJuH351JhUo

    • Boa tarde Marcos,

      Então, isso não faz sentido para seres humanos. Em primeiro lugar, as picadas foram intervaladas. Dias e semanas entre as picadas (considerando que tenham sido realmente oito). Essa “espécie de assinatura” não faria sentido por tanto tempo, e diante da locomoção de um ser humano. Afinal de contas, os ferimentos foram tratados, pessoa deve ter tomado banho, seres humanos não se locomovem se rastejando no chão etc. Um sapo pulando já é difícil de uma cobra rastrear, imagina uma pessoa no meio de tantas outras. Isso sem contar os botes secos, sem inoculação de veneno.

      Em segundo lugar, não fazemos parte do cardápio das cobras. Elas não atacam o ser humano para se alimentar deles, mas como defesa por representarmos uma ameaça para elas. Não há motivo para uma cobra perseguir uma pessoa ou ter espírito vingativo.

      Em terceiro lugar, o vídeo mostra uma relação de presa e predador. Muito provavelmente, o rato percorreu uma distância muito, muito curta, até paralisar por completo. Rastrear por centenas de metros ou quilômetros é outra história.

  4. Nesse vídeo diz que a cobra deixa uma assinatura pra seguir a vítima, então é “possível”, pode não ser esse o caso, talvez mas investigação, se outras cobras tem essa assinatura, outras da mesma espécie podem indentificar essa assinatura, e nem sempre ser a mesma cobra seguindo o Rapaz. https://youtu.be/kJuH351JhUo

    • Boa tarde Marcos,

      Então, isso não faz sentido para seres humanos. Em primeiro lugar, as picadas foram intervaladas. Dias e semanas entre as picadas (considerando que tenham sido realmente oito). Essa “espécie de assinatura” não faria sentido por tanto tempo, e diante da locomoção de um ser humano. Afinal de contas, os ferimentos foram tratados, pessoa deve ter tomado banho, seres humanos não se locomovem se rastejando no chão etc. Um sapo pulando já é difícil de uma cobra rastrear, imagina uma pessoa no meio de tantas outras. Isso sem contar os botes secos, sem inoculação de veneno.

      Em segundo lugar, não fazemos parte do cardápio das cobras. Elas não atacam o ser humano para se alimentar deles, mas como defesa por representarmos uma ameaça para elas. Não há motivo para uma cobra perseguir uma pessoa ou ter espírito vingativo.

      Em terceiro lugar, o vídeo mostra uma relação de presa e predador. Muito provavelmente, o rato percorreu uma distância muito, muito curta, até paralisar por completo. Rastrear por centenas de metros ou quilômetros é outra história.

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