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Baderneiros petistas atearam fogo em aldeia indígena na Amazônia?

Fora de Contexto

Baderneiros petistas atearam fogo em aldeia indígena na Amazônia?

Baderneiros petistas atearam fogo em aldeia indígena na Amazônia?

Nos últimos dias, o vídeo de uma índia mostrando uma área de reserva ambiental ardendo em chamas viralizou nas redes sociais. Naturalmente, diante da situação, ela estava muito exaltada, segurando o choro e muito nervosa.

Eis o que ela dizia:

Olha o que eles fizeram com a nossa reserva. Dois anos que a gente estava lutando para preservar isso aqui, e agora vem uns baderneiros atear fogo na nossa aldeia. Se não bastasse a Vale matar nosso rio… matar nossa fonte de vida, agora viraram e puseram fogo na nossa reserva. Nós não vamos nos calar. Amanhã nós vamos fechar a pista e queremos a mídia aqui para nos defender

Confira o vídeo abaixo:

A Viralização do Vídeo no Exterior

Um usuário holandês no Twitter, chamado Alexander Verbeek, publicou esse mesmo vídeo que já foi visto cerca de 9 milhões de vezes! Sua conta possui o famoso selo de verificação azul, que é geralmente destinado a contas de interesse público. Isso porque Alexander é ex-diplomata e ex-consultor de Política Estratégica sobre Questões Globais do Ministério das Relações Exteriores da Holanda. Atualmente, Alexander possui mais de 200 mil seguidores somente no Twitter.

Formado em Yale, ele alega que seu trabalho é colaborar com governos, empresas e agências da sociedade civil para criar soluções para os desafios ambientais, de recursos e demográficos do século XXI. Confira seu tuíte abaixo:

Seu tuíte utilizou a hashtag “AmazonFires” para indicar que o vídeo seria referente as queimadas na Amazônia.

A Viralização do Vídeo no Brasil

Entretanto, aqui no Brasil, a disseminação do vídeo ganhou contornos políticos. Muitos usuários o divulgaram como “uma espécie de prova em relação as suspeitas do presidente Jair Bolsonaro de que ONGs estariam provocando as queimadas na Amazônia”. Vale lembrar nesse ponto, que Jair Bolsonaro não forneceu nenhuma prova que isso estivesse acontecendo. No entanto, outros foram mais além. Houve até quem dissesse que o fogo se tratava da ação de “baderneiros petistas”.

Confira algumas publicações realizadas no Facebook nesse sentido:

Entretanto, será que o vídeo mostra uma área de reserva ambiental ardendo em chamas, na Amazônia? O vídeo serve como prova de que ONGs ou baderneiros petistas estão provocando as queimadas no Brasil? Qual a realidade por trás desse vídeo? Descubra agora, aqui, no E-Farsas!

Verdadeiro ou Falso?

Fora de contexto! O vídeo não mostra uma área de reserva ambiental queimando na Amazônia, tampouco foi gravado neste mês de agosto de 2019. Além disso, o vídeo, isoladamente, não prova que houve a ação de ONGs ou indivíduos pertencentes a quaisquer partidos políticos na ação.

Quando e Onde o Vídeo Foi Gravado?

O vídeo foi gravado no dia 6 de julho de 2019 na aldeia indígena Naô Xohã, da etnia Pataxó hã-hã-hãe, que fica localizada numa reserva ambiental às margens do rio Paraopeba, em São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais! Portanto, estamos falando de uma área de Mata Atlântica, não da Amazônia.

Quem é a Mulher que Aparece no Vídeo?

A mulher que aparece no vídeo é Celia Ãngohó, porta-voz e esposa do cacique da aldeia. Ao “Projeto Comprova” (uma coalização formada por 24 veículos de mídia para combater a desinformação), ela confirmou, por telefone, que é a mesma mulher que aparece no vídeo que viralizou recentemente. Celia também chegou a lamentar que a recente viralização não tivesse dado voz a ela e sua aldeia.

A origem e a data do vídeo foram também confirmadas pela Procuradoria da República em Minas Gerais.

Celia Ãngohó, porta-voz e esposa do cacique da aldeia.

Ao “Comprova”, Celia Ãngohó não mencionou ONGs e afirmou que não sabia quem havia causado o incêndio na área da aldeia onde vive, ainda que acreditasse que o fogo tivesse origem criminosa. Isso porque, ela alegou que havia sido encontrada uma garrafa plástica com cheiro de combustível no local horas após o Corpo de Bombeiros ter controlado o fogo.

Essa parte da garrafa plástica é interessante, visto que, segundo a Record TV Minas, a declaração teria partido de Celia Ãngohó e de moradores da aldeia, não do Corpo de Bombeiros. Outro detalhe, não menos importante, é que felizmente o fogo não atingiu as casas dos moradores da aldeia. Ninguém ficou ferido.

Confira uma reportagem abaixo, publicada pelo canal “Balanço Geral MG”, no YouTube:

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De qualquer forma, para ela o incêndio teria sido provocado com o objetivo de expulsar os indígenas do local. A terra onde vive não é demarcada, e por isso, ainda segundo ela, a comunidade enfrentaria constantes conflitos pelo território.

