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Cientistas descobriram “chifres” em crânios de jovens devido ao mau uso do celular?

Indeterminado

Cientistas descobriram “chifres” em crânios de jovens devido ao mau uso do celular?

Cientistas descobriram “chifres” em crânios de jovens devido ao mau uso do celular?

Você já se deparou com alguma notícia dizendo que o uso dos celulares está mudando o formato do crânio humano? Parece alarmante, não é mesmo? Porém, você não está sozinho nisso, visto que essa informação vem sendo disseminada pelo mundo inteiro!

Sites de notícias internacionais importantes, assim como o do jornal “The Washington Post“, da revista “Newsweek“, e da emissora norte-americana “NBC“, estão entre aqueles que divulgaram massivamente essa história. Aqui no Brasil, é claro, não foi diferente.

Trecho do artigo publicado no dia 20 de junho pelo site do jornal “The Washington Post”.

Aqui no Brasil Não Foi Diferente

No dia 20 de junho de 2019, o site “Olhar Digital” publicou que os jovens estavam desenvolvendo chifres na parte de trás de suas cabeças devido à postura incorreta. As causas estavam sendo atribuídas ao uso de dispositivos portáteis. Segundo o site, quando usamos um aparelho qualquer, é normal que nosso pescoço fique curvado. Logo, esse desvio de postura poderia causar um crescimento ósseo e de tendões na parte de trás do pescoço. Assim sendo, um gancho ou uma ponta semelhante a um chifre estaria crescendo e saindo do crânio de várias pessoas. Sim, foi exatamente isso que eles escreveram.

Ah, o texto foi baseado no artigo publicado pelo “The Washington Post“, mas as informações não foram checadas. Foi basicamente uma tradução e adaptação do artigo original, e mais nada. Nenhuma consulta com especialistas, nenhuma opinião de terceiros, nada. Na mente de algumas pessoas, jornais como “The Washington Post” jamais publicariam algo errado.

Trecho do artigo publicado no dia 20 de junho pelo site “Olhar Digital”.

No dia seguinte…

No dia seguinte (21), o site da revista “Exame” forneceu mais alguns detalhes. Foi mencionado que um estudo, publicado pelo periódico “Scientific Reports“, indicava que o uso excessivo de smartphones e outros aparelhos, que forçavam a cabeça a ficar inclinada para frente, podia estar modificando o corpo humano. Contudo, não foi fornecido nenhum link para o estudo mencionado.

De qualquer forma, segundo cientistas da Universidade da Costa do Sol, na Austrália, essa seria a razão pela qual diversas pessoas mais novas possuíam uma pequena cauda óssea (sim, cauda óssea) na parte de trás da cabeça. Exatamente na intersecção entre a espinha dorsal e o crânio.

Trecho do artigo publicado no dia 21 de junho pelo site da revista “Exame”.

Diante de tantas fontes consideradas confiáveis por muitas pessoas, como não acreditar? Entretanto, será que isso realmente procede? O uso de celulares está mesmo mudando o formato do crânio humano? Será que os sites de notícias contaram toda a verdade para vocês? O que será que tem de verdadeiro ou falso nessa história? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Não há nenhuma evidência concreta que usar um celular irá fazer crescer um “chifre” na sua cabeça! Se você ouviu falar sobre isso e acreditou, saiba que você foi, em princípio, enganado(a). Os estudos citados são extremamente questionáveis e limitados, possuindo graves falhas metodológicas. Como se isso não bastasse, há um forte indício de conflito de interesses por parte de um dos autores dos estudos.

Não há nenhuma evidência concreta que usar um celular irá fazer crescer um “chifre” na sua cabeça!

Infelizmente, quem repassou essa história como verdadeira sequer deu ao trabalho de pesquisar sobre o assunto. Aliás, sequer leu o conteúdo dos estudos. Aqueles que têm a missão de informar, ao repassar uma informação falsa ou afirmar algo, que sequer foi provado, não são vítimas. São cúmplices de um erro que jamais deveria ser cometido por ninguém nessa posição.

