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A desinformação sobre o surto de poliomielite no Sudão! Não se engane, vacine seu filho!

Saúde

A desinformação sobre o surto de poliomielite no Sudão! Não se engane, vacine seu filho!

A desinformação sobre o surto de poliomielite no Sudão! Não se engane, vacine seu filho!

Numa rápida consulta a mecanismos de busca é possível encontrar diversas notícias falando sobre o recente surto de poliomielite no Sudão. Há diversos sites, incluindo parlamentares brasileiros, dizendo por aí que a vacina oral contra a doença teria sido a grande vilã dessa história. Além disso, muitos textos fazem questão de apontar o envolvimento do bilionário norte-americano Bill Gates, que também é considerado um “vilão da humanidade” por tais sites ou pessoas.

Para dar um ar de credibilidade a informação que passam, muitos desses sites citam um notícia publicada pela “Associated Press”, no dia 2 de setembro de 2020, intitulada: “ONU diz que novo surto de pólio no Sudão foi causado por vacina oral“. Esse título é impreciso, e vem servindo de munição para disseminar uma perigosa narrativa antivacinação.

Esse título é impreciso, carrega uma alta dose de desinformação, e vem sendo usado para disseminar uma perigosa narrativa antivacinação.

Ao contrário do que habitualmente fazemos, nesse texto vamos mostrar de forma mais direta o que realmente aconteceu, a razão disso ter acontecido e o porquê você não deve ter medo de vacinar seu filho contra a poliomielite.

Portanto, descubra a verdade por trás dessa história agora, aqui, no E-Farsas!

O Que é a Poliomielite? Por que Você Deve Vacinar o Seu Filho?

A poliomielite é uma doença causada por um vírus que se espalha principalmente pela via oral-fecal (secreções bucais ou fezes) e, portanto, está associada à falta de saneamento. A infecção pode atingir rapidamente o cérebro e a medula espinhal, levando à paralisia, que pode ser temporária ou permanente.

A paralisia envolvendo os músculos da respiração que compreende cerca de 5 a 10% dos casos de paralisia pode levar à parada respiratória e morte.

Assim sendo, não vacinar o seu filho contra a poliomielite pode torná-lo paraplégico ou levá-lo a morte. E, para completar, não vacinar o seu filho faz com que ele possa se tornar um agente transmissor do vírus numa determinada comunidade, bairro ou escola, por exemplo. Se você se importa com seu filho, assim como as demais crianças, vacine-o contra a pólio e incentive que os pais das demais também vacine seus respectivos filhos.

Aproveite e assista uma campanha produzida pelo Ministério da Saúde, em 2018, contra notícias falsas envolvendo vacinas:

Embora ocorra com maior frequência em crianças, a poliomielite também pode ocorrer em adultos que não foram imunizados. Por isso é fundamental ficar atento às medidas preventivas, assim como:

  • Lavar sempre bem as mãos;
  • Ter cuidado com o preparo dos alimentos;
  • Beber água tratada.

O Vírus Selvagem da Poliomielite

Existem três serotipos de poliovírus selvagem, ou seja, encontrados na natureza: o I, II e III. E como nada é exatamente perfeito, a imunidade a um sorotipo não confere imunidade aos outros dois.

A boa notícia aqui é o poliovírus selvagem tipo 2 foi declarado erradicado em setembro de 2015, com o último vírus detectado na Índia em 1999. O poliovírus selvagem tipo 3 foi declarado erradicado em outubro de 2019. Ele foi detectado pela última vez em novembro de 2012. Apenas o poliovírus selvagem tipo 1 permanece circulando em alguns locais do mundo.

E como a humanidade conseguiu erradicar dois sorotipos de poliovírus? Devida a campanhas globais de vacinação. Foram graças a essas campanhas, que o mundo evitou cerca de 16 milhões de casos e 1,5 milhões de mortes. Não importa sua crença, vírus não ligam a mínima para religiões.

A Falta de Saneamento Básico Associada e uma Baixa Imunização Coletiva São os Principais Responsáveis por Surtos de Poliomielite

Atualmente, há dois tipos de vacina contra poliomielite, que são usadas aos redor do mundo. Abaixo vamos mostrar as diferenças entre elas.

