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Vídeo mostra um raro fenômeno atmosférico chamado raio globular?

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Vídeo mostra um raro fenômeno atmosférico chamado raio globular?

Vídeo mostra um raro fenômeno atmosférico chamado raio globular?

Desde o início deste mês um vídeo mostrando o que seria um “raio globular” vêm viralizando nas redes sociais, principalmente no Twitter e no Facebook. Algumas páginas no Facebook, a exemplo da “Universo Assombroso” (arquivo) e “Astronomia Infinita” (arquivo) — ambas alegadamente disseminadoras de conteúdo científico/astronomia —, vem ajudando a viralizá-lo.

Confira o referido vídeo abaixo:

 

Somente a publicação da “Astronomia Infinita”, que possui mais de 188 mil seguidores, já foi visualizada mais de 160 mil vezes e compartilhada mais de 4 mil vezes, desde 9 de janeiro de 2020! Curiosamente, a página alegou que se tratava de um raio globular registrado em janeiro de 2014 em Lanzhou, na China!

Publicação da página “Astronomia Infinita”.

Entretanto, será que estamos mesmo diante desse tal fenômeno atmosférico chamado “raio globular”? Será que ele realmente existe? Descubra a verdade agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Falso! O vídeo é tão somente um trabalho de computação gráfica (CGI) de um russo chamado Andrei Trukhonovets! Ele publicou esse vídeo originalmente no dia 27 de maio de 2019, no YouTube, e desde o começo ele deixou claro, ao menos no título do vídeo, que se tratava de computação gráfica.

Posteriormente, no dia 8 de junho de 2019, ele publicou o vídeo no site de entretenimento russo “Pikabu”, explicando que ele se inspirou num jogo da franquia “Metro”. Portanto, nada de raio globular filmado na China em 2014!

Posteriormente, no dia 8 de junho de 2019, Andrei Trukhonovets publicou o vídeo no site de entretenimento russo “Pikabu”, explicando que ele se inspirou num jogo da franquia “Metro”.

É importante destacar que esse vídeo começou a viralizar no Twitter, nos primeiros dias deste ano. Alguns usuários o republicaram sem nenhuma descrição, mas outros alegaram que se tratava de um fenômeno chamado “fogo de santelmo”. Neste último caso, o vídeo divulgado por um usuário apelidado de “Buitengebieden” obteve quase 4 milhões de visualizações e 10 mil retuítes antes que ele fosse retirado do ar por violações de direitos autorais. No entanto, também é bom deixar claro que o fenômeno chamado de “fogo de santelmo” não é sequer parecido com aquilo que vemos no vídeo. Não tem nada a ver, mesmo (1 | 2).

Outro ponto importante a ser esclarecido é que a verdade sobre esse vídeo já estava circulando desde o momento de sua viralização, logo, aparentemente, não houve um cuidado em verificar a realidade por trás dele antes de disseminá-lo por aí.

O Fenômeno Chamado “Raio Globular” Realmente Existe?

Essa é uma ótima pergunta! Primeiramente, no entanto, temos que dizer a você o que viria a ser um “raio globular”. Bem, o chamado “raio globular” é um fenômeno que vem sendo relatado há séculos. Há quem diga que “bolas luminosas” variando desde o tamanho de uma laranja até uma bola de futebol — movem-se em velocidades diversas sobre o solo ou até entram em casas ou apartamentos causando grande destruição.

Elas geralmente são relatadas durante tempestades elétricas, daí as primeiras teorias de que elas eram simplesmente uma forma diferente de raio. Normalmente, desaparecem após 10 ou 20 segundos, silenciosamente, mas, às vezes, um som estrondoso pode ser ouvido. Algumas pessoas também já relataram que tais “bolas luminosas” atravessavam paredes ou janelas fechadas sem causar quaisquer danos a essas estruturas! Enfim, daria para fazer um artigo somente sobre tais relatos.

Um Texto Publicado na Revista “Scientific American”

Num texto publicado em julho de 1997, no site da renomada revista “Scientific American”, foi citada a opinião de Martin A. Human, presidente do Departamento de Engenharia Elétrica de Computadores da Universidade da Flórida, em Gainesville.

