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A expressão “salvo pelo gongo” teve origem no medo dos ingleses de serem enterrados vivos?

Falso

A expressão “salvo pelo gongo” teve origem no medo dos ingleses de serem enterrados vivos?

A expressão “salvo pelo gongo” teve origem no medo dos ingleses de serem enterrados vivos?

Será verdade que a popular expressão “salvo pelo gongo”, amplamente difundida pelo boxe, teve origem no medo dos ingleses de serem enterrados vivos ao longo dos séculos XVIII e XIX? Bem, essa é uma versão que circula na internet há muito tempo. Para sermos mais precisos, desde abril de 1999, quando começou a circular um texto chamado “Life in the 1500s“, no formato de corrente de email, onde eram apresentadas histórias sobre antigas expressões e ditados populares em inglês.

Entretanto, será que isso é mesmo verdade? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

A Versão Apresentada pelo Texto “Life in the 1500s” e a Propagação na Internet

Entre as inúmeras histórias contadas no texto intitulado “Life in the 1500s” estava justamente a suposta história da expressão “saved by the bell” (literalmente “salvo pelo sino”, porém foi adaptada para o português brasileiro como “salvo pelo gongo”). O texto faz a seguinte alegação:

Uma vez que a Inglaterra é tão antiga e pequena, eles começaram a ficar sem lugares para enterrar as pessoas. Então, eles começaram a desenterrar alguns caixões e levaram seus ossos para uma casa e reutilizavam o túmulo. Eles começaram a abrir esses caixões, e descobriram que alguns tinham marcas de arranhões no interior.

Um em cada 25 caixões apresentava tais marcas, e eles perceberam que estavam enterrando pessoas ainda vivas. Então, eles pensaram que poderiam amarrar uma corda no pulso dos corpos, passando através do caixão, até chegar na superfície, e amarrar juntamente a um sino. Alguém teria que ficar no cemitério a noite inteira para ouvir o sino. Foi assim que o ditado ‘graveyard shift’ (turno de cemitério, em português) nasceu. Se o sino tocasse, eles saberiam que alguém foi ‘salvo pelo sino’, também chamado de ‘toque do morto’

Observação: O trecho alega que a expressão “dead ringer” seria algo como “toque do morto” (traduzimos intencionalmente dessa forma), porém esse não é a realidade por trás da expressão, que, na verdade, significa: “alguém ou algo que se parece muito com o outro; alguém ou algo facilmente confundido com outro”. Além disso, sua origem não tem relação alguma com a história contada acima.

Entre as inúmeras histórias contadas no texto intitulado “Life in the 1500s” estava justamente a suposta história da expressão “saved by the bell” (literalmente “salvo pelo sino”, porém foi adaptada para o português brasileiro como “salvo pelo gongo”)

Posteriormente, ao longo dos anos seguintes, a história sobre essa expressão continuou sendo propagada por diversos sites na internet. Como exemplo, aqui no Brasil, temos uma página sobre essa expressão no site “Dicionário Popular”, que considera toda essa história sobre o medo dos ingleses de serem enterrados vivos como uma provável origem para a mesma.

Mais recentemente, no dia 30 de janeiro de 2019, uma página no Facebook chamada “Pura Nostalgia” publicou uma imagem informando aos seus seguidores, que a expressão “salvo pelo gongo” também foi originada dessa forma, ou seja, da tal cordinha amarrada nos pulsos dos mortos e ligada diretamente a um sino, na superfície, se referindo novamente aos ingleses. A publicação já obteve mais de 4.400 compartilhamentos e 3,4 mil interações.

A publicação já obteve mais de 4.400 compartilhamentos e 3,4 mil interações.

Verdadeiro ou Falso? A Realidade por Trás da Origem da Expressão “Salvo pelo Gongo”!

A expressão “salvo pelo gongo” não teve origem no medo dos ingleses de serem enterrados vivos ao longo dos séculos XVIII e XIX! Essa expressão é uma gíria do boxe, que surgiu no finalzinho do século XIX. A primeira referência, que se tem conhecimento dessa expressão, apareceu na página 8, da edição do dia 21 de fevereiro de 1893, do jornal norte-americano “The Fitchburg Daily Sentinel. Eis um pequeno trecho do que foi publicado:

Martin Flaherty derrotou Bobby Burns em 32 assaltos por meio de um nocaute completo. Por cerca de meia dúzia de vezes Flaherty foi salvo pelo gongo nos assaltos anteriores…

A expressão “Salvo pelo Gongo” não teve origem no medo dos ingleses de serem enterrados vivos ao longo dos séculos XVIII e XIX! Essa expressão é uma gíria do boxe, que surgiu no finalzinho do século XIX.

