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Ruanda foi o primeiro país do mundo a usar robôs para testagem em massa da COVID-19?

Falso

Ruanda foi o primeiro país do mundo a usar robôs para testagem em massa da COVID-19?

Ruanda foi o primeiro país do mundo a usar robôs para testagem em massa da COVID-19?

No dia 22 de julho de 2020, uma cantora mineira chamada “Bia Ferreira” compartilhou uma publicação no Twitter e fez uma alegação bem peculiar (arquivo).

Eis o que ela disse:

O primeiro país do mundo a usar tecnologia robótica pra auxilio à testagem em massa. Legal, né? Mas você provavelmente não vai ver isso na grande mídia. Por quê? Foi em Ruanda, na África. Isso não interessa à narrativa única que associa a África à pobreza e ao subdesenvolvimento

Seu tuíte já obteve mais de 20 mil retuítes e 65 mil curtidas.

Tuíte da cantora mineira “Bia Ferreira”.

Posteriormente, um usuário no Facebook compartilhou uma captura de tela mostrando o tuíte de Bia (arquivo). Sua publicação já lhe rendeu mais de 25 mil compartilhamentos, ou seja, a narrativa propagada por Bia teve um alcance bem expressivo.

Posteriormente, um usuário no Facebook compartilhou uma captura de tela mostrando o tuíte de Bia.

Além disso, conforme dissemos anteriormente, juntamente com essa narrativa, Bia havia disseminado uma publicação da conta oficial de um site de notícias chamado “AllAfrica”, que por sua vez redirecionava os usuários até uma determinada notícia publicada no dia anterior (21).

Entretanto, será que Ruanda foi o primeiro país do mundo a usar tecnologia robótica para testagem em massa de COVID-19? Será que o site “AllAfrica” realmente disse isso? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Falso! Esse caso denota fortemente uma completa falta de leitura do artigo publicado pelo site “AllAfrica”, porque em momento algum do texto é mencionado que Ruanda foi o primeiro país do mundo a usar tecnologia robótica para testagem em massa da COVID-19, tampouco diz que os robôs mostrados na foto testam a população para detectar se os cidadãos estão ou não com COVID-19.

Enfim! A seguir vamos ser bem didáticos e mostrar a vocês como essa narrativa é altamente problemática.

1) Os Robôs são Doações do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)

Em primeiro lugar, a foto utilizada no artigo do site “AllAfrica” não é recente. Isso porque ela já havia sido publicada no final de maio de 2020 pelo próprio site “AllAfrica”. Este, por sua vez, havia republicado uma notícia de um jornal local chamado “The New Times”.

Em primeiro lugar, a foto utilizada no artigo do site “AllAfrica” não é recente.

O site “AllAfrica” havia republicado uma notícia de um jornal local chamado “The New Times”

Segundo o “The New Times”, os robôs tinham sido fabricados pela Zorabots, uma empresa belga especializada em soluções de robótica. Eles tinham sido projetados com vários recursos avançados para apoiar médicos e enfermeiros em centros de tratamento para COVID-19, assim como em locais de triagem.

Os robôs, apelidados de Akazuba, Ikirezi, Mwiza, Ngabo, e Urumuri, tinham sido obtidos por meio de doação através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Caso contrário, Ruanda teriam que desembolsar cerca de US$ 3.300 por cada um dos cinco robôs doados.

Segundo a cotação atual, o valor equivale a mais de 3 milhões de francos ruandenses.

2) Os Robôs Não São Destinados a Testar se um Cidadão está Infectado pelo SARS-CoV-2

De acordo com informações do Ministério de Tecnologia e Inovação de Ruanda, os robôs tinham capacidade aferir a temperatura de 50 a 150 pessoas por minuto, capturar dados de vídeo e áudio, e notificar os enfermeiros/médicos de plantão sobre eventuais anormalidades detectadas. Os robôs também podiam realizar tarefas como entregar comida e medicamentos para pacientes infectados pela COVID-19. Contudo, em nenhum momento foi mencionado que os robôs tinham capacidade de detectar se uma pessoa estava infectada ou não pelo novo coronavírus.

Havia até uma preocupação sobre como médicos e enfermeiros iriam operar os robôs em dois centros dedicados ao tratamento de pacientes com COVID-19 do país um em Kigali (capital de Ruanda) e outro numa cidade chamada Nyamata. Contudo, engenheiros de robótica do PNUD iriam treinar funcionários do Ministério da Saúde sobre como usar os robôs para que eles fossem efetivamente colocados em funcionamento.

3) Ruanda Não Foi o Primeiro País a Usar Tecnologia Robótica no Enfrentamento à COVID-19

É bom deixar bem claro, que Ruanda não foi o primeiro país do mundo a usar robôs como parte da estratégia de combate ao novo coronavírus.

