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Índios acorrentados por militares durante a construção da Transamazônica! Será?

Falso

Índios acorrentados por militares durante a construção da Transamazônica! Será?

Índios acorrentados por militares durante a construção da Transamazônica! Será?

Será verdade que uma foto mostra indígenas suruís, acorrentados por militares do Exército Brasileiro, durante a construção da Rodovia Transamazônica? Bem, é isso que a publicação de uma foto, que está viralizando nas redes sociais, principalmente no Facebook, vem alegando.

Entretanto, será que isso realmente procede? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Será verdade que uma foto mostra indígenas suruís, acorrentados por militares do Exército Brasileiro, durante a construção da Rodovia Transamazônica? Bem, é isso que a publicação de uma foto, que está viralizando nas redes sociais, principalmente no Facebook, vem alegando.

Verdadeiro ou Falso?

Falso! Na verdade, a foto mostra indígenas amazônicos escravizados durante o ciclo da borracha, no início do século XX. A foto foi originalmente publicada em dezembro de 1912, no livro “The Putumayo, the devil’s paradise“, do autor Walter Hardenberg, que era um jovem engenheiro norte-americano.

O livro basicamente relata viagens realizadas pelo autor na Amazônia peruana e uma série de atrocidades, que foram cometidas contra povos indígenas no Vale do Rio Putumayo, uma região fronteiriça entre Peru, Colômbia e o Brasil.

Na verdade, a foto mostra indígenas amazônicos escravizados durante o ciclo da borracha, no início do século XX.

A foto foi originalmente publicada em 1912, no livro “The Putumayo, the devil’s paradise”, do autor Walter Hardenberg.

Uma Rápida Contextualização Histórica

A Companhia Amazônia Peruana (CAP) era uma empresa do ramo da borracha, que operava no Peru, no final do século XIX e início do século XX. Baseada na cidade de Iquitos, tornou-se notória pelos maus tratos de seus trabalhadores indígenas na Bacia Amazônica, que eram tratados virtualmente como escravos. As práticas da empresa foram expostas em 1913 através do relatório investigativo do Cônsul-Geral britânico Roger Casement, além de um artigo e um livro do jornalista W. E. Hardenburg, anos antes.

Essa companhia originou-se a partir de uma empresa chamada “Arana Brothers”, cujo proprietário era um homem conhecido por Julio César Arana, um empresário e político peruano. Em 1907, a “Arana Brothers” foi registrada no Reino Unido e, em dezembro de 1918, passou a se chamar “Companhia Amazônia Peruana”. Não somente isso, a “nova empresa” passou a operar na Bolsa de Valores de Londres, e recrutou um conselho de diretores britânicos. Assim sendo, ela se tornou parcialmente britânica.

Em menos de cinco anos, através da exploração das seringueiras, do extermínio de colonos colombianos, e do massacre e escravização de povos indígenas amazônicos, Arana transformou sua empresa em uma companhia internacional de sucesso.

Essa companhia originou-se a partir de uma empresa chamada “Arana Brothers”, cujo proprietário era um homem conhecido por Julio César Arana (na foto), um empresário e político peruano.

A CAP operava na área do rio Putumayo, que flui dos Andes para se juntar ao rio Amazonas nas profundezas da selva tropical. Na época, essa área foi contestada entre o Peru, a Colômbia, o Equador, e era habitada por numerosos povos indígenas. A empresa participou de abusos e ações criminosas contra trabalhadores da região, com seus supervisores usando a força e até matando para reprimir os trabalhadores.

O Relatório de Roger Casement

O relatório investigativo de Roger Casement expôs os abusos, constrangendo os membros britânicos da diretoria da empresa. Eles pressionaram Arana para melhorar as operações. Um movimento cresceu para acabar com o abuso, e acabou levando ao fim da empresa. A Sociedade Antiescravista e de Proteção aos Aborígines foi um dos grupos ativistas, que trabalharam para impedir os abusos.

