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Um dos momentos mais incríveis da história da Medicina realmente aconteceu?

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Um dos momentos mais incríveis da história da Medicina realmente aconteceu?

Um dos momentos mais incríveis da história da Medicina realmente aconteceu?

Há muito tempo circula na internet uma história sobre “um dos momentos mais incríveis da Medicina” envolvendo a descoberta da insulina.

Se você não sabe ou não lembra o que é a insulina, ela é basicamente um hormônio produzido pelo pâncreas, e tem como função metabolizar a glicose (açúcar no sangue) para produção de energia. Ela atua como uma “chave”, abrindo as “fechaduras” das células do corpo, para que a glicose entre e seja usada nessa geração energética. Quando há alguma disfunção na produção de insulina — pouca ou nenhuma produção de insulina — a pessoa é diagnosticada com a famosa diabetes mellitus. Para o controle da glicose na corrente sanguínea, muitas vezes é necessário realizar a reposição exógena da insulina com aplicações diárias do hormônio.

Dito isso, a história conta que, em 1922, na Universidade de Toronto, os cientistas foram para uma enfermaria de um hospital com crianças diabéticas, a maioria delas em coma e morrendo de cetoacidose diabética, que por sua vez ocorre quando os níveis de açúcar no sangue do paciente diabético encontram-se muito altos. A enfermaria estava repleta de pais sentados à beira dos leitos esperando a morte inevitável de seus filhos. Então, os cientistas foram de cama em cama e injetaram nas crianças o novo extrato purificado – a insulina. Quando eles começaram a injetar na última criança em coma, a primeira criança começou a despertar. Assim sendo, uma por uma, todas as crianças acordaram de seus comas diabéticos. Uma sala de morte e tristeza, tornou-se um lugar de alegria e esperança!

A Disseminação da História no Brasil

Diversas páginas brasileiras, no Facebook (a exemplo da “BIOdepressina“, “Histologia, Fisiologia & Anatomia Humana“, e “Universo Assombroso“), compartilharam essa história em 2019! Em termos de números de compartilhamentos, o destaque ficou por conta das páginas “ConheCIÊNCIA” e “A Enfermeira“, cujas publicações já obtiveram até hoje, 32 mil e 95 mil compartilhamentos, respectivamente.  A página “ConheCIÊNCIA”, inclusive, possui essa publicação fixada até hoje (ao menos até o momento da publicação deste artigo).

Se somados, os números de seguidores de ambas as páginas ultrapassa a marca de 1,2 milhão de pessoas!

Publicação da página “ConheCIÊNCIA” no Facebook.

Publicação da página “A Enfermeira” no Facebook.

A Disseminação dessa História no Exterior

É interessante destacar, que as páginas brasileiras basicamente copiaram e colaram versões dessa história, traduzindo-as para o português, e sem qualquer tipo de verificação adicional! Tais versões circulam há muito tempo em páginas estrangeiras no Facebook e sites na internet.

Ao pesquisarmos no Google, por exemplo, encontramos uma versão dessa história, datada de 2013, que foi disseminada por um usuário num fórum de discussão chamado “Diabetes Daily Forums” e por um usuário no Tumblr. Ambos apontaram como fonte um site chamado “Diabetic Connect”, que falava sobre a história da insulina. A página e o conteúdo disponibilizado por ela não existe mais, porque mudou de nome e passou a se chamar “Upwellbeing” – uma comunidade com o objetivo de fornecer informações e ferramentas úteis para condições crônicas autogerenciadas. Contudo, ainda é possível encontrar uma publicação deles no Facebook (arquivo).

Versão disseminada por um usuário num fórum de discussão chamado “Diabetes Daily Forums”.

Versão disseminada por um usuário no Tumblr.

Eis a versão que estava circulando naquela época:

Os cientistas foram a uma enfermaria de hospital com crianças diabéticas, em coma, e morrendo de ceto-acidose diabética. Isso é conhecido como um dos momentos mais incríveis da medicina. Os cientistas foram de cama em cama e injetaram nas crianças o extrato purificado – insulina. Quando eles injetaram na última criança em coma, a primeira criança começou a despertar. Uma a uma, todas as crianças acordaram do coma diabético. Um quarto de morte se tornou um lugar de alegria e esperança.

