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Os incêndios na Austrália já mataram 480 milhões de animais incluindo 8 mil coalas?

Animais

Os incêndios na Austrália já mataram 480 milhões de animais incluindo 8 mil coalas?

Os incêndios na Austrália já mataram 480 milhões de animais incluindo 8 mil coalas?

Provavelmente, vocês já devem ter se deparado recentemente com manchetes dizendo: “Incêndios na Austrália mataram meio bilhão de animais” (Época), “Meio bilhão de animais já morreram em incêndios na Austrália, informa universidade” (O Povo), “Incêndios na Austrália já mataram 18 pessoas e 480 milhões de espécies” (Catraca Livre).

Em comum, o texto referente a essas manchetes basicamente diz que, de acordo com ecologistas/especialistas da Universidade de Sidney, cerca de 480 milhões de animais (ou espécies) foram mortos pelos incêndios florestais na Austrália desde setembro de 2019!

Captura de tela mostrando um trecho da notícia publicada pelo site “O Povo”.

Captura de tela mostrando um trecho da notícia publicada pelo site da revista “Época”.

Mais uma captura de tela, dessa vez mostrando um trecho da notícia publicada pelo site “Catraca Livre”.

Para sermos justos, essa história começou a circular há alguns dias na mídia internacional. Um dos precursores dessa informação foi o site do jornal britânico “The Times”, no dia 27 de dezembro de 2019.

Logo nos primeiros parágrafos foi mencionado, que quase um terço dos coalas em seu principal habitat em Nova Gales do Sul podia estar entre os 480 milhões de animais que morreram nos incêndios florestais australianos.

Tons “Levemente” Diferentes

Quem também seguiu essa mesma linha, mas dizendo que se tratava de uma estimativa, foi o site “HuffPost” ao alegar que: “Ecólogos da Universidade de Sydney estimaram que 480 milhões de mamíferos, aves e répteis morreram nos incêndios que assolaram o país desde setembro.

Captura de tela mostrando um trecho da notícia publicada pelo site “HuffPost”.

Já numa notícia veiculada pelo site do canal australiano “7 News” o tom foi um pouco diferente. Eis um trecho do que foi mencionado:

Com base em um estudo realizado pela Universidade de Sydney, cerca de 480 milhões de mamíferos, aves e répteis foram afetados pelos incêndios em NSW somente desde setembro

Repararam em dois detalhes muito importantes? Em tese, haveria um estudo e não foi mencionado que os 480 milhões de animais morreram, mas que foram afetados.

Captura de tela mostrando um trecho da notícia publicada pelo site “7News”.

Enfim! Será que realmente 480 milhões de animais morreram ou foram afetados? Um terço dos coalas de Nova Gales do Sul realmente morreu? Trata-se tão somente de uma estimativa? Houve realmente um estudo? Quem são os tais ecologistas/ecólogos da Universidade de Sidney? Descubra a verdade agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Indeterminado! De modo geral, a mídia fez uma grande lambança com essa história. Em primeiro lugar, esqueça o plural, ou seja, essa história de ecologistas/ecólogos, visto que esse número foi fornecido por um único professor de Ecologia da Universidade de Sidney, chamado Christopher Dickman.

Em segundo lugar, esse número de 480 milhões trata-se de uma ESTIMATIVA referente apenas a mamíferos, aves e répteis potencialmente AFETADOS pelos incêndios, somente em Nova Gales do Sul, desde setembro de 2019, com base num RELATÓRIO publicado em 2007! Esse relatório foi patrocinado e publicado pela ONG “WWF-Austrália” (não teve nenhuma relação com a Universidade de Sidney) e contou com a participação de pelo menos três cientistas, entre eles o Christopher Dickman. O objetivo do relatório era estimar os efeitos do desmatamento em Nova Gales do Sul entre 1998 e 2005.

Daqui a pouco entraremos em mais detalhes sobre esse relatório, mas é importante deixar claro, que esse número não necessariamente representa a quantidade de animais mortos nos incêndios na Austrália, tampouco Nova Gales do Sul, desde setembro do ano passado.

Entramos em Contato com Christopher Dickman

Desde o começo estranhamos a maneira pela qual essa história foi disseminada na imprensa brasileira e internacional. Conforme vocês puderam notar cada site noticiou de uma maneira.