O relatório investigativo de Roger Casement (na foto) expôs os abusos, constrangendo os membros britânicos da diretoria da empresa

Esse relatório só foi possível graças a W. E. Hardenburg, que escreveu um artigo contundente na revista britânica “Truth”. Em 1910, o governo britânico enviou o Cônsul-Geral Roger Casement para investigar as alegações de Hardenburg. Seu relatório também denunciou as operações do CAP. Posteriormente, o livro “The Putumayo, the devil’s paradise“, de Hardenburg, que continha trechos editados do relatório de Casement, foi descrito por seu editor como “talvez a página mais terrível de toda a história do comercialismo“. Entre as conclusões das diversas partes que investigaram tais abusos estavam: servidão por dívidas contraídas, escravidão, tortura, mutilação e muitos outros crimes.

Um Comitê Seleto da Câmara dos Comuns publicou um trabalho sobre as investigações em 1913. O conselho de diretores britânicos acabou sendo considerado “não criminalmente responsável” considerando o “Ato contra o Comércio de Escravos”, e a empresa foi fechada por ordem judicial naquele mesmo ano.

Indígenas Suruís Foram Acorrentados Durante a Construção da Transamazônica?

Apesar da foto não retratar indígenas suruís acorrentados por militares durante a construção da Rodovia Transamazônica, será que tal episódio aconteceu e não houve registro fotográfico?

Bem, em primeiro lugar, é importante ter em mente que a etnia Suruí é um tanto quanto ampla. Segundo o site do Instituto Socioambiental, os suruís são um grupo indígena brasileiro, que habita os estados de Rondônia e Mato Grosso. Em Rondônia, eles se autodenominam como “paiter“, que significa “gente de verdade, nós mesmos”.

Os Suruí Paiter foram oficialmente contatados pela Funai em 1969, por meio dos sertanistas Francisco Meirelles e Apoena Meirelles, no então acampamento da Funai, Sete de Setembro, quando nesse ano visitaram o acampamento, fundado um ano antes, no dia 7 de setembro de 1968 (esse ficou sendo também o nome da principal aldeia Suruí, contígua ao posto).

Paiter na aldeia Linha 11, na TI Sete de Setembro. Foto: Luis Paulino, 1985.

Os Suruí Paiter só passaram a morar de forma permanente no posto em 1973, quando vieram buscar assistência médica em razão de uma epidemia de sarampo que matou cerca de 300 pessoas. Esse é um ponto interessante, porque apesar da Rodovia Transamazônica ter sido construída no governo do presidente Emílio Médici (1969 a 1974), ela não passou pelos Estados de Rondônia ou Mato Grosso.

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Além dos Suruí Paiter, temos um outro povo indígena chamado Aikewara, que também são conhecidos como “suruís-aiqueuaras” ou “Suruís do Pará”. Esse grupo habita a região sudeste do estado brasileiro do Pará, mais precisamente na Terra Indígena Sororó, situada às margens da BR-153, nos municípios de Marabá, São Domingos, Brejo Grande e São Geraldo do Araguaia. Porém, não encontramos quaisquer registros da participação análoga a escravidão ou não, de membros desse grupo, na construção da Rodovia Transamazônica.

Além dos Suruí Paiter, temos um outro povo indígena chamado Aikewara, que também são conhecido como “suruís-aiqueuaras ou Suruís do Pará”. Esse grupo habita a região sudeste do estado brasileiro do Pará, mais precisamente na Terra Indígena Sororó, situada às margens da BR-153, nos municípios de Marabá, São Domingos, Brejo Grande e São Geraldo do Araguaia.

Assim sendo, não temos nenhuma evidência que indígenas suruís tenham sido acorrentados por militares durante a construção da Rodovia Transamazônica.

Suruí Paiter: Uma História de Conflitos e Invasões

Por outro lado, isso não significa que a vida dos indígenas suruís foi fácil ao longo da século XX. A demarcação da “Terra Indígena Sete de Setembro”, criada para os Suruí Paiter, por exemplo, ocorreu em 1976. Já a posse permanente foi declarada pela portaria 1561, de 29 de setembro de 1983, pelo então presidente da Funai, Octavio Ferreira Lima, momento em que recebeu o nome oficial de “Área Indígena Sete de Setembro”. Sua homologação saiu no mesmo ano através do decreto nº 88867, de 17 de outubro de 1983, pelo então presidente João Figueiredo.