E Não Parou Por Aí!

Desde então, outras páginas e sites reproduziram essa história acrescentando ou retirando alguns pequenos detalhes. Em 2016, as páginas “Project Blue November” e “Gina Pera, Author and Adult ADHD Educator“, no Facebook, acrescentaram o ano do acontecimento: 1922. Essa história também apareceu num texto disseminado pela “UK Essays”, uma renomada empresa voltada ao fornecimento de conteúdo educacional, gratuito ou pago, no Reino Unido.

Essa história também apareceu num texto disseminado pela “UK Essays”, uma renomada empresa voltada ao fornecimento de conteúdo educacional, gratuito ou pago, no Reino Unido.

Em novembro de 2018, essa história voltou a circular nas redes sociais, mas dessa vez através da página oficial da “Diabetes Hope Foundation” (arquivo), no Facebook, que é uma ONG canadense cuja missão é recompensar, capacitar e fornecer educação e apoio a jovens em transição para que possam conviver com a diabetes.

Já no ano passado (2019), além das páginas que citamos anteriormente, alguns sites, a exemplo do “Mums Advice“, “Anorak” e “Flashbak“, também disseminaram essa história. Este último (“Flashbak”) acrescentou um detalhe a história ao dizer que os tais cientistas, que foram a enfermaria de um hospital, eram Frederick Banting e Charles Best.

Um Rápido Contexto Histórico

É importante destacar que, em 1921, o médico canadense Frederick Banting e o estudante de medicina Charles H. Best descobriram o hormônio insulina nos extratos pancreáticos de cães. Em 30 de julho de 1921, eles injetaram o hormônio em um cão diabético e descobriram que ele reduzia efetivamente os níveis de glicose no sangue do cão diabético em relação a um cão saudável.

No fim daquele ano, com a ajuda do químico canadense James B. Collip e do fisiologista escocês J.J.R. Macleod, Banting e Best purificaram a insulina. E, no ano seguinte, ela foi usada para tratar diversos pacientes.

Imagem mostrando o retrato daqueles que descobriram ou efetivamente ajudaram na descoberta da insulina.

A história sobre a descoberta da insulina é bem longa e muito interessante, mas evidentemente não iremos contá-la na íntegra! Isso seria simplesmente inviável! De qualquer forma, recomendamos que vocês pesquisem sobre essa descoberta, porque ela realmente mudou o mundo.

Os Problemas em Potencial da História “Milagrosa” Disseminada na Internet

As publicações referentes a essa história, brasileiras ou internacionais, possuem alguns problemas em potencial. Por exemplo, a absoluta maioria das publicações não diz o nome do hospital que os tais cientistas visitaram. A maioria sequer diz o nome dos tais cientistas. Também não há nomes dos pacientes ou de familiares.

Nada disso, no entanto, é pior do que a ausência de um detalhe primordial: a fonte da informação. Nenhuma publicação diz de onde exatamente foi retirada essa história. Não há nenhum link confiável. É sempre um jogo de “empurra-empurra”, visto que as páginas apenas copiam e colam a história sem qualquer tipo de verificação.

Portanto, será que essa história é realmente verdadeira? Será que ela foi simplesmente inventada? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Falso! Tudo indica que essa essa história de pais sentados à beira de leitos esperando a morte inevitável de seus filhos, e de uma enfermaria repleta de crianças diabéticas despertando, uma após outra, após receberem uma dose de insulina, nunca, de fato, aconteceu! Em outras palavras, tudo indica que vocês foram enganados esse tempo todo!

Um detalhe peculiar é que essa não é a primeira vez que as páginas “Universo Assombroso” (1) e “ConheCIÊNCIA” (1 | 2) aparecem no E-Farsas. Anteriormente, já flagramos conteúdo enganoso sendo disseminado por tais páginas.

Enfim! A seguir iremos mostrar a vocês o porquê nada indica que essa história tenha acontecido!

Investigando a História: O Contato com Instituições Canadenses

Inicialmente, para tentar descobrir a verdade sobre essa história, entramos em contato com o site “Heritage Toronto” (uma instituição de caridade e agência local que celebra a rica herança da cidade) e o Departamento do Patrimônio Histórico Canadense (departamento do governo do Canadá responsável pelo patrimônio cultural do país).