Eis o que ele disse:

O raio globular é um fenômeno bem documentado, no sentido de que tem sido visto e descrito de forma consistente por pessoas, de diferentes classes sociais, desde a época da Antiga Grécia. Não existe uma teoria aceita em relação a causa. Não consiste necessariamente de plasma. Por exemplo, um raio globular pode ser o resultado de um processo quimioluminescente. A literatura está repleta de especulações sobre a física do raio globular

Desde então, embora ainda haja alguns céticos, a comunidade científica vem ficando cada vez mais convencida de que o raio globular é um fenômeno real. Agora, o que poderia causar um raio globular, por outro lado, é uma fonte de constante controvérsia.

Por Que Alguns Cientistas são Céticos?

Embora haja inúmeros relatos sobre o fenômeno, até hoje (ao menos até o momento da publicação deste artigo) não apareceu NENHUM vídeo que tenha registrado esse fenômeno, que fosse VISÍVEL A OLHO NU, e NA NATUREZA (daqui a pouco falaremos melhor sobre isso). Tudo o que temos até hoje são fotos superexpostas de raios comuns, registros espectrais ou de TENTATIVAS de reproduzir esse fenômeno EM LABORATÓRIO. Nada sequer próximo daquilo que vem sendo relatado por eventuais testemunhas oculares ao longo do tempo.

Basicamente, tudo o que temos são teorias que tentam corroborar com tais avistamentos. Aliás, é interessante notar, que tais relatos (lembrando que relatos são tão somente evidências anedóticas) eram relativamente “comuns”, mas, ainda que o mundo atual seja constantemente vigiado por câmeras de segurança, não há nenhum registro natural e confirmado desse fenômeno em específico!

Quais Foram Essas Tentativas de Reproduzir o Fenômeno em Laboratório?

Alguns grupos científicos, incluindo o Instituto Max Planck, produziram um efeito semelhante ao tal “raio globular” ao descarregar um capacitor de alta tensão num tanque de água.

Já outros produziram aquilo que descreveram como “bolas de fogo plasmáticas” através de interferência de microondas em uma cavidade cilíndrica cheia de ar alimentada por um guia de onda retangular usando um oscilador de microondas de 2,45 GHz, 5 kW (potência máxima). Ufa! Cansamos!

Alguns grupos científicos, incluindo o Instituto Max Planck (na foto), produziram um efeito semelhante ao raio globular ao descarregar um capacitor de alta tensão num tanque de água

Tiveram alguns outros experimentos, é claro! Contudo, falar sobre todos eles seria inviável neste artigo! Nos limitaremos apenas a falar de alguns deles.

Um Experimento Realizado no Brasil

Em 2007, dois cientistas brasileiros — Antonio Pavão e Gerson Paiva — da Universidade Federal de Pernambuco, conduziram e publicaram uma pesquisa experimental, relacionada a hipótese do silício vaporizado. Essa hipótese sugere que o raio globular consiste de silício vaporizado, que queima através do processo de oxidação. O relâmpago que golpeia o solo da Terra pode vaporizar a sílica contida no seu interior e, de alguma forma, separa o oxigênio do dióxido de silício, transformando-a em vapor de silício puro. Enquanto esfria, o silício pode condensar em um tipo de aerossol flutuante e brilhante devido ao calor do silício recombinado com o oxigênio.

Os registros do experimento resultaram na produção de “bolas luminosas com uma duração da vários segundos” através da evaporação de silício puro com um arco elétrico. Diversos vídeos relacionados ao experimento podem ser conferidos aqui.

Confira abaixo o trecho de um documentário produzido pela National Geographic, que mostra o experimento dos cientistas brasileiros:

Qual o Problema de Tais Experimentos?

O principal problema desses experimentos é que a absoluta maioria não responde completamente a todas as características já relatadas por supostas testemunhas oculares. Eles podem, por exemplo, não ter nenhuma relação direta com a formação de tais raios globulares na natureza. Sabemos muito pouco sobre isso, visto que dados realmente sólidos são escassos.