Enfim, vamos começar a explicar direitinho essa história para vocês.

Como Tudo Isso Começou?

Toda essa confusão começou com um artigo da “BBC Future” intitulado “How modern life is transforming the human skeleton. Publicado em 13 de junho de 2019, o artigo demonstrava a maneira pela qual a vida moderna estava transformando o esqueleto humano. No texto era mencionado que nossos esqueletos são extremamente maleáveis. E, embora o esqueleto de cada pessoa se desenvolva de acordo com um modelo definido em seu DNA, ele é adaptado para acomodar as tensões únicas de sua vida.

Trecho do artigo publicado no dia 13 de junho no site da “BBC”.

Alguns exemplos disso foram citados: a descoberta de algo pontudo crescendo na parte de trás do crânio de algumas pessoas, a percepção que nossas mandíbulas estão diminuindo e que os jovens alemães atualmente têm cotovelos mais estreitos do que seus antepassados. O artigo citou exemplos do passado e questionou se poderíamos descobrir mudanças esqueléticas, que refletissem a vida moderna. Para isso foi feita uma entrevista com o “cientista” David Shahar, da Universidade da Costa do Sol.

Os Achismos de David Shahar

David alegou que era “médico” há 20 anos, e que via cada vez mais pacientes com uma “ponta” na parte inferior na nuca. No entanto, essa ponta tinha nome: protuberância occipital externa. Além disso, isso já vinha sendo observado desde 1885, ou seja, não era nenhuma novidade no campo da Medicina. Por outro lado, a ocorrência dessa protuberância foi citada como rara.

De qualquer forma, David Shahar e um colega resolveram “investigar” o assunto. Eles teriam analisado mais de mil radiografias de crânios de pessoas entre 18 e 86 anos de idade. Eles mediram as protuberâncias e observaram a postura de cada participante. Então, “descobriram” algo impressionante: a protuberância era mais comum na faixa etária mais jovem. Uma em cada quatro pessoas, entre 18 e 30 anos, apresentava esse crescimento ósseo.

Segundo David, uma em cada quatro pessoas, entre 18 e 30 anos, apresentava esse crescimento ósseo.

E por qual motivo isso acontecia? David achava que isso era devido a tecnologia moderna. Devido a obsessão por smartphones e tablets. Uma vez que uma cabeça pesa, em média, 4,5 kg, ele achava que essas protuberâncias se formavam, porque a postura curvada criava uma pressão extra no local onde os músculos do pescoço se fixam ao crânio – e o corpo responde colocando novas camadas ósseas. Estas camadas ajudavam o crânio a lidar com o estresse extra, espalhando o peso sobre uma área maior.

Somente achismos, nenhuma comprovação.

Tinha que ser Relacionado aos Celulares? E a Leitura de Livros?

Por que isso não poderia estar atrelado a leitura de livros? Segundo David Shahar, em 1973, o tempo médio de leitura de um norte-americano era de duas horas. Atualmente, as pessoas passavam o dobro desse tempo na frente de um celular. Assim sendo, a causa provável seria o uso dos celulares.

Entretanto, ele não se preocupou em citar qualquer outra população do planeta, apenas os norte-americanos. Além disso, ele ignorou quaisquer outras tarefas, tais como: cozinhar, jogar jogos de mesa ou a realização de trabalhos manuais. Há muitas outras tarefas, que exigem que fiquemos com nossos pescoços curvados.

Segundo David Shahar, em 1973, o tempo média de leitura de um norte-americano era de duas horas. Atualmente, as pessoas passavam o dobro desse tempo na frente de um celular. Assim sendo, a causa provável seria o uso dos celulares.

A Nota Publicada pela Universidade da Costa do Sol (USC)

No dia 17 de junho de 2019, a Universidade da Costa do Sol (USC) publicou uma espécie de nota de imprensa sobre esse assunto. É muito importante que vocês prestem atenção no que foi mencionado nessa nota, combinado? É muito importante mesmo, porque será fundamental para uma compreensão mais ampla desse caso.