O Departamento do Patrimônio Histórico Canadense nos respondeu dizendo que não podia ajudar, visto que o caso estava além da competência deles. Eles pediram para que entrássemos em contato com os Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde (CIHR). Estes, por sua vez, disseram que nosso requerimento também estava fora de suas alçadas, porque eles não tinham recursos diretos disponíveis no banco de dados.

Já o site “Heritage Toronto” nos enviou um trecho extraído da “Enciclopédia Canadense” (TCE), mas esse trecho não tinha nenhuma relação com a história que estávamos investigando. Por outro lado, eles nos sugeriram entrar em contato com David Wencer, arquivista do Hospital para Crianças Doentes, filiado a Universidade de Toronto. Isso porque, segundo o site, testes substanciais envolvendo a insulina foram realizados nesse hospital. Então, entramos em contato com David Wencer e, de quebra, aproveitamos para entrar em contato com o Departamento do Patrimônio Histórico da Universidade de Toronto!

Os Esforços de Natalya Rattan

Natalya Rattan, arquivista da “Thomas Fisher Rare Book Library” (biblioteca da Universidade de Toronto que possui o maior repositório de livros raros e manuscritos acessíveis ao público canadense) nos respondeu! Ela também pertence ao Departamento do Patrimônio Histórico da Universidade de Toronto.

Segundo Natalya, essa não era a primeira vez que alguém entrava em contato questionando se essa história era ou não verdadeira. Ela disse que, nos arquivos referentes aos cientistas Banting, Best, Collip e Macleod, nunca soube de qualquer referência a essa história, em específico, e nunca se deparou com a foto que acompanhava a história (no final deste artigo falaremos sobre ela).

A Possível “Inspiração” para a História

Ainda de acordo com Natalya, num livro chamado “The Discovery of Insulin” (1982), escrito pelo premiado historiador canadense Michael Bliss, (1941-2017), existe uma passagem que lembra, porém bem de longe, essa história. Confira o que consta no livro, na página 161:

O mais espetacular dos triunfos da insulina ocorreu quando diabéticos comatosos foram praticamente ressuscitados pelas injeções

Foto de páginas do livro “The Discovery of Insulin” enviada por Natalya Rattan.

Mais uma foto de páginas do livro “The Discovery of Insulin” enviada por Natalya Rattan.

É possível que essa passagem tenha servido de “inspiração” para alguém, em algum momento da linha do tempo, inventar essa narrativa sobre crianças acordando uma após outra numa enfermaria qualquer. Normalmente, o objetivo de tais narrativas nunca é exatamente romantizar a situação, mas apelar emocionalmente para um público sedento por histórias com finais felizes. Isso tudo para chamar a atenção, gerar acessos, compartilhamentos e, no fim, dinheiro.

Um Menino Chamado Leonard Thompson

No trecho do livro enviado por Natalya é mencionado o tratamento de duas crianças — Leonard Thompson e Elsie Needham —, mas ambas foram tratadas em datas diferentes, ou seja, nada de “médicos indo de cama em cama e aplicando injeções milagrosas”.

Outro detalhe importante é que Leonard Thompson, 14 anos, foi o primeiro diabético a receber injeções de extrato pancreático na clínica do Dr. Campbell, no Hospital Geral de Toronto. Inicialmente, ele recebeu uma solução preparada por Banting e Best, em 11 de janeiro de 1922 e, em seguida, o extrato purificado de Collip, em 23 de janeiro daquele ano. Contudo, Leonard não estava em coma. Ele estava numa condição muito grave, beirando o coma.

Leonard viveu por mais 13 anos com a ajuda da insulina, mas morreu aos 27 anos, devido a uma pneumonia, que se acreditava ser decorrente de complicações devido a diabetes.

Uma Menina Chamada Elsie Needham

Já Elsie Needham, 11 anos, moradora da cidade canadense de Galt, em Ontário, entrou para a história por ser a primeira criança a recuperar a consciência, a partir de um estado de coma, após a aplicação da insulina. Contudo, não pensem que foi algo fácil, que precisou de apenas de uma única aplicação ou que ela acordou imediatamente após tomar uma injeção. Foi um longo processo até que ela recuperasse a consciência.