O Primeiro Registro de um “Raio Globular” na Natureza Ocorreu na China, em 2012?

Anteriormente, dissemos que não havia vídeos que tivessem registrado esse fenômeno, a olho nu, na natureza. No entanto, é importante esclarecer esse ponto.

Numa tempestade ocorrida numa noite de julho de 2012, pesquisadores da Northwestern Normal University, em Lanzhou, na China, instalaram espectrômetros no remoto platô de Qinghai, no noroeste do país, para investigar raios comuns, que são frequentes nessa região. Num determinado momento, eles viram, através de seus aparelhos (dois espectrógrafos sem fenda), uma “espécie de raio globular” a uma distância de 900 metros de onde estavam. Assim sendo, eles foram capaz de registrá-lo num vídeo em super câmera lenta, bem como seu espectro.

Confira abaixo o vídeo desse registro:

 

O brilho registrado tinha cerca de 5 metros de diâmetro, mas o tamanho real dessa “espécie de raio globular era muito menor. Além disso, a duração foi ínfima, cerca de 1,64 segundos. Embora a escuridão tenha impedido os pesquisadores de estimar sua altura, eles teriam visto, através dos espectrógrafos, uma flutuação horizontal por cerca de 10 metros, com uma ascendência de cerca de 3 metros. Segundo os pesquisadores, aquela teria sido a primeira vez que uma “espécie de raio globular” tinha sido criado por um relâmpago nuvem-solo.

Num texto publicado no site da revista científica “Physics”, Martin A. Human foi novamente consultado e declarou:

Acredito que essa seja uma observação única do que provavelmente seja um raio globular ou uma espécie de raio globular. Existem muitos programas de pesquisa que rotineiramente filmam ou fotografam raios naturais ou então propositalmente criados, mas, até onde sei, nenhum deles se deparou com um raio globular. Este certamente parece ser feito de poeira

Infelizmente, os dados não revelavam nenhuma pista concreta sobre qual teoria relacionada aos chamados raios globulares estava correta.

A Origem do Erro da Página “Astronomia Infinita”

Essa observação através de espectrógrafos ocorrida em 2012, na China, é a origem do erro disseminado pela página “Astronomia Infinita”. Isso porque, os cientistas chineses publicaram um artigo detalhado sobre essa observação na revista “Physical Review Letters“, somente dois anos depois, em em 2014 (1 | 2).

Portanto, além de divulgar um vídeo manipulado digitalmente, eles alegaram que se tratava de um raio globular visto na China, em 2014. Não é bem assim.

O “Raio Globular” Seria Realmente um Raio?

Em junho de 2019, o site “EarthSky” comentou sobre um estudo de Vladimir Torchigin, da Academia Russa de Ciências, que iria ser publicado naquela mesma época, numa revista científica chamada “Optik”. Uma hipótese anteriormente proposta por Torchigin sugeria que esses “orbes estranhos” eram, grosso modo, “luz aprisionada dentro uma esfera de ar”. O novo estudo expandia essa ideia e sugeria parâmetros físicos sobre como esses tais “orbes” podiam existir. A explicação é um pouco longa, e caso queiram saber mais detalhes, cliquem aqui (em inglês).

De qualquer forma, é muito importante que vocês saibam que, embora simples e interessante, a proposta de Vladimir Torchigin é altamente especulativa. Em outras palavras, não é possível dizer que essa seja a resposta definitiva para o que vem sendo alegadamente observado ao longo do tempo.

Enfim! Quem sabe um dia os cientistas cheguem a um consenso e consigam obter registros mais sólidos e robustos que, de fato, corroborem com tais relatos. Por enquanto não podemos afirmar, de maneira categórica, nada nesse sentido.

Conclusão

Falso! O vídeo é tão somente um trabalho de computação gráfica (CGI) de um russo chamado Andrei Trukhonovets! Ele publicou esse vídeo originalmente no dia 27 de maio de 2019 no YouTube, e desde o começo ele deixou claro, no título do vídeo, que se tratava de computação gráfica.

Jornalista e colaborador do site de verificação de fatos E-farsas entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos e casos supostamente sobrenaturais.

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