A VIP (Vacina Inativada Poliomielite)

A VIP contém uma cepa do vírus “morto”. Inativado, melhor dizendo. Essa vacina é injetável (aplicado na perna ou no braço dependendo da idade do paciente), bem mais cara do que a VOP, requer equipamento esterilizado, e uma equipe de saúde devidamente treinada para administrar um total de quatro doses.

A VIP, por exemplo, é a única vacina usada contra a poliomielite desde o ano 2000 nos Estados Unidos.

A VIP, por exemplo, é a única vacina usada contra a poliomielite desde o ano 2000 nos Estados Unidos.

Embora a VIP seja eficaz na geração de anticorpos e na proteção contra a paralisia, ela teoricamente induziria apenas uma imunidade limitada no intestino. Nesse sentido, há evidências recentes apontando que o melhor caminho seria um equilíbrio entre a VIP e a VOP.

A VOP (Vacina Oral Poliomielite)

A VOP contém uma cepa do vírus atenuado, ou seja, enfraquecido. Essa vacina é muito mais barata que a VIP, e mais fácil de administrar (as famosas gotinhas), porque podem ser administradas praticamente em qualquer lugar do mundo e a qualquer hora. Alguns artigos mencionam que a vacina tem um vírus vivo, mas não é bem assim que as coisas funcionam. Essa cepa do vírus enfraquecido, em si, não tem capacidade de infectar a criança que tomou a vacina.

Em áreas com falta de saneamento básico, as crianças vacinadas eliminam esse vírus enfraquecido nas fezes e, por mais estranho que possa lhe parecer, isso pode conferir, passivamente, imunidade coletiva a outras pessoas ao seu redor. Afinal de contas, lembre-se: a cepa enfraquecida, em si, não causará poliomielite na criança.

A VOP contém uma cepa do vírus atenuado, ou seja, enfraquecido.

Contudo, há um problema nessa história, que não é bem culpa da vacina, mas da falta crônica de saneamento associada a mutação natural do vírus. Essa cepa de vírus eliminado nas fezes pode persistir durante muito tempo no meio-ambiente (entre 12 e 18 meses). Tanto tempo que, eventualmente, ela pode sofrer uma mutação. Afinal de contas, é um vírus, e eles fazem esse tipo de coisa.

Em raras ocasiões, o vírus acaba recuperando sua capacidade de causar a doença, transformando-se em poliovírus derivados de vacinas (VDPVs). Embora tenha esse termo “derivado”, a vacina não é a vilã, porque se houver saneamento básico adequado, boas práticas de higiene e uma alta taxa de imunização, tudo isso muito dificilmente se tornará um problema.

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(11) 96075-5663 - t.me/efarsas

E se Houver uma Eventual Mutação no Intestino?

Essa mutação, em casos extremamente raros e durante o processo de replicação da cepa enfraquecida no intestino, pode se tornar virulenta e comprometer o indivíduo que recebeu a OPV (1 em cada 2,7 milhões de doses). O indivíduo será acometido por uma nova versão do vírus, mas não do mesmo vírus atenuado, que estava na vacina. Entendem a diferença?

Essa é a razão pela qual se investe tanto em pesquisas para reduzir essa capacidade de mutação.

E Como Funciona no Brasil?

Desde 2016, segundo o “Plano de Erradicação da Poliomielite: Estratégia no Brasil“, o nosso país adotou um esquema de VIP nas três primeiras doses (2, 4 e 6 meses) e a VOP apenas nos dois reforços (aos 15 meses e aos 4 anos), além de campanhas anuais.

Isso está de acordo com a orientação da OMS, e faz parte do processo de erradicação mundial da pólio.

O esquema de vacinação contra a pólio é absolutamente seguro no Brasil.

O Recente Surto no Sudão: Crianças Vacinadas Foram Infectadas? A Vacina Não Funciona?

Agora que você já sabe que a vacina não é bem a vilã da história, mas principalmente a falta de saneamento básico associada a uma baixa imunização coletiva, é hora de entender o que aconteceu no Sudão.