Assim sendo, entramos em contato com o professor Christopher Dickman para saber a realidade por trás desse número, evidentemente assustador. Assim sendo, a seguir, vamos explicar melhor essa história para vocês com base naquilo que nos foi repassado.

O Relatório Financiado e Publicado pela WWF-Austrália

Chris Dickman estimou 480 milhões de mamíferos, aves e répteis afetados ao se basear nas conclusões de um relatório chamado “Impacts of Landclearing: the impacts of the approved clearing of native vegetation on Australian wildlife in New South Wales“, financiado e publicado pela WWF-Austrália em fevereiro de 2007.

Ao menos três cientistas participaram desse relatório: o herptólogo Dr. Harold Cogger, o professor Christopher Dickman — citado como um cientista altamente respeitado com quase 30 anos de experiência trabalhando com ecologia, conservação e manejo de mamíferos australianos — e o professor Hugh Ford — citado como um dos mais importantes e respeitados ornitólogos da Austrália. Sem dúvida alguma, três nomes de extrema relevância.

Primeiras páginas do relatório financiado e publicado pela WWF-Austrália em 2007.

Um detalhe interessante, no entanto, é que além de todas as qualificações e experiências individuais, tanto Chris Dickman quanto Hugh Ford foram citados, na época, como governadores da WWF-Austrália e ex-membros do Painel Consultivo Científico da WWF. É muito importante deixar claro, que isso não desqualifica, em hipótese alguma, os inúmeros artigos científicos, estudos e livros escritos por ambos. Contudo, achamos interessante fazer essa pequena menção.

Qual o Objetivo do Relatório e o que os Cientistas Concluíram?

Segundo as próprias palavras de Chris Dickman, o objeto do relatório era estimar os efeitos do desmatamento (autorizado pelo governo) no Estado de Nova Gales do Sul. Eles estimaram, a partir de números publicados sobre as densidades de mamíferos, aves e répteis nativos, quantos desses animais estariam em risco de serem mortos diante desse desmatamento.

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Nos oito anos (1998-2005) analisados, o governo autorizou que 640.000 hectares de bosques e florestas fossem desmatados. Assim sendo, eles concluíram que todo esse desmatamento resultaria na morte de 104 milhões de vertebrados nativos. Essa estimativa não incluiu morcegos, sapos e alguns outros grupos, pois não havia estimativas de densidade disponíveis para eles. Portanto, 104 milhões era uma estimativa conservadora. Entenderam a dinâmica? Basicamente uma relação entre área desmatada e densidade de mamíferos, aves e répteis de tais áreas.

Nos oito anos (1998-2005) analisados, o governo autorizou que 640.000 hectares de bosques e florestas fossem desmatados. Assim sendo, eles concluíram que todo esse desmatamento teria resultado na morte de 104 milhões de vertebrados nativos.

Ainda de acordo com Chris, eles presumiram que todos os animais nas áreas desmatadas morreriam. Seja diretamente pelo processo de desmatamento ou indiretamente pela perda resultante de abrigo, comida e outros recursos. Segundo ele, essa suposição era fortemente apoiada por pesquisas citadas no relatório.

Diga-se de passagem, o relatório é bem longo — cerca de 40 páginas — e o tempo todo fala sobre estimativas (63 ocorrências no texto). Há, inclusive, uma menção relevante sobre isso na página 13:

As estimativas desses valores precisam ser necessariamente extrapoladas a partir de um número relativamente pequeno de estudos detalhados. Por isso, os autores deliberadamente empregaram estimativas altamente conservadoras ao fazer seus cálculos. A verdadeira mortalidade provavelmente será substancialmente mais alta do que a estimada neste relatório.

A Conclusão Publicada no Relatório

Confira um trecho do que foi publicado como conclusão desse relatório:

O WWF convocou uma equipe de especialistas para fornecer essa estimativa do impacto das taxas de desmatamento da vegetação nativa em NSW, em mamíferos, aves e répteis, que foram autorizados entre 1998 e 2005. Os números são claramente terríveis e mostram que os impactos a longo prazo do desmatamento da vegetação nativa são desastrosos para a vida selvagem em NSW.