Envolvimento com o MST

Essa questão sobre a localização da aldeia ficou bem explícita numa matéria do Portal G1, em janeiro deste ano. Na época, foi mencionado que 18 famílias viviam na aldeia e tinham sido prejudicadas pelo rompimento da barragem em Brumadinho. A aldeia ficava a apenas 22 km de distância da barragem. A lama de rejeitos desceu pelo rio Paraopeba e alcançou a aldeia no dia 26 de janeiro. A aldeia não tinha energia elétrica e a água utilizada era basicamente do rio.

O prejuízo para os índios ficou visível num artigo publicado na site do “El País”. Confira abaixo duas imagens daquela época:

Cerca de 18 famílias viviam na aldeia e tinham sido prejudicadas pelo rompimento da barragem em Brumadinho.

A lama de rejeitos desceu pelo rio Paraopeba e alcançou a aldeia no dia 26 de janeiro deste ano.

Os indígenas também contaram que estavam tendo confrontos com o entorno da aldeia, na Bahia. Então, eles conheceram integrantes do Movimento Sem Terra (MST), que os convidaram para se estabelecer em São Joaquim de Bicas, onde há um acampamento do movimento, chamado “Pátria Livre”.

Segundo o “Comprova”, a aldeia Naô Xohã fica em um imóvel da Companhia de Mineração Serra Azul (Comisa), subsidiária da Vale. De acordo com a Procuradoria da República de Minas Gerais, a área está em processo de regularização fundiária, e o poder público não produziu os relatórios de identificação e delimitação (necessários no processo de demarcação da terra, se ocorrer).

De qualquer forma, grosso modo, estamos falando de uma área, protegida como reserva ambiental, que foi ocupada. A caça, por exemplo, é proibida.

Há Quanto Tempo a Aldeia Ocupa o Local?

A ocupação indígena também não é recente, visto que as famílias estão no local há cerca de dois anos.

Quem Provocou o Incêndio?

De acordo com o “Comprova”, a Procuradoria da República de Minas Gerais disse por email, que o órgão foi informado de que indígenas pataxó e pataxó hã-hã-hãe relataram terem visto pessoas desconhecidas rondando a aldeia, efetuado disparos de arma de fogo e provocado um incêndio na mata. A Polícia Federal, por sua vez, afirmou que “efetuou diligências preliminares” no local, mas que não comenta investigações em curso. Um inquérito registrado como nº 818/2019 foi instaurado, mas o caso não foi concluído.

Confira abaixo um outro vídeo mostrando o incêndio:

 

Portanto, tudo o que temos até o presente momento são relatos. Estes, por sua vez são, essencialmente, evidências anedóticas. Sem uma investigação adequada e competente, não podemos acusar indevidamente ONGs, partidos políticos, movimentos sociais ou empresas. Por exemplo, se houve realmente disparos de arma de fogo, quem disparou pode não ter ateado fogo. E, se realmente o incêndio foi criminoso, os responsáveis podem ou não estar ligados a partidos políticos. Fazer acusações ou alegações baseadas em relatos é sempre complicado porque, em princípio, gera injustiças. Logo, é necessário cautela, aguardar que o inquérito seja concluído, e não sair acusando partido político A, B ou C.

Infelizmente,  no entanto, o que mais vemos são indivíduos de diferentes correntes politico-ideológicas se acusando mutuamente em relação a uma mesma situação. Simplesmente porque não ainda há respostas concretas e suficientemente claras para o que aconteceu. Como exemplo, no dia 8 de julho de 2019, o site “Diário Causa Operária” acusou, sem apresentar quaisquer provas, que bolsonaristas tinham colocado fogo nessa mesma aldeia.

O site “Diário Causa Operária” acusou, sem apresentar quaisquer provas, que bolsonaristas tinham colocado fogo nessa mesma aldeia.

Enfim, o incêndio da vida real se transforma rapidamente no incêndio da redes sociais.

Conclusão

O vídeo foi tirado de seu contexto original! Na verdade, o vídeo mostra uma parte da área ocupada por uma aldeia indígena chamada “Naô Xohã” ardendo em chamas, numa reserva ambiental localizada na cidade de São Joaquim das Bicas, no Estado de Minas Gerais. Trata-se de uma região de Mata Atlântica! O vídeo foi gravado em 6 de julho de 2019, muito antes da recente viralização e da declaração de Jair Bolsonaro de que ONGs estariam por trás das queimadas na região da Amazônia.

Embora haja a suspeita que o incêndio tenha sido criminoso, até o momento não há provas que ONGs, movimentos sociais, empresas ou indivíduos pertencentes a partidos políticos tenham ateado fogo na área ocupada pela aldeia indígena. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar o caso, mas até o momento as investigações seguem em andamento. Assim sendo, classificamos o caso, de maneira geral e preliminar, como “Fora de Contexto”.

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Jornalista e colaborador do site de verificação de fatos E-farsas entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. Entre junho de 2015 e abril de 2018, trabalhei como redator do blog AssombradO.com.br, além de roteirista do canal AssombradO, no YouTube, onde desmistificava todos os tipos de engodos pseudocientíficos e casos supostamente sobrenaturais.

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