Mais um Entre Tantos Outros Surtos Esporádicos

Em primeiro lugar, o surto ocorrido no Sudão é, infelizmente, mais um entre tantos que já foram catalogados pela OMS desde o ano 2000. Ele ganhou destaque em alguns sites devido a uma sórdida campanha antivacinação que vem sendo pregada em relação ao novo coronavírus causador da COVID-19. Uma espécie de tentativa de demonstrar que vacinas podem ser perigosas.

Contudo, o que muitos ignoram é que em agosto deste ano, todo o continente africano ficou livre do vírus selvagem da poliomielite! Graças a quem? As vacinas!

Contudo, o que muitos ignoram é que em agosto deste ano, todo o continente africano ficou livre do vírus selvagem da poliomielite!

O Comunicado da OMS

Em segundo lugar, vamos ver o que a OMS divulgou num comunicado do dia 1° de setembro de 2020 sobre esse surto no Sudão:

Em 9 de agosto de 2020, o Ministério Federal da Saúde do Sudão notificou a OMS sobre a detecção de um poliovírus circulante derivado da vacina tipo 2 (cVDPV2) no país. De acordo com a notificação, o vírus está geneticamente ligado ao Chade (os resultados do sequenciamento mostraram alterações de 12 a 19 nucleotídeos).

Foram notificados dois casos de Paralisia Flácida Aguda (AFP). O primeiro caso, uma criança de 48 meses, teve início de paralisia em 7 de março de 2020, e era da cidade de Sulbi, localidade de Kas, no estado de Darfur do Sul. O estado fica no oeste do país, fazendo fronteira com a República Centro-Africana, o Sudão do Sul e próximo à fronteira com o Chade. O segundo caso, uma criança de 36 meses, teve início de paralisia em 1° de abril de 2020, e era da cidade Shari de AI Gedarif, localidade no estado de Gedarif, ao leste, perto da fronteira com a Eritreia e a Etiópia. Ambas as crianças receberam sua última dose de bOPV (tipo 1 e 3) em 2019

A investigação inicial indica que esses casos estão ligados a cVDPV2s do grupo de emergência CHA-NDJ-1, que foi detectado pela primeira vez em outubro de 2019, e está circulando atualmente no Chade e em Camarões. Onze casos suspeitos adicionais também foram confirmados como cVDPV2, e os relatórios de investigação de campo estão sendo consolidados

E o que Isso Quer Dizer?

Alguns sites dizem, de maneira imprecisa, que a vacina contra a poliomielite foi a responsável por causar a doença nessas crianças. Vamos a três pontos básicos:

  • Considerando a idade das crianças, elas não tinham completado o calendário de vacinação e, portanto, ainda estavam suscetíveis a doença. Além disso, em casos raros, o organismo de uma criança pode não reagir à vacina;
  • Testes confirmaram que as crianças não foram infectadas pela cepa do vírus contido na vacina, mas por um VDPV originário do Chade, e que circulava por lá desde 2019;
  • Assim como falamos anteriormente, VDPVs são diferentes dos vírus inativados ou atenuados contidos nas vacinas. E, VDPVs se espalham numa comunidade somente se houver uma baixa imunização coletiva.

Eis o que disse o Dr. Pascal Mkanda, chefe do Programa de Erradicação da Pólio da OMS, disse ao britânico “The Guardian”, em novembro de 2019:

O aumento nos casos de pólio derivados da vacina é causado por uma forma mutante da doença encontrada na matéria fecal, que atinge crianças que não foram vacinadas. O que devemos fazer é estender a cobertura da imunização para que a poliomielite seja erradicada

o Dr. Pascal Mkanda (à direita), chefe do Programa de Erradicação da Pólio da OMS.

O Envolvimento de Bill Gates: A Vacina Contra a Pólio é Parte de um Projeto para Reduzir a População e Causar Paralisia em Crianças?