Aparentemente, no papel, tudo estava bem definido. A realidade, no entanto, foi bem diferente. Entre 1971 a 1981, houve uma sucessão de choques armados entre os Suruí e invasores. Já anos de 1982 a 1986 foi iniciado o Programa de Desenvolvimento Integrado do Noroeste do Brasil (POLONOROESTE). Nos acordos contratuais, o Governo Federal e o Governo de Rondônia assumiram o compromisso de proteção das áreas legalmente definidas como reservas.

Vista de uma aldeia Paiter. Foto: Possidônio Bastos, 1970.

Nesse período, o Território Federal de Rondônia se transformou economicamente e recebeu cerca de aproximadamente 200 mil imigrantes por ano, trazendo consigo madeireiras, empresas mineradoras, especuladores e grileiros de terra, incluindo inúmeras invasões e desmatamento nas terras indígenas. A terra dos Paiter foi novamente invadida, causando desorganização social e aumento de doenças de forma assustadora.

Na segunda metade da década de 90, ainda houve a incidência de atividade garimpeira na Terra Indígena Sete de Setembro. Porém, como havia pouco ouro a ser extraído, não demorou muito para que ela perdesse vigor.

Os Suruís Sofreram com a Ditadura Militar?

Em setembro de 2013, houve a publicação de uma matéria no Portal IG, que citou uma estimativa de 8.000 mortes de indígenas devido a construção de rodovias durante o regime militar. Contudo, não havia como falar em um número exato de mortos devido à falta de registros. Diversas tribos indígenas/etnias foram mencionadas na matéria, entre elas os Suruí, porém não foram citadas quaisquer violações específicas contra os Suruí. Além disso, toda a avaliação descrita na matéria era de caráter preliminar por parte da Comissão Nacional da Verdade (CNV).

No dia 19 de setembro de 2014, a Comissão de Anistia (responsável pelas políticas de reparação e memória para as vítimas da ditadura no Brasil) concedeu anistia política a um grupo de índios suruís-aiqueuaras, que alegaram ter sido vítimas de de maus tratos, violências, e torturas (privação de água, comida e sono), por parte dos militares durante a Guerrilha do Araguaia. Dos 16 pedidos analisados, a comissão reconheceu 14. Em todos os processos os indígenas alegaram ter sido utilizados pelos militares para o reconhecimento do território, e para servir de apoio nas perseguições aos guerrilheiros.

Ainda segundo os “Suruís do Pará”, eles teriam sido tratados como prisioneiros de guerra, visto que as mulheres e crianças teriam sido diuturnamente vigiados na aldeia, enquanto todos os homens adultos teriam sido recrutados à força. Tudo isso, no entanto, com o aval da Funai. Os homens também teriam sido usados como escudos humanos, carregado cargas pesadas para os militares, e dormido ao relento na estação das chuvas, com fome, sede e medo, sob a mira das armas, na “caça” aos guerrilheiros.

No dia 19 de setembro de 2014, a Comissão de Anistia (responsável pelas políticas de reparação e memória para as vítimas da ditadura no Brasil) concedeu anistia política a um grupo de índios suruís-aiqueuaras, que alegaram ter sido vítimas de de maus tratos, violências, e torturas (privação de água, comida e sono), por parte dos militares durante a Guerrilha do Araguaia.

Em 10 dezembro de 2014, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) entregou um relatório final, com um total de mais de 4.300 páginas divididas em três volumes, incluindo os povos indígenas entre as vítimas de graves violações de direitos humanos ocorridas no período de 1946 e 1988, ou seja, antes, durante e depois da ditadura militar. Inserido no Volume II do relatório geral, assinado por Maria Rita Kehl, o capítulo “Violações de direitos humanos dos povos indígenas” (clique aqui) apresentou, ao longo de 60 páginas, um número limitado de casos de violações de direitos contra povos indígenas. Especificamente sobre os suruís constava apenas o episódio relacionado a Guerrilha do Araguaia.

