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Uma porquinha foi vítima de um experimento cruel envolvendo queimaduras?

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Uma porquinha foi vítima de um experimento cruel envolvendo queimaduras?

Uma porquinha foi vítima de um experimento cruel envolvendo queimaduras?

No dia 30 de julho de 2019, uma usuária brasileira no Facebook publicou algo chocante (arquivo). Segundo ela, uma determinada porquinha era utilizada num laboratório para testar medicamentos, mais precisamente aqueles destinados a cicatrização de ferimentos causados por queimaduras.

Ainda segundo a usuária, a porquinha teria 25 cicatrizes de queimaduras em suas costas, sendo que os buracos teriam sido feitos por uma barra de aço aquecida entre 80 e 110°C, pregada em sua pele, com uma pressão de um quilo por vinte segundos seguidos! Horripilante, não é mesmo?

Confira a publicação abaixo, que já obteve mais de 12 mil compartilhamentos!

Publicação da usuária M.A.

Entretanto, será que essa história é verdadeira? As fotos realmente mostram um porquinha que foi vítima de um experimento cruel? Tal procedimento realmente aconteceu da forma que foi descrito? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

A porquinha que aparece nas fotos seria realmente oriunda de uma instalação que realizava experimentos relacionados ao tratamento de queimaduras. Contudo, o procedimento descrito não foi realizado com ela! Os buracos, na verdade, estariam relacionados a punções realizadas em cima de enxertos de pele humana, colocados sobre regiões que anteriormente teriam sido infligidas queimaduras experimentais. Portanto, as fotos foram tiradas de seu contexto original.

Vamos explicar direitinho essa história para vocês, porque o tema é muito polêmico!

A História de Lia: Uma Porquinha que Atualmente Vive Feliz no Santuário “Camp Skipping Pig”

A porquinha da foto chama-se Lia, e desde 2011 vive feliz num santuário para porcos conhecido como “Camp Skipping Pig”. Esse santuário fica localizado numa comunidade chamada “Java Center”, na cidade de Java, no estado norte-americano de Nova York. Nós conversamos com a sua proprietária, a Dawn Camp, que gentilmente nos forneceu inúmeras informações.

De acordo com Dawn, Lia chegou a sua propriedade em dezembro de 2011, oriunda de uma instalação onde eram realizados experimentos com animais relacionados ao tratamento de queimaduras. Todos os detalhes envolvendo o nome da instalação foram mantidos em absoluto sigilo. Até mesmo o nome da pessoa que lhe forneceu o animal não foi revelado.

Foto tirada por Dawn Camp mostrando o estado que a porquinha chegou ao seu santuário.

Mais uma foto tirada por Dawn Camp mostrando o estado que a porquinha chegou ao seu santuário.

Uma bandagem foi colocada ao redor da porquinha para proteger as regiões em que os experimentos foram realizados.

A porquinha Lia sendo tratada no santuário.

A Recuperação de Lia

Ainda segundo Dawn, o experimento no qual Lia teria participado possuía 8 porcos. Lia teria sido a única resgatada ao final do experimento, uma vez que todos os demais teriam sido eutanasiados por não serem mais necessários. Infelizmente, Dawn não teria sido informada que havia mais outros sete animais, caso contrário ela teria aceitado todos eles. Quando ela ficou sabendo disso, era tarde demais.

As fotos que viralizaram recentemente nas redes sociais (daqui a pouco explicaremos isso) são justamente de quando Lia chegou ao santuário de Dawn Camp, ou seja, não são nada recentes. Com o passar das semanas, Lia foi se recuperando das marcas deixadas pelas punções e pelos enxertos.

Foto mostrando a pele de Lia completamente recuperada, mas as cicatrizes ainda eram visíveis.

Foto de Lia tirada em 2013.

Foto das cicatrizes de Lia, que foi tirada em fevereiro de 2014.

Foto de Lia tirada em outubro de 2015.

Mais uma foto tirada em outubro de 2015.

Uma das fotos mais recentes de Lia, que Dawn Camp enviou para nós!

Enfim, o mais importante a saber é que ela vem sendo bem cuidada juntamente com outros porquinhos, e que cada um deles tem sua própria história.

A Viralização das Fotos no Exterior

Não foi somente no Brasil que as fotos de Lia viralizaram! A publicação da usuária brasileira é uma cópia parcial de uma outra realizada pela página “Toronto Pig Save” (arquivo), também no Facebook. Há, no entanto, duas diferenças básicas:

  1. A usuária não citou, intencionalmente ou não, o nome da porquinha;
  2. A usuária disse apenas que uma porquinha sobreviveu, dando a impressão que o restante morreu diretamente devido a um experimento, quando, na verdade, teriam sido eutanasiados por não serem mais necessários. Um detalhe crucial, conforme mencionado anteriormente, é que Dawn Camp não teria sido comunicada sobre a existência dos demais animais antes que isso acontecesse.