Acreditamos que, depois de tudo que dissemos, essa pergunta já tenha sido respondida. Até mesmo porque é bem difícil reduzir a população mundial com uma vacina que já evitou mais de 1,5 milhão de mortes e evitou que tantas milhões de crianças ficassem paraplégicas ao redor do mundo. Se você acreditou nessa narrativa, foi você enganado.

Aliás, se isso fosse verdade, muitos de vocês não estariam lendo esse texto. Isso porque a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI) teve início com a 41ª Assembléia Mundial da Saúde em 1988. Grandes avanços no enfrentamento da poliomielite foram conquistados a partir desse compromisso global, com programas eficazes de prevenção, vigilância e controle.

A Iniciativa Global de Erradicação da Pólio (GPEI) teve início com a 41ª Assembléia Mundial da Saúde em 1988.

Segundo a Agência Lupa, até novembro de 2019, essa iniciativa tinha arrecadado US$ 2,6 bilhões de dólares. Desse montante, US$ 1,08 bilhões, ou 41%, foram doados pela Fundação Bill & Melinda Gates. Os governos de 12 países também doaram para essa iniciativa, incluindo o Reino Unido (US$ 514,8 milhões), os Estados Unidos (US$ 215,9 milhões) e o Paquistão (US$ 160 milhões), um dos dois únicos países com casos selvagens da doença além do Afeganistão. O príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohammed bin Zayed Al Nahyan (US$ 160 milhões), também está entre os doadores.

Numa resposta por email à agência, o escritório brasileiro da OMS no Brasil disse que “os recursos doados por governos e fundações privadas para o GPEI ajudam a custear as atividades de erradicação, incluindo compra de vacinas dos laboratórios produtores. Essas atividades são implementadas pela própria OMS e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com os países e a Gavi–Vaccine Alliance.

A GAVI

A GAVI (Aliança Global para Vacinas e Imunização) é formada por entidades públicas e privadas, possui sede em Genebra, e foi criada no ano 2000 com o apoio da Fundação Bill e Melinda Gates, da UNICEF, da OMS e do Banco Mundial, que são considerados parceiros fundadores. O atual presidente da GAVI é epidemiologista norte-americano Seth Berkley.

Conclusão

A cepa de poliovírus enfraquecido contido na vacina oral (VOP), em si, não causa a doença. Contudo, quando uma determinada cepa do vírus, excretada pelas fezes, circula no ambiente por longos períodos de tempo, ela pode sofrer mutação para uma forma virulenta, o que é especialmente perigoso em comunidades subimunizadas, e que a falta de saneamento básico seja um problema crônico. Aliás, essa mutação ainda pode ocorrer diante de uma troca de material genético com outros enterovírus, que estejam circulando numa comunidade.

Essa mutação, em casos extremamente raros e durante o processo de replicação da cepa enfraquecida no intestino, pode se tornar virulenta e comprometer o indivíduo que recebeu a OPV (1 em cada 2,7 milhões de doses). O indivíduo será acometido por uma nova versão do vírus, mas não do mesmo vírus que estava na vacina. Entendem a diferença? Essa é a razão pela qual se investe tanto em pesquisas para reduzir essa capacidade de mutação. De qualquer forma, considerando o esquema adotado pelo Ministério da Saúde do Brasil, desde 2016, é extremamente difícil que isso aconteça. Isso porque tais casos são associados a uma única dose de OPV numa criança ou por contato com o vírus mutado por parte de uma criança não imunizada.

Outro ponto é que, de fato, os surtos de VDPV representam atualmente um grande obstáculo na erradicação global da poliomielite. Contudo, manter uma boa cobertura de imunização protegerá contra a transmissão da poliomielite, independentemente da origem do vírus.

Portanto, não deixe de vacinar seu filho contra a poliomielite! Não existe vacina contra o arrependimento.

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Jornalista, redator, e pesquisador de comunicação social com foco no combate a disseminação de notícias falsas. Colaborador do site de verificação de fatos E-farsas.com desde janeiro de 2019. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos, além de casos supostamente sobrenaturais.

1 Comentário

1 Comentário

  1. Claudio Santos

    13 de setembro de 2020 em 11:48

    É sempre uma aula!!! Parabéns!!

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