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Dados do INPE mostram o menor índice de queimadas na Amazônia desde 1998?

Fora de Contexto

Dados do INPE mostram o menor índice de queimadas na Amazônia desde 1998?

Dados do INPE mostram o menor índice de queimadas na Amazônia desde 1998?

Conforme vocês já devem ter percebido, as queimadas na Amazônia viraram destaque na mídia brasileira e internacional. Embora a divulgação do que esteja acontecendo seja essencial, a superexposição de um assunto invariavelmente gera alarmismo e a disseminação de muita informação falsa. A quantidade de fotos e vídeos não relacionados a Amazônia ou retratando cenários de anos ou décadas anteriores é avassaladora.

Recentemente, também houve a disseminação de informações muito peculiares. Duas delas, em particular, nos chamaram a atenção:

Confira algumas publicações propagadas através do Twitter nesse sentido:

Entretanto, será que tais alegações são realmente verdadeiras? Os dados são oficiais? A situação na Amazônia é muito menos grave ou está dentro da normalidade? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

As alegações genéricas de que dados do INPE mostrariam que o índice de queimadas na Amazônia é o menor desde 1998 ou que incêndios florestais estariam abaixo da média em relação aos últimos anos na referida região são, no mínimo, imprecisas! Embora os gráficos tenham sido extraídos diretamente do site do INPE, eles foram, intencionalmente ou não, tirados de seus contextos originais.

Para que vocês entendam melhor, vamos explicar direitinho essa história!

A Realidade por Trás dos Gráficos do INPE!

Um determinado usuário chamado “Allan dos Santos” publicou ontem, no Twitter, duas imagens contendo dados extraídos do site do INPE. Segundo o usuário, eles mostrariam que os incêndios florestais estariam abaixo da média dos últimos anos. Eis a primeira imagem divulgada por ele:

Primeira imagem divulgada pelo usuário “Allan dos Santos”.

Não é Tão Simples Assim

Entretanto, há dois problemas cruciais ao fazer tais alegações sobre esse gráfico acima:

  • Os números não representam necessariamente incêndios florestais ou queimadas, mas focos de incêndio.

Um foco precisa ter pelo menos 30 metros de extensão por 1 metro de largura para que os chamados satélites de órbita possam detectá-lo. No caso dos satélites geoestacionários, a frente de fogo precisa ter o dobro de tamanho para ser localizada. Além disso, um foco indica a existência de fogo em um píxel de imagem de satélite. Neste píxel pode haver uma ou várias queimadas distintas. Se uma queimada for muito extensa, ela será detectada também com píxels vizinhos àquele, ou seja, vários focos estarão associados a uma só queimada. Neste contexto, o número produzido é um indicador, e não uma medida absoluta. Resumindo? A relação foco versus queimada não é direta nas imagens de satélite.

Para completar, detalhes precisos do que está queimando e quanto queimou são informações impossíveis de se obter com os sensores atuais.

  • Os números de focos de incêndio que constam no gráfico são referentes somente ao Estado de São Paulo até o dia e horário que a pesquisa é realizada. O valor de 1.545 é referente apenas ao período entre 01/01 a 23/08 deste ano.

Embora até o momento o número de focos de incêndio, especificamente no Estado de São Paulo, esteja abaixo da média histórica, não há dados que garantam que fechará o ano abaixo da média histórica.

Como Conferir Isso Diretamente no Site do INPE?

Para conferir esses números basta clicar aqui, filtrar por “Estado” e selecionar “São Paulo“.

A primeira imagem divulgada refere-se somente ao Estado de São Paulo.

Publicar tal gráfico sem citar que se refere somente ao Estado de São Paulo e sem informações complementares induz o seguidor mais desavisado ao erro.

Um Tuíte Posterior

Em seguida, esse mesmo usuário publicou uma outra imagem sobre a região amazônica:

Segunda imagem divulgada pelo usuário “Allan dos Santos”.