Publicação da página “Toronto Pig Save”.

Posteriormente, as fotos viralizaram através de uma publicação na conta da rede “The Save Movement”, no Instagram.

Publicação do “The Save Movement”, no Instagram.

Elas também ganharam uma versão resumida, em espanhol, através de um usuário no Twitter.

Tuíte do usuário Airtor Garmendia.

Não demorou muito tempo, é claro, para repercutir aqui no Brasil.

Os Detalhes Fornecidos por Dawn Camp Sobre o Experimento

Dawn alegou que não foram fornecidos muitos detalhes sobre o experimento. Contudo, juntando aquilo que contaram para ela e informações que obteve posteriormente, daria para ter uma certa noção do que teria acontecido. Eis o que Dawn alegou saber:

  • As marcas quadrangulares seriam enxertos de pele humana obtida de cadáveres;
  • Os enxertos teriam sido colocados sobre queimaduras previamente infligidas na pele da Lia;
  • As marcas redondas seriam punções que teriam sido realizadas somente no último dia do estudo;
  • Diversos tratamentos teriam sido aplicados para saber quais deles curavam ou funcionavam melhor;
  • Cada punção deixou um buraco de 12 mm de profundidade e diâmetro.

Uma Observação Importante!

Não sabemos como as queimaduras foram infligidas na pele de Lia, mas a alegação que aqueles buracos foram feitos por uma barra de aço aquecida entre 80°C e 110°C, com uma pressão de quilo, por vinte segundos, é completamente falsa (daqui a pouco vocês entenderão o porquê).

Não saber o conteúdo, objetivo ou nome atribuído ao estudo dificulta muito a pesquisa. Tentamos encontrar alguma correspondência no site da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, mas a pesquisa foi infrutífera. Caso alguém encontre, por favor nos avise!

Placa indicando o santuário “Camp Skipping Pig”.

Segundo um artigo publicado no periódico “Annals Burns Fire Disasters“, em março de 2018, não há um procedimento padrão para a realização de queimaduras experimentais em porcos! Diversos métodos são utilizados, sendo que a temperatura e o tempo de exposição também variam. De acordo com o artigo, os métodos mais comuns variam desde a utilização de uma garrafa de água quente até a utilização de objetos metálicos (de alumínio ou latão) em diferentes formatos.

Não entraremos em detalhes sobre tais métodos – que podem envolver altas temperaturas e longos períodos de exposição – mas em nenhum momento foi mencionado que barras (no sentido de varetas ou tubos) de metal eram brutalmente enfiadas nos corpos dos porquinhos.

Uma Segunda Observação Ainda Mais Importante!

De qualquer forma, é importante dizer que Lia teria sido sedada tanto no momento que as queimaduras foram infligidas, passando pela aplicação dos enxertos, quanto no momento que as punções foram realizadas. Embora não haja um procedimento padrão para infligir as queimaduras, os animais são sedados em tais experimentos.

Dawn Camp em seu santuário e ao lado de um dos animais regastados, em 2015!

Apesar de parecerem impactantes e controversos, esses experimentos que utilizam porcos continuam sendo muito importantes para o desenvolvimento de tratamentos e medicamentos contra queimaduras por inúmeros motivos. Eis alguns deles:

  • A pele do porco é anatômica e fisiologicamente mais semelhante à pele humana;
  • A camada cornificada, epiderme, derme e região subcutânea do porco são semelhantes à pele humana;
  • O pelo e o apócrino tubular do porco também são semelhantes aos encontrados em humanos;
  • Outras semelhanças entre a pele suína e humana incluem padrões enzimáticos epidérmicos, tempo de renovação do tecido epidérmico, o caráter das proteínas queratínicas e a composição do filme lipídico da superfície da pele.

Todo procedimento é realizado como se fosse uma cirurgia de alto risco, onde o animal é constantemente medicado e tem todos os cuidados previstos em procedimentos aprovados por comitês de ética, seguindo regras bem restritas e aprovadas pela comunidade científica internacional. Não é simplesmente aleatório.

E de Onde Foi Tirado o Procedimento Descrito na Publicação Envolvendo as Fotos da Lia?

Uma parte do método descrito nas publicações trata-se de um modelo experimental mencionado num estudo publicado por cientistas chineses, em 2014, num periódico chamado “Burns”, pertencente a  Sociedade Internacional de Lesões por Queimaduras. Entretanto, esse modelo não gerou buracos, assim como aqueles mostrado na foto, na pele do único porco utilizado no experimento. Portanto, o método foi incorretamente descrito pelas publicações recentemente viralizadas.

Denominado “The pig as an experimental model for mid-dermal burns research“, este foi descrito como um novo, prospectivo e intervencionista estudo projetado para desenvolver e avaliar um novo dispositivo de inflição para o modelo de queimadura experimental. Quatro pares de dispositivos de contato com 36 mm de diâmetro foram infligidos, com uma pressão de um quilo, no dorso de um único porco anestesiado. O dispositivo de contato era feito de aço inoxidável e foi aquecido entre 80 e 110°C.