Mais de 104 milhões de mamíferos, aves e répteis nativos morreram ou morrerão como resultado do desmatamento da vegetação nativa aprovada pelo governo de NSW entre 1998 e 2005.

Captura de tela mostrando um trecho do que foi publicado como conclusão desse relatório.

Um Cálculo Aparentemente Simples, mas Não Tão Simples Assim!

Para chegar a estimativa de 480 milhões, Chris Dickman utilizou esse relatório como base. Segundo ele, cerca de 3.000.000 hectares de terra foram queimados em Nova Gales do Sul. Então, o cálculo é aparentemente simples: 3.000.000 / 640.000 x 104 milhões = 487.5 milhões (ele resolveu arredondar esse valor para 480 milhões).

Só tem um pequeno problema nesse cálculo. Ele nos disse que, embora seja esperado que o desmatamento mate tudo nas áreas devastadas, os incêndios afetariam aos animais, mas não necessariamente matariam todos eles. Muitos animais voariam, correriam, outros iriam para debaixo da terra ou poderiam encontrar um pequeno refúgio não queimado sob rochas. Por outro lado, pesquisas anteriores indicariam que, em áreas severamente queimadas, a resultante falta de abrigo, falta de comida e incursões de predadores invasores (raposas vermelhas e gatos selvagens) levariam a reduções drásticas, porém indiretas, do número de animais.

Embora seja esperado que o desmatamento mate tudo nas áreas devastadas, os incêndios afetariam aos animais, mas não necessariamente matariam todos eles.

Chris Dickman disse que os números de animais mortos ainda seriam certamente muito expressivos, mas ainda não podemos afirmar, com absoluta certeza, que 480 milhões de animais morreram nos incêndios. E, por mais que os números venham a ser desastrosos, é esperado a longo prazo que a população de algumas espécies se recupere a medida que a vegetação também se recupere. Já outras se encontrarão numa situação mais delicada.

Enfim! Só teremos mais informações, quando os pesquisadores puderem, de fato, entrar em algumas das áreas que foram afetadas.

E Onde os Coalas Entram Nessa História?

O número de 8.000 coalas trata-se basicamente de uma estimativa fornecida pela mídia com base numa resposta dada por Sussan Ley, ministra do Meio Ambiente da Austrália. Ela concedeu uma entrevista para o programa australiano de rádio “AM”, da ABC Radio, no dia 27 de dezembro de 2019.

 

Logo no início da entrevista, a apresentadora Sabra Lane perguntou a Sussan o número de coalas mortos, particularmente nos incêndios florestais em Nova Gales do Sul. Eis o que Sussan respondeu:

Pode ter sido até 30% da população dessa região, porque até 30% de seu habitat foi destruído. Saberemos mais quando os incêndios derem uma trégua e uma avaliação adequada puder ser feita

Posteriormente, foi publicado pela imprensa internacional que até 28 mil coalas habitariam as florestas em Nova Gales do Sul. Então, prontamente surgiu um outro cálculo e uma afirmação: 8.000 coalas mortos. No entanto, conforme vocês puderam perceber trata-se de uma estimativa em cima de outra estimativa. Nenhuma avaliação adequada foi feita até o fechamento deste artigo! Assim sendo, neste momento é impreciso dizer que 8.000 coalas morreram em Nova Gales do Sul.

Há, inclusive, uma certa imprecisão sobre o número total de coalas em Nova Gales do Sul! Num estudo publicado em 2016, por exemplo, foi fornecida uma estimativa média de 36 mil coalas habitando as mais diversas regiões do estado (num intervalo entre 14 mil e 73 mil espécimes)! Enfim!

Em seguida, Sussan disse que estava em contato com especialistas e voluntários da vida selvagem para trabalharem juntos em prol da construção de corredores de habitat e a melhor forma de reintroduzir na natureza os coalas que vinham sendo socorridos. Foram disponibilizados cerca de AU$ 6 milhões para tais ações.

Para Mais Informações

Caso queiram saber um pouco mais sobre a situação dos coalas, na Austrália, recomendo a leitura de um artigo que publicamos no dia 1º de dezembro de 2019 chamado “Coalas estão funcionalmente extintos devido aos incêndios na Austrália?“! Vale muito a pena!

