Um dos homens que queimaram indígena vivo ganhou cargo de confiança no governo Bolsonaro?

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Um dos assassinos do índio Galdino

É verdade que um dos homens que mataram um índio pataxó “apenas por brincadeira”, ganhou um cargo público com bom salário no governo de Jair Bolsonaro?

Na primeira semana de setembro de 2021, a imagem de um homem ao lado de uma manchete de jornal de 1997 começou a se espalhar nas redes sociais.

De acordo com o texto que acompanha a colagem de fotos, ele seria um dos assassinos do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo por 5 jovens que passavam em frente a um ponto de ônibus onde o indígena dormia, em 1997.

O homem da foto, segundo o que foi espalhado, teria sido nomeado para um cargo público para receber R$ 11 mil do governo!

Será que isso é verdade?

Um dos assassinos do índio Galdino Jesus dos Santos teria ganhado um cargo de confiança no governo Bolsonaro! Será verdade? (foto: Reprodução/Facebook)

Verdade ou mentira?

Em abril de 1997, Gutemberg Nader de Almeida Júnior (ainda menor de idade) e mais 4 amigos atearam fogo em um índio que estava dormindo em um ponto de ônibus, em Brasília. A vítima havia perdido o horário de atendimento da pousada onde estava hospedado e, como não conseguiu entrar, teve que dormir num ponto de ônibus ali perto, quando teve o corpo banhado de etanol e queimado vivo. 

Galdino ainda foi levado para hospital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu horas depois…

Essa matéria do jornal Correio Braziliense conta com detalhes o que aconteceu na ocasião. 

Em suas defesas, os criminosos – que foram até a um posto de combustível para comprar o álcool e voltaram para matar o indígena – se justificaram dizendo que “era só brincadeira” e que “achavam que fosse um mendigo“, mas a morte brutal do indígena causou comoção nacional na época, e a Justiça teve que agir (mais ou menos).

Na época do crime, Gutemberg ainda era menor de idade e foi encaminhado para o centro de reabilitação juvenil do Distrito Federal, onde ficou preso por quatro meses (ele havia sido condenado a um ano de reclusão, mas conseguiu permissão para sair antes do prazo). 

Quanto aos outros quatro comparsas, todos eles condenados a 14 anos de prisão, em regime fechado. Em 2004, 7 anos depois, todos já estavam em liberdade!

Gutemberg entrou pra PRF através de concurso (e com a ajuda da Justiça)

Em abril de 2014, Gutemberg passou e um concurso público para a Polícia Rodoviária Federal, mas foi impedido de tomar posse, após etapa que avalia a vida pregressa dos candidatos. 

Ele foi desligado do Curso de Formação Profissional, mas por uma decisão judicial, obteve novamente o direito de concluir o curso, se formando e tomando posse na PRF.

No dia 06 de janeiro de 2020, o rapaz foi nomeado pelo governo Federal para um cargo comissionado na Polícia Rodoviária Federal (PRF). 

Gutemberg passou a exercer o cargo de Substituto do Chefe da Divisão de Centro de Comando e Controle Nacional da PRF (Polícia Rodoviária Federal), conforme publicação no Diário Oficial da União de 06/01/2020. Segundo o que foi apurado pelo site Poder 360, o servidor ficou no cargo de confiança até dezembro de 2020, podendo ter recebido gratificações mensais de R$ 2.064,44 que, somadas ao seu salário, cerca R$ 9 mil, daria algo em torno de R$11 mil.

Procurada pelo IG, a Polícia Rodoviária Federal explicou que o candidato foi nomeado por possuir qualificação para exercer tal atividade e que o servidor só recebeu quando o cargo de chefia se apresentava vago:

Confira a nota da PRF na íntegra:

“Durante o certame de 2016 o Servidor Gutemberg Nader foi alvo de investigação social como qualquer outro candidato. Na ocasião, houve decisão para que ele fosse desligado do Curso de Formação Profissional – CFP, de 2016, pelos fatos que são de conhecimento geral, qual seja, o evento com o Índio Galdino, quando ele era ainda menor de idade. Contudo, por força de decisão judicial, ele retornou ao CFP, concluiu e tomou posse como PRF. Hoje o servidor Gutemberg está lotado na Superintendência do Distrito Federal. O cargo ocupado pelo mesmo, de janeiro de 2020 até dezembro de 2020, é de livre nomeação e exoneração. O servidor em questão foi nomeado pois possuía qualificação para exercer tal atividade. Cabe salientar que para este cargo, Substituto do Chefe da Divisão de Testes, Qualidade e Implantação, não há gratificações, exceto no caso de afastamentos e impedimentos legais ou regulamentares e na vacância do cargo da chefia.”

Os 5 amigos estão em cargos públicos

Segundo essa reportagem, todos os envolvidos no crime que chocou o país em 1997 estão bem empregados em cargos públicos com boas remunerações. Um deles está no Senado Federal, com um salário de R$27 mil; o outro trabalha no Detran e ganha R$15 mil; um terceiro trabalha na Secretaria de Estado da Saúde e também ganha cerca de R$15 mil; e o quarto trabalha no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT), recebendo algo em torno de R$16 mil por mês.

Conclusão

É verdade que um dos assassinos de um índio, em 1997, ganhou um cargo de confiança no governo Bolsonaro em 2020. A nomeação durou 11 meses e, em dezembro de 2020, o servidor voltou ao cargo anterior, voltando a receber apenas o salário de R$9 mil mensais.