O Que Diz a Nota?

Segundo a nota, o estudo citado pela BBC tinha sido publicado no periódico “Journal of Anatomy“, em 2016. A autoria seria do Dr. David Shahar e de um professor associado chamado Mark Sayers, ambos da universidade australiana. O estudo envolveu 218 radiografias de pessoas com idade entre 18 e 30 anos da região da Costa do Sol, na Austrália. Foi descoberto que 41% dessas pessoas tinham desenvolvido um nódulo ósseo* de 10 a 30 mm na parte de trás do crânio.

*Repararam que a cada hora eles chamam o tal “chifre” de um nome diferente? Incrivelmente, novos nomes continuarão surgindo ao longo deste artigo.

Trecho do artigo publicado no dia 17 de junho pelo site da USC.

O Dr. Shahar, que estava completando seu doutorado na USC, na época do estudo, disse que grandes crescimentos ósseos já tinham sido exclusivos de pacientes mais idosos, pois eram o resultado de uma carga de longo prazo no esqueleto. Por isso ele ficou surpreso ao descobrir muitos desses crescimentos em pessoas mais jovens.

Esta é uma evidência de que os processos degenerativos musculoesqueléticos podem iniciar e progredir silenciosamente desde cedo. Essas descobertas foram surpreendentes, porque normalmente levam anos para se desenvolver e são mais propensas a serem vistas na população mais idosa. É importante entender que, na maioria dos casos, os esporões ósseos medem poucos milímetros, embora tenhamos encontrado protuberâncias de 10 a 30 milímetros na população jovem estudada“, disse Shahar.

Outros testes, incluindo exames de ressonância magnética e exames de sangue, descartaram a possibilidade de que os crescimentos fossem o resultado de fatores genéticos ou inflamações.

A Hipótese de David Shahar

David Shahar disse que as descobertas ofereciam um alerta sobre “o desenvolvimento precoce e silencioso dos ossos e dos danos nas articulações devido à má postura“. Ele também destacou a necessidade de prevenção através da mudança na própria postura das pessoas.

Nossa hipótese é que o aumento da carga nessa fixação muscular é devido ao peso da cabeça, que se desloca para a frente com o uso de tecnologias modernas por longos períodos de tempo. Inclinar a cabeça para a frente resulta na transferência do peso da cabeça, dos ossos da coluna, para os músculos na parte de trás do pescoço e da cabeça“, completou.

Os dois principais autores dos estudos pertencem a Universidade da Costa do Sol, na Austrália.

Um Simples Travesseiro Resolveria?

O professor associado Mark Sayers, que era o supervisor do estudo de David Shahar, disse que os dois ainda estão colaborando em pesquisas com planos de desenvolver mecanismos para ajudar a evitar o problema, particularmente em crianças em idade escolar. Para isso bastaria balancear o uso do telefone celular com a recalibração da postura corporal, usando travesseiros com contornos especiais (guardem essa informação) ou fazer exercícios que envolvam o erguimento da parte superior do tórax.

Ainda segundo a nota, “um estudo mais aprofundado” do Dr. David Shahar e do professor associado Mark Sayers publicado no periódico “Scientific Reports”, em 2018, mostrou que os crescimentos ósseos nos crânios eram maiores e mais comuns em adultos jovens do que na população mais idosa.

Os Evidentes Problemas de Toda Essa História

Diante dessas informações, vocês podem claramente notar que, no melhor cenário possível, a relação entre o uso de celulares e as tais protuberâncias não passa de uma hipótese. Diga-se de passagem, essa hipótese não foi provada em nenhum estudo divulgado até o presente momento. Logo, afirmar que a causa está na má postura durante o uso de um celular é incorreto.

Entretanto, a razão de escrevermos sobre esse assunto vai muito além de uma afirmação incorreta. Existem outros detalhes muito mais escabrosos sobre os estudos realizados e sobre um dos autores dos estudos. É exatamente isso que iremos conferir a seguir!