Foto mostrando o equipamento, que é “apenas” encostado na pele do porco com uma pressão de um quilo.

Gráfico mostrando as regiões onde foram infligidas queimaduras experimentais.

Resultado logo após o procedimento, de acordo com a temperatura determinada. Conforme podemos notar, o equipamento não perfurou a pele do animal.

Foto dos curativos do animal utilizado no estudo realizado por cientistas chineses.

O dorso esquerdo foi utilizado para observação macroscópica e o dorso direito foi utilizado para avaliação histopatológica. Um total de oito queimaduras foram cobertas com curativos salinos úmidos e tratados diariamente com gel de xilocaína (lidocaína HCl, um anestésico). O tratamento durou 24 dias. Ao final do tratamento, biópsias de espessura total da pele foram feitas para análise histológica, e para determinar a extensão das lesões.

Uma Gangorra Entre o Ativismo e o Avanço Científico

É muito importante deixar claro, que não estamos dizendo que experimentos envolvendo porcos não existam ou que queimaduras experimentais não sejam infligidas em suas peles. Estamos apenas mostrando que o discurso inflamado das redes sociais e de ativistas nem sempre é compatível com o que acontece na prática. O caso envolvendo a Lia é um exemplo emblemático. Se dependesse somente das redes sociais, “Lia teria agonizado de dor ao simplesmente enfiarem barras de metal pegando fogo dentro do seu corpo”. Isso não aconteceu com a Lia e nem com o outro animal referente ao estudo chinês.

Outro detalhe é que não estamos dizendo que os testes em animais, desta natureza, devem ser menosprezados. Longe disso. Contudo, é inegável que houve grandes avanços no tratamento de queimaduras em humanos devido a experimentos em animais, principalmente porcos. Eles devem ser respeitados e honrados pela contribuição, ainda que involuntária, que proporcionaram. No mundo perfeito, nenhum animal deveria ser utilizado ou eutanasiado, e todos deveriam ser cuidados e amados pelo resto de suas vidas. Porém, vivemos num mundo imperfeito. Apenas alguns são salvos.

E, por incrível que pareça, a divulgação incorreta de tais casos, também prejudica o resgaste dos animais de tais instalações. Isso porque gera uma publicidade negativa e inibe que as instalações doem os animais que passaram pelos experimentos. Essa, por exemplo, é a visão de Dawn Camp.

Cerca de 180.000 Pessoas Morrem Atualmente Devido a Queimaduras no Mundo

Uma pomada que está na prateleira de uma farmácia, muitas vezes custou anos de estudo, tempo, testes e dinheiro. Os medicamentos e os tratamentos aplicados em hospitais, também. Pode não parecer ou não ser tão noticiado quanto um ferimento a bala, mas dezenas de milhares de pessoas – crianças e adultos – morrem devido a queimaduras.

E se não houvesse tratamento? E se não soubéssemos tratar, por exemplo, uma criança inocente, que também não pediu para ser queimada gravemente? Deixaríamos ela morrer? E se fosse seu(ua) filho(a)? Entendem como a situação é complexa? É uma discussão sem fim, mas que precisa ser exposta de maneira racional e coerente.

E se não soubéssemos tratar, por exemplo, uma criança inocente, que também não pediu para ser queimada gravemente?

Quando queimaduras graves não são tratadas de forma adequada, o corpo se torna mais vulnerável do que costume a infecções, desde sepse secundária a pneumonia, infecções relacionadas a cateteres e tromboflebite supurativa. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, estima-se que 180 mil pessoas morram anualmente devido a queimaduras.

Conclusão

A porquinha que aparece nas fotos chama-se Lia e seria realmente oriunda de uma instalação que realizava experimentos relacionados ao tratamento de queimaduras. As fotos foram tiradas assim que Lia chegou ao santuário “Camp Skipping Pig”, nos Estados Unidos, em dezembro de 2011. Lia ainda está viva e vive feliz no santuário. Contudo, o procedimento descrito não foi realizado com ela, visto que os buracos, na verdade, estariam relacionados a punções realizadas em cima de enxertos de pele humana colocados sobre regiões, que anteriormente teriam sido infligidas queimaduras experimentais. Portanto, as fotos foram tiradas de seu contexto original.

Uma parte do método descrito nas publicações trata-se de um modelo experimental mencionado num estudo publicado por cientistas chineses, em 2014, num periódico chamado “Burns”, pertencente a Sociedade Internacional de Lesões por Queimaduras. Entretanto, esse modelo não gerou buracos, assim como aqueles mostrados na foto, na pele do único porco utilizado no experimento. Portanto, o método foi incorretamente descrito pelas publicações recentemente viralizadas, sendo também retirado do seu contexto original.

Jornalista e colaborador do site de verificação de fatos E-farsas entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos e casos supostamente sobrenaturais.

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