O Despertar de Elsie

Em outubro de 1922, Elsie foi levada por seus pais até Toronto, mais precisamente para o Hospital para Crianças Doentes. Ela teria dado entrada no hospital em coma diabético (há quem diga que teria sido após se empanturrar de azeitonas e uvas). De acordo com um relatório anual do hospital, após quatro dias em estado de insconciência profunda, Elsie conseguiu recuperar a consciência com a ajuda da insulina!

Elsie Needham, 11 anos, moradora da cidade canadense de Galt, em Ontário, entrou para a história por ser a primeira criança a recuperar a consciência, a partir de um estado de coma, após a aplicação da insulina.

Eis o que foi mencionado num jornal daquela época:

Embora a resposta ao tratamento não tenha sido rápida, os médicos atendentes, que estão observando as melhorias, com grande interesse, dizem que o avanço observado ontem excede em muito as expectativas. Ontem, a pequena paciente foi capaz de escrever uma carta para seu pai e contar para ele, com muito orgulho, que ela espera voltar para Galt em breve

Notícia sobre Elsie Needham.

Curiosamente, o artigo do jornal menciona que Elsie foi tratada por duas semanas antes de perder/recuperar a consciência. De qualquer forma, sendo duas semanas ou quatro dias, seu caso demonstra claramente como o tratamento era longo e incerto naquela época! Portanto, seria extremamente improvável que crianças em coma diabético, simplesmente “voltassem à vida”, em sequência, uma após outra, num curtíssimo espaço de tempo.

Em janeiro de 1923, a menina conseguiu se recuperar plenamente, voltando a frequentar, inclusive, a escola.

A Imprescindível Colaboração de David Wencer

David Wencer, arquivista do Hospital para Crianças Doentes, em Toronto, verificou os registros médicos do hospital e não encontrou nenhuma evidência que algo assim tivesse ocorrido por lá. Aliás, ele fez questão de mencionar que, pelo menos um dos detalhes dessa história era um tanto quanto enganador. Diga-se de passagem, ele fez uma pesquisa extremamente exemplar.

Segundo David, embora tenha ficado mais famoso pelo tempo gasto com outras organizações, o Dr. Frederick Banting passou algum tempo na equipe do Hospital para Crianças Doentes. Ele ingressou no hospital, pela primeira vez, em setembro de 1919 e passou quase um ano como residente em cirurgia. Posteriormente, ele passou alguns anos fora do hospital, período no qual ele participou ativamente na descoberta da insulina. Em 1923, retornou ao hospital, mas dessa vez se limitando ao tratamento de pacientes com diabetes.

David Wencer, arquivista do Hospital para Crianças Doentes, em Toronto, verificou os registros médicos do hospital e não encontrou nenhuma evidência que algo assim tivesse ocorrido por lá.

Aparentemente, no início, isso foi feito apenas “conforme o necessário” (no momento da descoberta da insulina havia pouquíssimos pacientes com diabetes no hospital). Contudo, após alguns anos, o hospital criou uma clínica dedicada ao tratamento da doença. O nome de Banting aparece nas listas de funcionários, como “In Charge of Diabetes” (“Encarregado da Diabetes”), de 1923 até sua morte em 1941 embora uma inspeção mais detalhada sugira que a maior parte do trabalho diário na “Clínica de Diabetes” foi realmente realizada pelo Dr. Gladys Boyd.

Os Relatórios Anuais do Hospital para Crianças Doentes

David nos enviou duas digitalizações de alguns dos antigos relatórios anuais do hospital.

O Relatório Anual de 1923

O relatório de 1923 descreve o primeiro uso de insulina no Hospital para Crianças Doentes. É mencionado que, 2 dos 20 pacientes não comatosos, não melhoraram com insulina, além de uma descrição mais precisa de como a insulina realmente ajudou pacientes diabéticos no hospital. O responsável por escrevê-lo (provavelmente o Dr. Alan Brown, que era o chefe da Pediatria naquela época) também sugere que uma clínica voltada aos diabéticos, mais avançada, ajudaria ainda mais os pacientes.