Os Estudos Realizados e a Falta de Critério e Assertividade dos Pesquisadores

O estudo publicado no “Journal of Anatomy“, em março de 2016, disse basicamente que tais protuberâncias pareciam maiores para certas amostras de pessoas mais jovens (entre 18 a 30 anos de idade). Um outro estudo envolvendo os dois pesquisadores australianos, publicado em março de 2018, no periódico “Clinical Biomechanics“, estudou apenas quatro adolescentes com tais protuberâncias! Sim, apenas quatro indivíduos no mundo! Foi observado que “influências mecânicas“, tal como o estresse nas articulações, “eram uma potencial causa para esse fenômeno na amostra“. Observem bem: “potencial causa”. Porém, o estudo não foi capaz de provar isso.

Já um terceiro estudo, publicado no periódico “Scientific Reports“, em fevereiro de 2018, comparou apenas o tamanho da protuberância para estudar a idade, o sexo e o quão distante a cabeça dos participantes estava em relação a coluna vertebral. Resumindo? A realidade por trás dos estudos foi simplesmente omitida nos sites de notícias e na nota divulgada pela Universidade da Costa do Sol. Eles comprovam muito menos do que foi amplamente divulgado pela imprensa!

Os três estudos citados amplamente pela imprensa.

Esse terceiro estudo, inclusive, recebeu duras críticas por parte do paleoantropólogo John Hawks, da Universidade de Wisconsin-Madison. Numa postagem realizada por ele, no blog “Elemental”, da plataforma “Medium”, no dia 24 de junho, John concluiu:

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“Chifres crescendo nos crânios dos jovens?É uma manchete atraente, mas não é a verdade”

Uma Série de Erros Apontados por John Hawks

Segundo John Hawks, essa ideia podia até provocar um “pânico moral” sobre os efeitos do uso de celulares em seres humanos, mas nada sustentava isso. Além disso, ele apontou diversos erros que prejudicavam a credibilidade, principalmente, do terceiro estudo. O mais grave deles era um gráfico que não era compatível com o que estava escrito no texto!

Os autores observaram que os homens eram 5,48 vezes mais propensos do que as mulheres a ter uma protuberância occipital externa (EOP) aumentada, porém incluíram um gráfico que parecia mostrar pessoas mais jovens, entre 18 e 29 anos, com uma prevalência muito maior de EOP aumentada do que pessoas com idades entre 30 e 50 anos. O gráfico não correspondia à constatação de que os homens eram mais de cinco vezes mais propensos do que as mulheres a ter uma EOP aumentada. Em vez disso, mostrava ambos os sexos com frequências muito altas e semelhantes!

Não faz nenhum sentido diante do que foi publicado!

O gráfico contradizia as informações publicadas no texto do artigo.

Hawks também questionou se muitas das radiografias realmente mostravam uma área aumentada ou eram ilusões criadas pelo ângulo em que foram tiradas. Em termos gerais, isso significa que, aquilo que os autores do estudo estão vendo, pode não ter nada a ver com o que um antropólogo veria em um osso. Pode ser apenas uma ilusão!

Os Questionamentos Levantados Pelo Site do Jornal “The New York Times”

No dia 20 de junho, um texto publicado no site do jornal “The New York Times ressaltou que os dados do terceiro estudo vieram de pessoas que já estavam tanta dor, que resolveram visitar um quiroprático (guardem essa informação), ou seja, essa seria uma razão para o alto número de pessoas que apresentaram tais protuberâncias na amostragem. Não se sabe, por exemplo, quais seriam os resultados entre a população que não apresenta dor alguma.

E, ainda que os estudos encontrassem algum tipo de correlação entre os celulares e esses tais crescimentos ósseos, outros ainda precisariam replicar esses resultados para confirmar o que foi observado. Algo cientificamente básico. Porém, novamente, isso ainda não aconteceu.

O “The New York Times” também apontou que o estudo não tinha um grupo de controle e, portanto, não tinha como mostrar a relação entre causa e efeito.

O “The New York Times” também apontou que o estudo não tinha um grupo de controle. Portanto, não tinha como mostrar a relação entre causa e efeito.