Novamente, há graves problemas ao alegar que os incêndios florestais estariam abaixo da média histórica na região amazônica (Amazônia Legal):

  • O gráfico é referente a focos de incêndio, não incêndios florestais. Foco de incêndio, queimada e incêndio florestal possuem definições diferentes;
  • O gráfico mostra claramente, que o número de focos ativos nos meses de fevereiro, março, abril e maio de 2019 ficou acima da média histórica;
  • Até o momento, somente os meses de janeiro, junho e julho de 2019 ficaram ligeiramente abaixo da média histórica;
  • Considerando as informações obtidas às 10h do dia 24/08, tudo indica que o mês de agosto de 2019 irá superar a média histórica. Isso, é claro, se nada for feito. Já são mais de 30 mil focos de incêndio e ainda falta uma semana para agosto terminar. A média histórica para o mês são cerca de 34 mil focos;
  • O valor de 54.906 é referente à soma parcial de focos num determinado período computado pelo INPE. É a mesma situação do caso anterior, ou seja, é o número que temos até o momento da consulta! Não é referente ao ano inteiro e não pode ser utilizado em contraste com os demais;

Se fôssemos considerar somente a imagem publicada pelo usuário, teríamos uma situação bem interessante. No ano passado tivemos cerca de 33.632 focos entre 1º de janeiro e 31 de agosto. E o que isso significa? São 62% menos focos que 2019, sendo que essa diferença tende a aumentar.

Na imagem divulgada, esse número de focos estava BEM PRÓXIMO da média histórica desde o começo do ano. No entanto, dados atualizados mostram que esse número já é SUPERIOR a média histórica.

Como Conferir Isso Diretamente no Site do INPE?

Para conferir esses números basta clicar aqui, filtrar por “Região” e selecionar “Amazônia Legal“.

A publicação do gráfico, sem citar o período correto e sem informações complementares, induz o seguidor mais desavisado ao erro.

Entre em contato com o E-farsas

(11) 96075-5663 - t.me/efarsas

A Realidade por Trás dos Gráficos Mostrando as Séries Históricas

Um usuário apelidado de “Isentões” apresentou dois gráficos para alegar que o governo de Jair Bolsonaro mantinha os menores índices de queimadas na Amazônia desde 1998. Vamos mostrar novamente, que essas informações também foram interpretadas de maneira equivocada.

Um dos gráficos publicados pode ser acessado aqui. Basta filtrar por “Bioma” e selecionar “Amazônia“. Ao fazer isso, eis o que você irá encontrar:

Dados do INPE referentes ao “Bioma da Amazônia”.

Confira abaixo o que podemos verdadeiramente observar no gráfico com a ajuda do comparativo acima (obtido dia 24/08 às 11h):

  • O total de focos de incêndio nos meses de fevereiro, março e abril de 2019 foi acima da média histórica para os respectivos períodos;
  • O total de focos de incêndio nos meses de janeiro, maio, junho e julho de 2019 foi abaixo da média histórica para os respectivos períodos;
  • Ainda faltando uma semana para o mês de agosto de 2019 terminar, o número de total de focos ativos é praticamente semelhante a média histórica do referido mês;
  • O número de 41.332 focos refere-se apenas ao período entre 1º de janeiro a 24 de agosto de 2019. Ainda não sabemos o número total de focos que haverá até o fim deste mês! Também não sabemos o que ocorrerá nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro de 2019;
  • Se considerássemos a mínima histórica desses meses fecharíamos o ano com mais de 65 mil focos. Logo, esse índice seria maior do que os anos de 1998, 1999, 2000, 2011 e 2014.

A publicação de tal gráfico, de forma isolada e sem informações complementares, induz o seguidor mais desavisado ao erro.

O Governo Bolsonaro x Outros Governos

Toda e qualquer comparação envolvendo períodos de tempo diferentes será imprecisa. Logo, querer comparar oito meses incompletos do atual governo com períodos de tempo muito maiores de governos anteriores é impreciso. Para ter o mínimo de coerência e justiça seria necessário comparar períodos de tempo semelhantes para situações minimamente semelhantes.

Seria mais justo, nesse caso, comparar os sete primeiros meses completos de cada mandato. Seja a partir do momento que o candidato eleito assumiu oficialmente o cargo de presidente ou período equivalente no ano posterior. Essa segunda opção seria em caso de impeachment no meio do ano anterior.

Para ter o mínimo de coerência e justiça seria necessário comparar períodos de tempo semelhantes para situações minimamente semelhantes.

