Connect with us

E-farsas

É verdade que só 3 países usam urna eletrônica no mundo? Elas são seguras?

E-farsas TV

É verdade que só 3 países usam urna eletrônica no mundo? Elas são seguras?

É verdade que só 3 países usam urna eletrônica no mundo? Elas são seguras?

Texto afirma que fora o Brasil, somente a Cuba e a Venezuela usam a urna eletrônica em suas eleições! Será verdade? Elas são 100% seguras? Assista ao nosso vídeo e descubra!

O texto foi compartilhado nas redes sociais em junho de 2018 e de lá pra cá sempre volta a aparecer em alguma postagem. De acordo com a afirmação, de 193 países no mundo, os únicos que utilizam a urna eletrônica em suas eleições são o Brasil, a Cuba e a Venezuela.

Será que isso é verdade mesmo? A urna eletrônica só tão insegura que nenhum país quis adota-la?

Assista ao vídeo que preparamos para você e descubra a verdade sobre esse assunto:

Resumão do vídeo

Antes de responder a essa pergunta, é bom dar uma olhada em um artigo publicado aqui no E-farsas em 2014 sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas

A implantação do voto eletrônico no Brasil teve inicio em 1996 e de lá pra cá muito se questiona a respeito da segurança do sistema de votação brasileiro. O Tribunal Superior Eleitoral “coloca a sua mão no fogo” e apresenta as urnas eletrônicas como sendo o que há de mais moderno em tecnologia no mundo, com um sistema de apuração de votos 100% confiável.

No entanto, essa afirmação é falsa!

Mas calma!

O sistema eleitoral brasileiro não é 100% seguro porque não existe sistema 100% seguro! Mas isso não significa que o processo eleitoral brasileiro pode ser fraudado com facilidade.

Vamos analisar as etapas onde a urna poderia ser fraudada:

Um tempo antes das eleições, ocorre a Cerimônia de Assinatura Digital e Lacração dos Sistemas, que acontecem no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Nessa ocasião, as urnas são lacradas pelo TSE, juntamente com a Ordem dos Advogados do Brasil, com o Ministério Público e conta com a presença dos partidos políticos e coligações que se mostram interessadas em acompanhar o ato.

Como exemplo, a cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas ocorreu no dia 04 de setembro, quando os programas são compilados e gravados nas urnas.

Todo o processo é companhado de perto por muita gente e é aí que o bicho pega pra quem quiser fraudar as eleições nessa fase. A façanha teria que ser feita com o consentimento de muitos e em muitas urnas, ou não valeria a pena.

No dia da eleição, as urnas são ligadas pelos presidentes mesários, sempre na presença de um ou mais fiscais dos partidos políticos. Como mesário voluntário desde as primeiras eleições eletrônicas, o E-farsas acompanha tudo de pertinho.

Quando a urna é ligada no dia da eleição, o equipamento imprime um relatório chamado Zerésima, mostrando que não há nenhum voto gravado na memória da máquina. Nesse momento poderia haver uma fraude? Sim, alguém poderia trocar a urna por uma falsa!

Só que isso teria que ser feito com a ajuda dos mesários, fiscais de partido e também da Polícia Militar – que cuida da segurança do pleito!

Durante o treinamento para mesário, somos treinados para não permitir que nenhum eleitor permaneça mais do que alguns minutos dentro da cabine de votação.

O terminal que fica junto ao mesário avisa que o cidadão está demorando e os mesários tem que tentar ajuda-lo. Essa ajuda deve ser feira de longe, sem comprometer o sigilo do voto.

Nessa fase pode ocorrer alguma fraude? Sim! Mas isso teria que ser feito em poucos segundos e, novamente, com a ajuda dos mesários, fiscais de partido e da PM.

Final do dia, a urna deve ser encerrada

O presidente da mesa, juntamente com os demais mesários e fiscais de partido, imprimem um relatório em várias vias com o resultado dos votos daquela seção. São os Boletins de Urna. Nesse boletim temos o numero de pessoas que votaram naquela sala, e quantos votos cada candidato teve!

Um desses boletins é afixado na porta da sala e as vias são entregues ao pessoal do TRE (e também para os fiscais de partido, que estão sempre de olho em tudo para evitar alguma maracutaia).

Quem quiser conferir o resultado de todos os boletins de urna dessas eleições, o TSE disponibiliza esses arquivos em sua página!

Pode haver alguma fraude nesse momento? Não sei não, hein? O encerramento das urnas é acompanhado de perto por muita gente!

Ah! é bom lembrar que todos os boletins de urna tem um QRcode único, que pode ser acompanhado através de aplicativos como o Totalização Paralela das Eleições 2018.

Além da impressão dos boletins de urna, o presidente da mesa também é responsável pela retirada do pendrive que estava lacrado dentro da urna eletrônica. O dispositivo onde estão gravado os votos daquela seção é guardado dentro de um envelope lacrado e assinado por todos os mesários e também pelos fiscais de partidos. Tudo é enviado para o TRE em automóveis escoltados pela Polícia.

Como todo o processo é feito às claras e na presença de muitas pessoas, seria muito difícil ocorrer algum tipo de fraude nesse momento.

Os dados dos pendrives são enviados pela internet (através de conexões seguras) para os computadores do TSE, onde são descriptografados e apurados.

Alguns especialistas em segurança acreditam que durante o envio dessas informações podem ocorrer ataques, mas parece pouco provável que isso ocorra com sucesso. Pelo menos não há registros desse tipo de ataque.

Note que não estamos afirmando aqui que o processo eleitoral é perfeito e que não existam falhas. Há muitas denúncias de fraude nas eleições eletrônicas assim como também havia muitas denúncias de fraudes no tempo da votação de papel.