Para aqueles que não conhecem o boxe, é importante mencionar que os combates são disputados em rodadas (denominados de “assaltos”), que possuem um tempo de duração específico. Quando o tempo do assalto termina, soa o gongo e os lutadores devem parar de lutar momentaneamente. Assim sendo, neste cenário, caso um dos lutadores esteja sendo fortemente golpeado, ao soar o gongo, este acaba por ser salvo de ir à nocaute. Dessa forma, a pessoa é literalmente “salva pelo gongo”.

Além disso, é importante deixar claro que o texto “Life in the 1500s” é atualmente considerado uma farsa completa, visto que todas as histórias sobre as origens de expressões ou ditados antigos, em inglês, são falaciosas, e já foram amplamente desmentidas ao longos dos últimos anos.

E o Medo dos Ingleses de Serem Enterrados Vivos? Pessoas Realmente Foram Enterradas Dessa Forma?

De tempos em tempos, sempre acaba surgindo um caso na América Latina ou Central, onde alguém de uma família, ao velar o corpo de um ente querido, acaba notando um espasmo muscular ou uma condição corpórea que julgue ser incompatível com a morte, geralmente por falta de conhecimento médico e pela clara desconfiança nos sistemas públicos de saúde. Se voltarmos no tempo, lá nos séculos XVIII e XIX, o medo de ser enterrado vivo não somente na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos, Alemanha e na Rússia, era motivo de grande preocupação entre a população.

O medo de ser enterrado vivo atingiu seu auge durante as epidemias de cólera, justamente nos séculos XVIII e XIX, mas os relatos de pessoas sendo enterradas vivas datam de muito tempo atrás. Quando seu túmulo foi reaberto, o filósofo John Duns Scotus (1266 – 1308) teria sido encontrado fora de seu caixão com as mãos rasgadas e ensanguentadas após tentar escapar sem sucesso. Porém, é muito provável que essa história seja tão somente uma lenda. De qualquer forma, o medo de ser enterrado vivo foi intensificado por relatos de médicos, além de relatos na literatura e nos jornais. Além de tratar do assunto em “A Queda da Casa de Usher” e “O Barril de Amontillado”, Edgar Allan Poe escreveu “O Enterro Prematuro”, publicado em 1844. O livro continha relatos de supostos casos de enterros prematuros, assim como detalhava o próprio enterro do protagonista, enquanto ainda estava vivo.

De qualquer forma, existem poucos casos, documentados de maneira confiável, de pessoas que tenham sido realmente enterradas vivas. Muitos relatos da época tinham um aspecto muito mais literário e ficcional do que real.

Além de tratar do assunto em “A Queda da Casa de Usher” e “O Barril de Amontillado”, Edgar Allan Poe escreveu “O Enterro Prematuro”, publicado em 1844. O livro continha relatos de supostos casos de enterros prematuros, assim como detalhava o próprio enterro do protagonista, enquanto ainda estava vivo.

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É interessante notar também, que apesar da Revolução Industrial estar a pleno vapor na Europa e nos Estados Unidos (entre 1760 e 1820/1840) ainda não havia métodos confiáveis para determinar a morte de um indivíduo. Ao mesmo tempo, novas formas de colocar pessoas em coma (eletricidade, produtos químicos, acidentes industriais das novas máquinas e ferrovias etc…) estavam se multiplicando, ou seja, o ambiente era extremamente favorável para causar uma verdadeira histeria.

O medo geralizado de um enterro prematuro levou à invenção de muitos dispositivos de segurança, que podiam ser incorporados aos caixões. A maioria consistia em algum tipo de dispositivo para comunicação com o mundo exterior, assim como uma cordinha ligada a um sino, que a pessoa poderia puxar, acionando o sino, caso revivesse após ter sido enterrada.

O medo de ser enterrado vivo atingiu seu auge durante as epidemias de cólera, justamente nos séculos XVIII e XIX, mas os relatos de pessoas sendo enterradas vivas datam de muito tempo atrás.

Um dos primeiros caixões de segurança que se tem conhecimento, teria sido construído sob as ordens do duque Ferdinand de Brunswick antes de sua morte, em 1792. Ele tinha uma espécie de janela instalada para permitir a entrada de luz, um tubo para fornecer ar fresco e, em vez de ter a tampa pregada ele era fechado por meio de um cadeado. Em um bolso especial do sudário que envolvia seu corpo, havia duas chaves, uma para a tampa do caixão e outra para a porta de seu mausoléu.

Sabem a imagem que acompanha a alegação de que a expressão “salvo pelo gongo” nasceu pelos mortos serem enterrados com uma corda ligada a um sino na superfície? Então, aquela imagem, na verdade, é de uma patente norte-americana (US81437A) de um caixão de segurança, de 1868. O responsável pela criação do modelo foi um homem chamado Franz Vester, morador de Newark, Nova Jersey, ou seja, a imagem nem mesmo representa uma invenção patenteada na Inglaterra.