O Comparativo Entre Períodos de Tempo Minimamente Semelhantes

Assim sendo, confira o comparativo abaixo:

  • Nos primeiros sete meses do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, em 1999, o INPE registrou 6.407 focos de incêndio no Bioma da Amazônia;
  • Nos primeiros sete meses do primeiro mandato de Lula, em 2003, o INPE registrou 22.766 focos de incêndio no Bioma da Amazônia;
  • Nos primeiros sete meses do segundo mandato de Lula, em 2007, o INPE registrou 16.761 focos de incêndio no Bioma da Amazônia;
  • Nos primeiros sete meses do primeiro mandato de Dilma Rousseff, em 2011, o INPE registrou 5.990 focos de incêndio no Bioma da Amazônia;
  • Nos primeiros sete meses do segundo mandato de Dilma Rousseff, em 2015, o INPE registrou 8.934 focos de incêndio no Bioma da Amazônia;
  • Entre janeiro e julho de 2017, durante a presidência de Michel Temer, o INPE registrou 13.079 focos de incêndio no Bioma da Amazônia;
  • Nos primeiros sete meses do mandato de Jair Bolsonaro, em 2019, o INPE registrou 15.924 focos de incêndio no Bioma da Amazônia;

Portanto, até o momento, o governo de Jair Bolsonaro não possui o menor índice de queimadas considerando o “Bioma da Amazônia”. Isso também não aconteceria caso utilizássemos a “Amazônia Legal” como filtro.

Ah, mas e a NASA?

Essa história da NASA foi uma verdadeira confusão! Segundo o site da revista Superinteressante, inúmeros perfis nas redes sociais compartilharam uma nota divulgada pelo site “Earth Observatory”, mantido pela agência espacial norte-americana, que comentava sobre imagens de incêndios no Norte e Centro-Oeste do Brasil, nos dias 11 e 13 de agosto de 2019.

Devido a imprecisões no texto, já corrigidas pela NASA, o conteúdo virou argumento para quem alegava que a temporada de queimadas no Brasil está mais amena do que em anos anteriores. Antes, o texto alegava que o número de incêndios na Amazônia estava abaixo da média dos últimos 15 anos:

A partir de 16 de agosto de 2019, observações por satélite indicaram que a atividade total de incêndios na bacia amazônica estava ligeiramente abaixo da média em comparação com os últimos 15 anos. Embora a atividade esteja acima da média no Amazonas e, em menor grau, em Rondônia, ela ficou abaixo da média no Mato Grosso e no Pará, de acordo com o Global Fire Emissions Database

Antiga nota.

Atualmente, o texto destaca que:

A partir de 16 de agosto de 2019, uma análise dos dados de satélite da NASA indicou que a atividade total de incêndios na bacia amazônica neste ano vem estando próxima da média em comparação com os últimos 15 anos. (A Amazônia se espalha por todo o Brasil, Peru, Colômbia e partes de outros países.) Embora a atividade aparente estar acima da média nos estados do Amazonas e Rondônia, até agora ela ficou abaixo da média em Mato Grosso e Pará, segundo estimativas da o Global Fire Emissions Database, um projeto de pesquisa que compila e analisa dados da NASA

Nota corrigida.

Para muitos essa mudança soou “conspiratória”, mas tem explicação.

Por que Essa Confusão Aconteceu?

Toda essa confusão aconteceu basicamente por dois motivos básicos:

Enfim! Os dados já foram devidamente atualizados, mas isso gerou um enorme caos nas redes sociais.

Numa atualização publicada hoje (24), foi confirmado que 2019 é o ano com maior número de incêndios desde 2012 nos sete estados que compõem a Amazônia brasileira. Além disso, os incêndios em 2019 são mais intensos que os anos anteriores em termos de poder radiativo. Isso também é consistente com o aumento observado no desmatamento.

Atualização publicada hoje (24) no site Global Data Emissions Database.

Conclusão

Dados do INPE que vem sendo divulgados nas redes sociais não mostram que o índice de queimadas na Amazônia é o menor desde 1998 ou que incêndios florestais estariam abaixo da média em relação aos últimos anos na referida região. Tais dados vêm sendo, intencionalmente ou não, tirados de seus contextos originais. Portanto, classificamos a situação como “Fora de Contexto”.

Para maiores informações confira o artigo na íntegra.

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Jornalista e colaborador do site de verificação de fatos E-farsas entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos e casos supostamente sobrenaturais.

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