O Dr. Evan Johnson, professor assistente e diretor de Fisioterapia do Hospital Och Spine, de Nova York, foi consultado.

Segundo ele, seria mais preocupante se o uso do celular fosse responsável por mudanças generalizadas na postura, que pudessem resultar em problemas musculoesqueléticos a longo prazo.

O Dr. David J. Langer, responsável pelo Departamento de Neurocirurgia do Hospital Lenox Hill, em Nova York, também foi consultado.

Ele disse que doenças comuns entre os cirurgiões, cujas profissões exigem que eles passem muito tempo olhando para baixo, incluíam doença degenerativa do disco e desalinhamento do pescoço, mas não o crescimento de “chifres” na cabeça.

A Declaração da Cientista Forense Nivien Speith

Nivien Speith, uma cientista forense da Universidade de Derby, no Reino Unido, disse à revista Forbes que viu “muitas” dessas protuberância nos primeiros crânios medievais, especialmente dos homens.

Pode ser genético ou até mesmo um simples crescimento ósseo de etiologia desconhecida. Muitas vezes, podem ocorrer devido a traumas locais“, disse Nivien.

As Duras Críticas do Médico e Divulgador Científico Espanhol Ignacio Crespo

Um médico e divulgador científico espanhol chamado Ignacio Crespo fez duras críticas, em seu perfil no Twitter, sobre aquilo que ele chamou de “péssimo jornalismo científico”. Ele disse tal situação se tratava de um problema generalizado e que as notícias científicas, seja por falta de tempo, treinamento ou sensacionalismo, tinham virado um verdadeiro absurdo. Ignacio disse que a protuberância occipital externa era algo comum em nossa espécie. Não era bem uma novidade.

O médico e divulgador científico Ignacio Crespo.

A Protuberância Não é um Sinal da Evolução Humana!

Ele também questionou a mistura que alguns sites fizeram ao associar essa protuberância a Teoria da Evolução, visto que a complexidade da teoria é enorme, mas todos acreditam que entendem por intuição.

Sabemos que nossa fisiologia pode se adaptar a algumas mudanças nas condições do nosso meio ambiente. Nós regulamos a temperatura, pressão arterial etc.. Porém, isso não seria bem uma evolução. Como exemplo, os pescoços das girafas não se alongaram durante suas vidas. Aquelas com os pescoços mais longos é que foram selecionadas, geração após geração. Da mesma forma, essa protuberância não é uma adaptação!

Essa protuberância não cumpre a função de atuar como contrapeso, por exemplo. Acontece simplesmente pela estimulação da tração nos osteoblastos, células formadoras de ossos. Segundo Ignacio Crespo, a protuberância por tração mais frequente no ser humano é tuberosidade tibial, típica de crianças muito atléticas.

Segundo Ignacio Crespo, a protuberância por tração mais frequente no ser humano é tuberosidade tibial, típica de crianças muito atléticas.

Procurados para comentar sobre as duras críticas feitas em relação aos estudos, David Shahar e Mike Sayers disseram que nunca estabeleceram relações diretas entre as protuberâncias e o uso de celulares. Em vez disso, eles disseram atribuir o fenômeno à má postura, que é frequentemente associada à tecnologia móvel.

De qualquer forma, não foi bem isso que David disse para a BBC, lembram? Enfim.

Quem é David Shahar? Um Conflito de Interesses que Pode Comprometer Totalmente os Estudos Realizados!

Lembram que eu pedi para que guardassem alguns pontos ao longo deste artigo? Pedi para que prestassem atenção em pacientes procurando a ajuda de um quiroprático, e que a solução poderia estar num “travesseiro especial”. Pois bem, se normalmente julgamos sites por serem ou não confiáveis, porque não ir atrás dos interesses de quem publica artigos científicos? A credibilidade dos autores de artigos, matérias ou notícias, importa, e muito!