Coalas estão funcionalmente extintos devido aos incêndios na Austrália?

Conclusão

Indeterminado! Conforme explicamos ao longo deste artigo, diversos veículos de comunicação fizeram uma grande lambança na missão de informar corretamente seus leitores. Muita informação descontextualizada ou imprecisa foi disseminada ao longo das últimas semanas como se fossem verdades absolutas.

Simplificando…

  • O número de 480 milhões é uma estimativa de quantos mamíferos, aves e répteis teriam sido afetados pelos incêndios ocorridos em Nova Gales do Sul, na Austrália, desde setembro de 2019;
  • Existem vários fatores diretos (o próprio fogo, por exemplo) e indiretos (falta de recursos, predadores etc…) que poderiam levar à morte desses animais, mas esse número de 480 milhões não representa necessariamente a quantidade de animais mortos nos incêndios;
  • A estimativa não foi fornecida por ecologistas/ecólogos da Universidade de Sidney, mas por um único professor de Ecologia da referida universidade. Para chegar nela, ele se baseou num relatório publicado em 2007, no qual ele participou juntamente com ao menos mais dois cientistas, cujo objetivo era estimar os efeitos do desmatamento (autorizado pelo governo) no Estado de Nova Gales do Sul. Eles estimaram, a partir de números publicados sobre as densidades de mamíferos, aves e répteis, quantos desses animais estariam em risco de serem mortos diante desse desmatamento;
  • O relatório não foi realizado pela Universidade de Sidney, mas financiado e publicado pela ONG “WWF-Austrália”;
  • O número de coalas mortos, amplamente divulgado por diversos veículos de comunicação, é tão somente uma estimativa com base em outra estimativa, e refere-se somente ao Estado de Nova Gales do Sul. Numa entrevista dada por Sussan Ley, ministra do Meio Ambiente da Austrália, no final de dezembro de 2019, ela citou que até 30% dos coalas do estado poderiam ter morrido, porque 30% do seu habitat teria sido destruído pelas chamas. A ministra não forneceu quaisquer números exatos, apenas uma porcentagem limite. O cálculo foi feito pela imprensa com base num total estimado de 28 mil coalas. Num estudo realizado em 2016, no entanto, foi estimada uma média de 36 mil coalas no estado (considerando um intervalo entre 14 mil e 73 mil espécimes).

Por Fim…

Embora Chris Dickman diga que os números de animais mortos ainda assim seriam certamente muito expressivos, ainda não podemos afirmar, com absoluta certeza, que 480 milhões de animais morreram nos incêndios. Pode ser bem menos ou pode ser muito mais. E, por mais que os números venham a ser possivelmente desastrosos, é esperado a longo prazo que a população de algumas espécies se recupere a medida que a vegetação também se recupere. Já outras espécies se encontrarão numa situação mais delicada.

Enfim! De qualquer forma, só saberemos com mais exatidão quando os incêndios derem uma trégua e uma avaliação adequada puder ser feita, ou seja, quando os pesquisadores puderem, de fato, entrar em algumas das áreas que foram afetadas.

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Jornalista, redator, e pesquisador de comunicação social com foco no combate a disseminação de notícias falsas. Colaborador do site de verificação de fatos E-farsas.com desde janeiro de 2019. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos, além de casos supostamente sobrenaturais.

5 Comentários

5 Comments

  1. Pedro Lucio Ribeiro

    4 de janeiro de 2020 em 10:57

    Precisamos ver certo isso aí, taoequei? Se tem dinheiro do Leonardo de Caprio pra essas “ó-ene-gês”, taoquei? É muito bicho pra pouca gente “aussie” (*) na Austrália, taoquei? Não se falou que esses incêndios causam aquecimento global, taoquei?
    * vide Wikipedia.

  2. lucascardozo

    4 de janeiro de 2020 em 11:09

    Bom saber.

  3. Pingback: Por helicópteros, Austrália lança alimentos para animais isolados - CyOrgs Notícias

  4. Pedro henrique Pereira Silva

    28 de janeiro de 2020 em 11:00

    MAteria incrivel. Parabens

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