Pra quem não sabe, houve uma época em que a votação era feita em cédulas de papel e um voto em branco podia muito bem virar um voto válido para algum candidato, bastando algum fiscal fazer um risco no papel (dando um voto para o seu partido, é claro).

A fraude nas eleições começam bem antes, durante as campanhas eleitorais, com a compra de votos, sejam por coação, sejam por oferecimento de “presentinhos” para quem votar em determinado candidato…

Voltando as urnas, em 2012, surgiu uma notícia nas internet de que um hacker afirmou ter conseguido invadir os computadores do TRE no Rio de Janeiro e diz ter conseguido alterar os dados da votação. Para isso, o rapaz (que não tem nome) teria afirmado possuir acesso privilegiado à rede usada pelo TSE. Conforme apurado na ocasião, não há nenhuma prova de que isso tenha ocorrido de fato e uma investigação feita pela Polícia Federal também não resultou em nenhuma prisão (ineficácia da polícia ou o  tal “hacker” estava apenas “contando vantagem”?).

Na vida real, o então professor de Ciência da Computação da UNB, Diego Freitas Aranha, conseguiu quebrar em 2012 junto com a sua equipe a criptografia que protegia a ordem dos votos gravados na urna eletrônica durante um teste publico de segurança promovido pelo TSE.

Sabendo a ordem em que os votos foram gravados no banco de dados do equipamento, a equipe do professor Aranha conseguiu determinar quem votou em quem, quebrando assim o sigilo dos votos.

Na ocasião, o professor Diego Aranha explicou que a tarefa de violar completamente o sigilo do voto ainda estava incompleta, pois para se chegar aos nomes dos eleitores seria necessário acesso à lista externa de votação.

Então, para se conseguir quebrar essa criptografia (e quebrar o sigilo do voto), seria preciso:

  • Ter acesso físico à urna;
  • Ter acesso ao pendrive onde estão gravados os votos;
  • Ter um bom tempo para se quebrar as chaves eletrônicas de segurança;
  • Ordenar os votos e a determinar a ordem dos eleitores;
  • Ter acesso à lista com todos os nomes dos eleitores que votaram naquela seção;
  • Cruzar essas informações;
  • E tudo isso apenas para descobrir quem votou em quem…

Note que a quebra do sigilo do voto, apesar de ser um crime eleitoral, é diferente de computar votos incorretamente!

Em 2017, a equipe do professor Diego Aranha também conseguiu explorar algumas vulnerabilidades na urna eletrônica durante um novo teste público de segurança promovido pelo TSE, e conseguiram alterar mensagens de texto exibidas ao eleitor na urna para fazer propaganda a um certo candidato, mas não tiveram tempo para tentar desviar o voto de um candidato para outro!

Novamente, o acesso a esse tipo ataque deve ser físico. Ou seja, o sujeito teria que ficar ali do lado da urna, com tempo suficiente para rodar os scripts necessários.

Em resposta, o TSE afirmou que correções foram feitas para resolver essas vulnerabilidades.

Como a urna poderia ser mais segura?

Especialistas em segurança lutam há anos para que o TSE implante um sistema que imprima o voto no momento em que o eleitor vota na tela da urna.

Em 2015, o Congresso Nacional aprovou lei obrigando a impressão do voto, mas ela foi derrubada em junho de 2018 sob a alegação de que isso quebraria o sigilo do voto!

Não entendemos como a impressão do voto quebraria o sigilo do voto, mas… o STF também alegou que o custo para adaptar a impressão nas urnas atuais ultrapassaria os 2 bilhões de reais!

Resumindo, a urna eletrônica não é 100% segura assim como também não era na época da cédula de papel, mas todo o processo que envolve o sistema eleitoral brasileiro é fiscalizado por muita gente e, até hoje, não houve nenhum caso confirmado de fraude nas urnas eletrônicas.

Cabe a nós, como cidadãos, ajudar a fiscalizar todo o processo e denunciar toda e qualquer tentativa de atrapalhar o pleito!  

Agora voltando ao tema desse vídeo:

É verdade que só 3 países usam urna eletrônica no mundo?

Não! Além do Brasil, outros países possuem votação eletrônica, como o Canadá, a Índia e o Butão e em alguns estados norte-americanos.

Mensagem falsa espalhada pela web afirma que apenas 3 países usam a urna eletrônica!

Uma consulta ao Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (International Idea), que é uma organização independente que acompanha processos eleitorais em todo o mundo, são 23 países que usam sistemas de votação eletrônica em eleições nacionais. A entidade também apurou que mais 18 países usam a urna eletrônica em eleições regionais.

Um detalhe que o texto espalhado na web errou é que na Venezuela o voto é impresso pela urna eletrônica que é depositado depois pelo eleitor na urna, mas em Cuba os votos ainda são feitos em cédulas de papel!

Ah! De todos os países que realizam eleições eletrônicas, só o Brasil ainda usa um sistema sem a impressão para possível conferencia!

Conclusão

A urna eletrônica não é 100% segura e ainda faltam recursos que a torne mais confiável e que possibilitem a auditoria dos votos!

Gilmar Henrique Lopes é Analista de Sistemas e, em 2002, criou o E-farsas.com (o mais antigo site de fact checking do país!) que tenta desvendar os boatos que circulam pela Web. Gilmar é o autor do livro "Caçador de Mentiras" pela Editora Matrix e da aventura de ficção infantojuvenil "Marvin e a Impressora Mágica"!

Comentários

Mais Checagens em E-farsas TV

Ajude a Manter o E-farsas

Lançamento

Compre o livro Marvin e a impressora Mágica de Gilmar Lopes

Voltando a Circular

To Top