David Shahar, o Quiroprático

O Dr. David Shahar não é apenas um pesquisador da Universidade da Costa do Sol. Ele é um quiroprático e possui uma clínica chamada “Living Well Chiropratic. Nada contra quiropráticos, mas se trata de medicina alternativa. Os fundamentos desta prática contradizem os fundamentos da própria Medicina e têm por base conceitos pseudocientíficos.

David Shahar é quiroprático e possui uma clínica chamada “Living Well Chiropratic”, na Costa do Sol, na Austrália

A Loja Virtual de David Shahar

E, agora, vem a melhor parte, visto que ele é dono de uma loja virtual chamada “Dr. Posture” (“Dr. Postura”, em português), que anuncia informações e produtos relacionados à postura corporal. Aliás, ele se autointitula como “Dr. Postura”, em sua conta no Twitter.

Em uma das seções do site é dito aos usuários como “parecer e se sentir melhor em três simples etapas“, que incluem assistir a um vídeo de David, baixar exercícios em casa, e dormir com um “travesseiro torácico”, patenteado pelo próprio David! Aliás, até um tempo atrás, ele vendia o travesseiro por AU$ 195 (cerca de R$ 520 pela cotação atual).

O travesseiro torácico que era vendido pelo Dr. David Shahar.

Qual a implicação disso? Bem, a maioria das publicações científicas exige que os pesquisadores divulguem eventuais conflitos financeiros. A “Scientific Reports“, o periódico revisado por pares e de acesso aberto, onde o trabalho de Shahar foi publicado, não é uma exceção. Sua política exige que os autores relatem qualquer coisa que possa “minar diretamente, ou ser percebida como prejudicial, a objetividade, integridade e valor de uma publicação”.

Sem Interesses Conflitantes?

O quiroprático Dr. David Shahar.

David Shahar, no entanto, ao publicar tais estudos declarou que não havia conflito de interesses. Ele disse que não se envolveu na venda do produto por alguns anos, durante o período em que publicou tais estudos. Por outro lado, apesar de ele ter sustentado que não havia conflito, ele desenvolveu uma teoria mais ampla sobre a necessidade de melhorar a postura corporal, o que poderia implicar diretamente na utilização de seu produto ou de algum outro que venha a patentear  e vender por preços astronômicos no futuro.

Isso conflita diretamente com o fato de ser um quiroprático e vender produtos para, teoricamente, melhorar a postura das pessoas. Seria o mesmo que dizer que o mundo vai acabar, e ao mesmo tempo lucrar com a venda de kits de sobrevivência. Entendem? Quem está vendendo sabe que o mundo não vai acabar, quem compra não.

Curiosamente, num outro estudo publicado neste ano, praticamente avaliando a eficácia do seu próprio travesseiro torácico, David Shahar revelou um possível conflito. O artigo, que aparece no periódico “Spine Journal“, revisado por pares, afirma claramente que o autor é o desenvolvedor do travesseiro. Enfim.

A “Scientific Reports” também foi consultada para comentar sobre o assunto. Porém, o porta-voz do periódico se limitou a dizer que eles estavam “investigando problemas” em relação ao artigo, e “tomariam as medidas cabíveis, quando e onde fossem necessárias”.

A Tentativa de Apagar um Incêndio

Depois de toda essa chuva de questionamentos, o “The Washington Post” atualizou seu artigo e meio que tentou se defender das críticas em relação ao artigo originalmente publicado. Disseram, por exemplo, que a palavra “chifre” teria sido tão somente uma “analogia” mencionada por David Shahar devido ao formato da protuberância. Porém, ficou bem evidente a tentativa de apagar o incêndio, que eles mesmos causaram. Eles publicaram afirmações sem a devida verificação dos fatos. Aliás, na atualização foram publicadas mais declarações do co-autor do estudo, Mark Sayers, tentando defender o colega, do que do próprio David Shahar.