Uma patente norte-americana (US81437A) de um caixão de segurança, de 1868. O responsável pela criação do modelo foi um homem chamado Franz Vester, morador de Newark, Nova Jersey, ou seja, a imagem nem mesmo representa uma invenção patenteada na Inglaterra

Também tivemos inúmeros outros modelos, entre eles um modelo patenteado em 1891 (US465548A):

Também tivemos inúmeros outros modelos, entre eles um modelo patenteado em 1891 (US465548A)

Os “primos mais elaborados” dos modelos citados acima, eram os “caixões de escape”, que foram construídos para que as pessoas enterradas de forma prematura, e que não tivessem paciência para esperar que outra pessoa viesse resgatá-las, pudessem sair. Tal caixão, patenteado em 1843 (US3335A), era destinado a ser utilizado em mausoléus, e tinha uma tampa com uma mola, que podia ser aberta com o menor movimento de uma cabeça ou da mão.

Tal caixão, patenteado em 1843 (US3335A), era destinado a ser utilizado em mausoléus, e tinha uma tampa com uma mola, que podia ser aberta com o menor movimento de uma cabeça ou da mão

Outro exemplo mais extremo foi do mausoléu do bombeiro aposentado Thomas Pursell, que ele projetou para si mesmo e para sua família. Localizado no Cemitério Wildwood em Williamsport, no estado norte-americano da Pensilvânia, o mesmo podia ser aberto por dentro, através de uma escotilha. Esse mausoléu existe até hoje.

Outro exemplo mais extremo foi do mausoléu do bombeiro aposentado Thomas Pursell, que ele projetou para si mesmo e para sua família. Localizado no Cemitério Wildwood em Williamsport, no estado norte-americano da Pensilvânia, o o mesmo poderia ser aberto por dentro, através de uma escotilha.

Thomas Pursell foi realmente enterrado nesse local em 1937, porém até hoje ele não saiu de lá.

Enfim, de qualquer forma, não há nenhuma evidência clara de que, apesar de patenteados, os caixões de segurança que possuíam um dispositivo para ser amarrado ao pulso ou dedo de um corpo foram realmente utilizados pela população em geral, exceto de forma anedótica. Além disso, não temos nenhum registro de que uma pessoa tenha sido salva por tal método. Também não há nenhuma referência apontando que a expressão “salvo pelo gongo” tenha sido utilizada neste contexto, antes de ser aplicada ao boxe.

Conclusão

A alegação de que a expressão “salvo pelo gongo” teve origem no medo dos ingleses de serem enterrados vivos ao longo dos séculos XVIII e XIX é totalmente falsa. Essa expressão é uma gíria do boxe, que surgiu no finalzinho do século XIX, através de um jornal norte-americano.

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10 Comentários

10 Comments

  1. Becker

    12 de fevereiro de 2019 em 14:35

    Parabéns! Myito interessante e informativo o texto!7

    • Marco Faustino

      13 de fevereiro de 2019 em 15:23

      Ficamos felizes que tenha gostado, Becker! 😀

  2. Sidnei

    12 de fevereiro de 2019 em 19:14

    Eu lembro desse texto e realmente é bem antigo.
    Dá para fazer uma coletânea só de coisas que tinham lá como:

    A “chuva de canivetes” ligada aos animais e insetos que pulavam do forro com as garras para baixo diante de muita chuva.

    O ritual do buquê de flores no casamento para esconder o mau cheiro.

    Entre outros.

    Vai ter muito trabalho se for revisar todos esses mitos rsrs

    • Marco Faustino

      13 de fevereiro de 2019 em 15:24

      Pois é, Sidnei! Essa história sobre a expressão “salvo pelo gongo” circula desde essa corrente por email! De qualquer forma, você encontra todos os casos amplamente desmentidos em sites internacionais! 😀

  3. Fernando

    13 de fevereiro de 2019 em 9:16

    Existe algum exemplo para dividir conosco desses “poucos casos, documentados de maneira confiável, de pessoas que tenham sido realmente enterradas vivas”?

  4. carlos

    13 de fevereiro de 2019 em 14:32

    Eu sempre achei que vinha mesmo do boxe. Achei estranho quando vi esse texto.

  5. Lucho

    15 de fevereiro de 2019 em 18:02

    E uma coisa que eu tinha plena certeza de que era verdade, na verdade era mentira. Mais uma vez, parabéns pelo trabalho enciclopédico, Marco.

    E sobre essa de ser enterrado vivo, há uma história de que o ator Sérgio Cardoso, que sofria de ataques epiléticos, fora enterrado vivo.

    • Marco Faustino

      15 de fevereiro de 2019 em 21:33

      Agradeço pela palavras, Lucho! Ficamos felizes por ter gostado de mais essa postagem! 😀

  6. Marcos

    15 de fevereiro de 2019 em 23:29

    esse sino no caixão só me lembra de uma cena do filme “a Freira”

  7. Ely

    23 de fevereiro de 2019 em 21:43

    Minha infância acaba de ser destruída

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