Naquele ano, houve apenas 26 casos de pacientes com diabetes! Desses 26 casos, 6 eram pacientes em coma, sendo que 3 morreram! E, por mais estranho que possa parecer, esse era um excelente resultado! Portanto, David não acreditava na possibilidade da existência de uma sala ou enfermaria repleta de crianças diabéticas, principalmente em estado de coma, de uma única vez. E, muito menos, que todas as crianças tivessem se recuperado prontamente.

Documento digitalizado enviado por David Wencer

O Relatório Anual de 1925

O relatório de 1925 indica como as coisas progrediram dois anos depois, mas, ainda assim, eram complicadas. Cerca de 30 pacientes foram admitidos no hospital com diagnóstico de diabetes, mas 6 casos acabaram sendo descartados, ou seja, não se tratava de pacientes com a doença. Dos 24 casos restantes, 9 pacientes estavam em coma 3 morreram e 6 se recuperaram.

Uma observação interessante é que nos três casos fatais, os pacientes já estavam em coma por alguns dias antes de darem entrada no hospital, e não tinham recebido insulina durante esse período.

Mais um documento digitalizado enviado por David Wencer.

Outra página enviada por David Wencer.

Algumas Estatísticas Complementares

Ainda que Banting não estivesse listado como parte da equipe é possível que ele ou Best tenham visitado o hospital em 1922. Contudo, nesse caso, não há registros sobre isso!

De acordo com David, em 1922, o hospital recebeu 10 pacientes com diabetes — 9 melhoraram e 1 morreu. No ano anterior, em 1921, foram 7 pacientes com diabetes — 3 melhoraram e 4 morreram. David não soube dizer se essas estatísticas eram realmente significativas em razão da amostragem, mas, na melhor das hipóteses, elas sugeriam que houve uma “ligeira” melhora na taxa de sobrevida dos pacientes com diabetes, que chegaram ao hospital em 1922, em comparação com o ano anterior. De qualquer forma, não há evidências de que foi Banting ou Best que tratou desses pacientes. E, ainda que eles tivessem acesso à insulina em 1922, ela poderia ter sido administrada por outra pessoa.

Essa História Poderia Ter Acontecido em Outro Hospital?

Nenhuma das histórias que circulam na internet diz que as tais crianças teriam sido tratadas no Hospital para Crianças Doentes. Esse “momento mágico” poderia ter acontecido em outro hospital um hospital infantil dedicado em outro lugar ou numa enfermaria específica para Pediatria em outro hospital.

No entanto, a absoluta maioria das histórias sugere um detalhe muito anacrônico (em desacordo com os costumes da época): a imaginação de um quarto repleto de pais ao lado dos leitos de seus filhos.

Como Assim? Os Pais Não Ficavam ao Lado dos Filhos Naquela Época?

De acordo com David, por mais que seja difícil de acreditar, os pais normalmente não ficavam ao lado do leito dos filhos na década de 1920!

Historicamente, os hospitais tinham horários de visitação muito limitados. Normalmente, um pai (geralmente a mãe) levava seu filho ao hospital; se a criança fosse internada, os pais preenchiam vários formulários e depois iam embora.

Dependendo de quanto tempo a criança precisasse ficar no hospital, de quão longe a família morava, e da disponibilidade financeira, os pais até podiam visitá-la com certa regularidade, mas não era incomum a família levar uma criança ao hospital e depois voltar para casa, enquanto essa criança ficava semanas ou até meses internada.

Uma das tarefas das enfermeiras era justamente escrever cartas aos pais para atualizá-los sobre o estado de seus filhos ou então para avisar que eles podiam ir ao hospital para buscá-los.

Algumas Crenças do Passado

Atualmente, isso pode parecer um pouco “insensível”, mas isso era considerado absolutamente normal naquela época, permanecendo assim até a década de 1960! Aliás, manter os visitantes longe do hospital era uma ótima maneira de garantir que os pacientes não contraíssem infecções externas.