Enfim, para completar, é bom deixar claro que laços comerciais não enviesam automaticamente as conclusões de um pesquisador. Entretanto, devem sempre servir de alerta para os usuários de tecnologia, que tentam tomar decisões saudáveis em um mundo propenso a um “pânico postural extremamente lucrativo”. Afinal de contas, quantos produtos que prometem ser “ergonômicos” existem no mercado? Quantos prometem livrar você de dores no pescoço ou nas mãos? Todos realmente funcionam? Todos foram baseados em estudos científicos? Quais os interesses por trás daqueles que usam jalecos brancos, belos contadores de histórias, e dizem que vocês devem comprar determinados produtos? Complicado!

Aliás, ninguém está dizendo que é saudável usar um celular por horas! É inquestionável que a maneira como nos debruçamos sobre nossos telefones, laptops e outras tecnologias, por horas a fio, está afetando nossa postura e a saúde da nossa coluna vertebral. Porém, toda essa história relacionada ao “crescimento de chifres” merece, no mínimo, uma boa reflexão, não acham?

Conclusão

Não há nenhuma evidência concreta, que usar um celular irá fazer crescer um “chifre” na sua cabeça! Se você ouviu falar sobre isso e acreditou, saiba que você foi, em princípio, enganado(a). Os estudos citados são extremamente questionáveis, limitados, possuem falhas metodológicas e, para piorar, há um forte indício de conflito de interesses por parte do Dr. David Shahar, um dos autores dos estudos. O que foi divulgado até o presente momento não passa de um mero frenesi midiático. Uma verdadeira afronta não somente aos leitores, mas a Ciência de um modo geral. Dizer que “chifre” é analogia é apenas uma forma de encobrir o sensacionalismo.

Na verdade, o Dr. David Shahar não passa de um quiroprático. Nada contra quiropráticos, mas se trata de medicina alternativa. Os fundamentos desta prática contradizem os fundamentos da própria medicina e têm por base conceitos pseudocientíficos. Além disso, David é dono de uma loja virtual que, até alguns anos atrás, vendia um certo “travesseiro torácico”, patenteado por ele. Nos estudos referentes ao suposto “chifre”, ele alegou não possuir nenhum conflito de interesses. Porém, num outro estudo publicado recentemente, com referência a eficácia do próprio travesseiro, ele apareceu como seu desenvolvedor, ou seja, ele ainda mantém vínculos comerciais em relação ao produto.

Embora não haja motivo algum, neste momento, para preocupação, é importante que novos estudos sejam realizados, de forma mais ampla, imparcial, e criteriosa. Assim sendo, por se tratar meramente de uma hipótese, iremos classificar esse caso provisoriamente como “indeterminado” em vez de “falso”.

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15 Comentários

15 Comments

  1. Doutor Cicolo

    26 de junho de 2019 em 19:26

    “mas se trata de medicina alternativa.”
    Pois é. Se medicina alternativa funcionasse, seria chamada apenas de “medicina”

  2. cassio

    26 de junho de 2019 em 19:53

    Parabens por toda a materia.

  3. Maria

    26 de junho de 2019 em 21:26

    @Marco Faustino, belíssima matéria! Eu estou cansada de ver essas “pesquisas” nos noticiários tradicionais, é muito comum. Eles publicam “pesquisas” feitas por “universitários” de até Universidades renomadas, mostrando coisas do tipo: cientistas/pesquisadores provam que A ÁGUA É MOLHADA PORQUE BANANA NÃO TEM CAROÇO. “Pesquisas” essas que são MEDÍOCRES, tem ESPAÇO AMOSTRAL muito pequeno, não tem CORRELAÇÃO causa-efeito comprovada, não é replicável etc, dignas de serem indicadas e/ou fazerem parte do prêmio IGNobel. Acredito que isso é consequência daquela famosa praga obrigatória do “PUBLIQUE OU PEREÇA” das Universidades. Aqui no Brasil, recentemente tivemos o caso da FOSFOETALONAMINA e/ou PÍLULA DO CÂNCER no qual os pesquisadores (ir)responsáveis envolvidos afirmavam que curava TODOS OS TIPOS de Cancêr. Lamentável e uma vergonha para a reputação da Ciência brasileira. :/

    • Marco Faustino

      27 de junho de 2019 em 8:14

      Olá Maria! Fico feliz que tenha gostado! Pois é, tem muito artigo pseudocientífico sendo mencionado como científico na imprensa. Uma situação bem lamentável, que só chegou a esse ponto, porque os divulgadores científicos não fazem a parte que lhes cabem. Deveriam ajudar a combater tais fraudes e peças mal escritas ou que não provam absolutamente nada, porém causam um imenso alarde.