Em 2017, documentos obtidos pela revista “IstoÉ” indicavam que, apesar de até hoje não haver uma ação ampla de reparação aos índios, militares e servidores da Funai admitiram em relatórios reservados, que o Estado fez parte da matança de centenas de indígenas, das mais diversas tribos, durante os anos da repressão. Os documentos também indicavam, por exemplo, que no início da década de 1970, houve um grande surto de doenças na área de indígenas Suruí Paiter, em Rondônia. Em visita à região, o etnólogo francês Jean Chiappino constatou a ausência de cuidados de saúde, por parte da Funai, o que provocou a morte de 200 nativos.

Os registros oficiais da Funai, na época, confirmaram o surto e as mortes, mas não traziam maiores dados sobre o número e a amplitude do problema. Mais de 40 anos depois, documentos produzidos por missionários do SIL (Summers Institute of Linguistics), uma ONG evangélica norte-americana, confirmaram pelo menos 65 óbitos presenciados por um casal de missionários, Willem e Carolyn Bontkes. Os relatórios também falavam em “centenas” de suruís mortos em um período em que o casal não estava na região.

Conclusão

A foto que circula nas redes sociais mostra, na verdade, indígenas amazônicos escravizados durante o ciclo da borracha, no início do século XX. A foto foi originalmente publicada em 1912, no livro “The Putumayo, the devil’s paradise“, do autor Walter Hardenberg. Já a Rodovia Trasamazônica foi construída somente décadas depois, no governo de presidente Emílio Médici, sendo oficialmente inagurada em 1972. A divulgação de fotos com contexto histórico distorcido ou legendas falsas não contribui em absolutamente nada para a discussão da questão indígena no Brasil.

Um exemplo válido de discussão histórica seria, por exemplo, o “Relatório Figueiredo” – um relatório de 7 mil páginas elaborado em 1967 pelo procurador Jader de Figueiredo Correia a pedido do ministro do Interior Afonso Augusto de Albuquerque Lima. A investigação, feita em plena ditadura, foi o resultado de uma expedição que percorreu mais de 16 mil quilômetros, entrevistou dezenas de agentes do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e visitou mais de 130 postos indígenas. Orgão criado em 1910, quando várias frentes de expansão avançavam para o interior do país, o SPI era ligado ao Ministério do Interior e funcionou até 1967, quando foi substituído pela Fundação Nacional do Índio (Funai). 

A investigação apurou matanças de comunidades inteiras, torturas e toda sorte de crueldades praticadas contra indígenas em todo o país — principalmente por latifundiários e funcionários do extinto SPI. Segundo José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da UNI-Rio, a repercussão do “Relatório Figueiredo” foi grande porque não se tratava de um caso patológico, de pessoas que eram psicopatas e que atacavam os índios, mas de pessoas normais, que tinham família, que frequentavam a Igreja, tinham conta no banco e faziam carinho em seus filhos e, de repente, essas pessoas estavam envolvidas: eram grileiros, comerciantes, políticos, desembargadores, juízes, deputados, governadores, delegados e até ministros.

Na prática, a mudança de SPI para a Funai foi apenas uma questão de nomenclatura, uma vez que excessos, violações e atrocidades foram cometidas contra povos indígenas antes, durante e após o regime militar, tanto por civis quanto por militares. Infelizmente, ao longo da história, a omissão e permissividade do Estado Brasileiro foram os principais fatores para que tal situação ocorresse e fosse perpetuada.

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4 Comentários

4 Comments

  1. Cesar Crash

    2 de abril de 2019 em 10:13

    A cabeça da segunda pessoa é muito estranha.

    • Alan Souza

      3 de abril de 2019 em 11:16

      Está retocada a mão. Isso era muito comum em fotos antigas, quando alguma parte da fotografia estava borrada ou gasta.

  2. Martinho Lutero

    11 de abril de 2019 em 9:14

    Parabéns pela pesquisa.

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