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Segundo o site da emissora norte-americana “CNN”, durante o lockdown decretado na Tunísia, em abril, robôs policiais foram enviados para patrulhar áreas da capital do país para garantir que os moradores respeitassem o confinamento. Eles eram controlados por policiais (humanos, é claro) que verificavam a identidade dos residentes encontrados vagando pela câmera dos robôs.

Em janeiro, médicos usaram um robô para tratar a primeira pessoa nos Estados Unidos com COVID-19. O robô de um hospital em Seattle foi empregado para verificar os sinais vitais do paciente, limitando o contato com profissionais de saúde.

Os robôs da Zorabots, os mesmos utilizados em Ruanda, também estavam sendo usados na Bélgica! Eis o que foi mencionado num artigo publicado pelo “Portal G1” sobre a utilização desses robôs por lá:

O processo não é um diagnóstico, mas uma etapa útil que reduz os contatos da equipe médica com pacientes potencialmente infectados antes de serem internados no hospital. Então, a pessoa deve ser examinada. O robô nunca trabalha sozinho, sempre atua em apoio a um funcionário do hospital

Diga-se de passagem outros países como Suíça, Coreia do Sul, Holanda e China também tinham utilizado tais robôs. Portanto, Ruanda não foi o primeiro país do mundo a usar tecnologia robótica no enfrentamento à COVID-19, tampouco o primeiro país a utilizar os robôs da Zorabots.

Os Robôs da Boston Dynamics

Para finalizar, cabe destacar que, bem antes disso, robôs da Boston Dynamics já vinham sendo utilizados num hospital da Universidade de Harvard para realizar a triagem remota de pacientes com suspeita da COVID-19 (algo bem semelhante aos robôs da Zorabots).

Todo o procedimento era feito através de um iPad e um rádio bidirecional acoplado às costas dos robôs.

4) Grandes Veículos de Comunicação Divulgaram Essa Notícia

Na época, ao contrário do que foi mencionado pelo cantora mineira, essa notícia foi veiculada por grandes veículos internacionais de comunicação, entre eles a CNN, a Deutsche Welle, Agência APA, Agência Reuters e NPR. Portanto, se as pessoas não se importaram, isso não é problema da mídia.

5) Ruanda é um País Subdesenvolvido que Possui 39% da População Abaixo da Linha da Pobreza

Segundo a UNICEF, 39% da população de Ruanda vive abaixo da linha da pobreza e cerca de 16% vivem na extrema pobreza.

De cada 1.000 nascimentos em Ruanda, cerca de 50 dessas crianças não sobrevivem para completar cinco anos. Para cada 100.000 mães que dão à luz, cerca de 210 não sobrevivem. Essas taxas de mortalidade são muito maiores nas áreas rurais e entre as famílias mais pobres. Embora mais de 90% dos nascimentos ocorram em unidades de saúde sob a supervisão de profissionais de saúde, mais de 75% das mortes entre crianças menores de cinco anos são devido a complicações no período neonatal — o primeiro mês de vida.

Apenas 64% das famílias têm banheiro próprio, e apenas 47% têm acesso a uma fonte de água limpa e segura a 500 metros de sua casa. Apenas 5% das famílias têm instalações para lavar as mãos com água e sabão.

Segundo a UNICEF, 39% da população de Ruanda vive abaixo da linha da pobreza e cerca de 16% vivem na extrema pobreza.

Enfim, precisamos continuar ou será que isso é suficiente para mostrar que Ruanda enfrente graves problemas e, portanto, nem de longe podemos dizer que se trata de um país desenvolvido?

Qual era o Assunto da Recente Notícia Publicada pelo Site “AllAfrica”?

O recente texto publicado pelo site “AllAfrica” dizia apenas que testes para COVID-19 estariam, em breve, disponíveis para a população.

Atualmente, esse serviço de testagem é prestado apenas a pessoas que entram em contato com casos confirmados de COVID-19 e pessoas com alto risco de contrair esse vírus, assim como comerciantes que constantemente cruzam as fronteiras do país, caminhoneiros, ruandeses repatriados, entre outros. Basicamente isso, nada de robôs testando em massa a população.

E, oficialmente, Ruanda contabiliza 1.582 casos confirmados de COVID-19 e 5 óbitos devido à doença.

Conclusão

Falso! Esse caso denota fortemente uma completa falta de leitura do artigo publicado pelo site “AllAfrica”, porque em momento algum do texto é mencionado que Ruanda foi o primeiro país do mundo a usar tecnologia robótica para testagem em massa da COVID-19, tampouco diz que os robôs mostrados na foto testam a população para detectar se os cidadãos estão ou não com COVID-19.

Para saber todos os detalhes dessa história recomendamos fortemente que vocês leiam o texto acima, combinado?

Continue lendo

Jornalista, redator, e pesquisador de comunicação social com foco no combate a disseminação de notícias falsas. Colaborador do site de verificação de fatos E-farsas.com desde janeiro de 2019. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos, além de casos supostamente sobrenaturais.

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