  4. aus rosa

    27 de junho de 2019 em 1:34

    BOM , DE CERTA FORMA , FICA UM RECADO , USO EXCESSIVO DE CELULAR ,PODE NASCER !!!! CHIFRE !!!! SIM , UM NAO , VARIOS . ENQUANTO VÇ ESTA CONECTADA (O) NO CELULAR , SEU COMPANHEIRO (A) , PODERA ESTAR DE OLHO EM OUTRA (O) , E VÇ NEM VAI PERCEBER , O OLHAR NAO SAI DA TELA , DIRIGIR, COM A MULHER NO ASSENTO DO CARONA,PODE PAQUERAR A VONTADE , ELA NEM VAI PERCEBER , PORQUE ESTA CONECTADA NO CELULAR , E OU VICE – VERSA , BEM , ISSO E APENAS !!!! UMmmmmmm !!!! EXEMPLO . ENTAO , USO EXCESSIVO DE CELULAR , E !!!! CHIFRE , NA CERTA !!!! .

  5. Helena Heleno

    27 de junho de 2019 em 9:04

    Linda matéria. Muito bem escrita. Confesso que fui uma das pessoas que acreditou no artigo, embora pensei que estava um tanto sensacionalista e que faltava mencionar algumas possibilidades tal como a postura da cabeça quando se lê um livro.
    Gostaria de ressaltar ainda a qualidade da pesquisa envolvida para a produção desse artigo, estou maravilhada com o esmero na investigação das fontes. Isso sim é checagem de fatos!
    Parabéns pela publicação.

    • Marco Faustino

      27 de junho de 2019 em 11:13

      Muito obrigado pelas palavras, Helena! Fico muito feliz em poder colaborar em relação a esse assunto! 🙂

  6. Gabriel

    28 de junho de 2019 em 8:37

    Não é razoável, descredibilizar um profissional, ou uma idéia através de uma pesquisa de internet, ciência é algo muito maior que isto, mas assim como a reportagem citada o e-farsas também quer seus “likes” com sensacionalismo e raciocínios superficiais, o que não é nenhuma novidade!

  7. Gabriel

    16 de julho de 2019 em 14:20

    Marcos, ciência é aprofundar conhecimentos, observar padrões, sistematizar métodos avaliativos e de intervenção, etc, e isto a quiropraxia faz, não sou quiroprático, sou terapeuta manual e utilizo de diversos métodos incluindo a quiropraxia, mas utilizo muito mais a osteopatia, que acredito ser um método mais completo, mais aprofundado e com mais ciência, mas isto nem de longe, quer dizer que a quiropraxia não tem ciência. Ciência não se mede apenas por conflitos de interesse, se o cara trabalhar com o corpo humana e seus desarranjos, se ele for criar alguma coisa o que será?, carrinho de pipoca é que não vai ser, o mais óbvio é que ele desenvolva algo em sua área de atuação. E desenvolver algo novo significa pensar algo que ainda não foi pensado, fora do padrão, o que muitas vezes é visto com rejeição ou no mínimo desconfiança. E no final aquilo que foi desenvolvido pode funcionar ou não e mesmo que não funcione ou que não seja melhor que as solução pré existentes, ainda assim necessitou de muita ciência para ser desenvolvida, E alguém se dedicar a estudar, a desenvolver algo novo, com certeza tem algum interesse pessoal nisto seja por prestigio profissional ou monetário, o que não significa que é um charlatão. A Um grande problema nas ciências da saúde é que muitas vezes os cientistas não tem pratica clinica e os que tem pratica clinica não desenvolvem a ciência.

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