Também acreditava-se que as visitas familiares podiam causar estresse e ansiedade à criança, e que os visitantes (principalmente os pais) atrapalhavam os médicos e enfermeiros. O chefe de Pediatra do Hospital para Crianças Doentes, naquela época, acreditava piamente nisso e, com certeza, não permitiria uma enfermaria repleta de pais, ainda mais se o tratamento estivesse sendo administrado por médicos.

David também disse acreditar, que a maioria dos outros hospitais da América do Norte tinha políticas semelhantes. Por fim, ele disse que, de acordo com as estatísticas e políticas gerais daquela época, tudo indica que essa história seja muito mais um mito do que um fato.

E a Foto que Acompanha a História?

Sabem a foto que circula juntamente com essa história? Aquela da capa deste artigo? Ao pesquisarmos sobre essa foto em mecanismos de busca, encontramos uma referência a ela no Wikimedia Commons! Em princípio, no entanto, ela não teria nenhuma relação com a história da insulina!

Ao pesquisarmos sobre essa foto em mecanismos de busca, encontramos uma referência a ela no Wikimedia Commons!

Eis o que está escrito na descrição da foto, que teria sido tirada por volta de 1915, ou seja, alguns anos antes da descoberta da insulina:

Enfermeira e assistente estão transportando uma criança numa maca para a sala de operações do Hospital para Crianças Doentes. Eles estão prestes a entrar num elevador

Segundo a Wikimedia Commons, essa foto consta na “Biblioteca e Arquivos do Canadá” sob a MIKAN ID “3604023“. Entramos em contato com David Wencer para confirmar a autenticidade dessa fotografia, mas ainda não recebemos uma resposta dele. Caso isso aconteça, manteremos vocês informados!

Atualização 14/01 (14h):

Segundo David Wencer, a foto foi realmente tirada no Hospital para Crianças Doentes! Ele reconheceu o elevador do antigo prédio do hospital! Ainda de acordo com ele, essa foto apareceu pela primeira vez nos relatórios anuais do hospital no final da década de 1910! Não há uma data exata, mas ele disse acreditar que “por volta de 1915” seja uma estimativa muito boa de quando a fotografia foi tirada! Portanto, conforme havíamos mencionado, isso quer dizer que a foto foi tirada antes da descoberta da insulina!

Conclusão

Falso! Tudo indica que essa história de pais sentados à beira de leitos esperando a morte inevitável de seus filhos, e de uma enfermaria repleta de crianças diabéticas despertando, uma após outra, após receberem uma dose de insulina, nunca, de fato, aconteceu! Considerando as estatísticas e políticas gerais referentes a década de 1920, além do tempo de resposta a insulina, e uma série de outros fatores, tudo indica que essa história seja muito mais um mito do que um fato!

Não encontramos nenhuma evidência que nos pudesse levar a crer que essa história tenha acontecido, ainda que remotamente, razão pela qual a classificamos como “falso” em vez de “indeterminado”. Embora a insulina tenha, de fato, possibilitado a recuperação extraordinária de pacientes em coma diabético, tal narrativa muito provavelmente foi inventada por alguém em algum momento da linha do tempo (talvez a “Diabetic Connect/UpwellBeing”). Posteriormente, essa narrativa acabou sendo disseminada/compartilhada de forma indiscriminada nas redes sociais e sites na internet.

Lembrando que aqueles que se propõem a informar ou se autointitulam disseminadores de conteúdo científico não podem se ausentar da responsabilidade sobre aquilo que divulgam. Todo e qualquer conteúdo precisa ser checado. Não basta apagar uma publicação e fingir que ela nunca existiu. Por outro lado, é necessário que as pessoas saibam separar fantasias emocionais da realidade. Desde o começo essa história tinha indícios de que algo estava errado e, portanto, era necessária uma boa dose de cautela.

Agradecimentos Finais

Gostaria de agradecer imensamente a colaboração de Natalya Rattan e David Wencer! Esse artigo não seria possível sem a dedicação e a seriedade desses profissionais, que ajudam a preservar verdadeiramente a memória de suas instituições e uma parcela da história da Medicina. Também agradeço as orientações fornecidas pelo site “Heritage Toronto”, do “Departamento do Patrimônio Histórico do Canadá”, e dos “Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde”.

Jornalista e colaborador do site de verificação de fatos E-farsas entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos e casos supostamente sobrenaturais.

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