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Um casal de aposentados cometeu suicídio devido ao modelo de Previdência do Chile?

Crimes

Um casal de aposentados cometeu suicídio devido ao modelo de Previdência do Chile?

Um casal de aposentados cometeu suicídio devido ao modelo de Previdência do Chile?

Será verdade que um casal de aposentados, que estavam casados há mais de 60 anos, teriam cometido suicídio devido ao modelo de Previdência do Chile? Bem, é isso que alguns sites, tais como a “Hora do Povo” e “Esquerdiario” alegam como a principal motivação de um episódio muito triste ocorrido na comuna chilena de El Bosque, na Região Metropolitana de Santiago, no início de fevereiro de 2019.

Entretanto, será mesmo que o modelo previdenciário adotado no Chile foi a principal motivação? Ambos teriam cometido realmente suicídio? É justamente isso que iremos começar a verificar a partir de agora, aqui, no E-Farsas.

O Trágico Término de uma Relação de Cumplicidade de mais de 60 anos

Segundo uma notícia publicada pelo site de notícias chileno “Emol” (pertencente ao jornal “El Mercurio”), no dia 5 de fevereiro de 2019, uma terça-feira, horas antes de morrer o casal José Aedo (94 anos) e Blanca Sáez (86 anos) foram juntos, como era de costume, em uma consulta com um geriatra chamado Carlos Lorca, na comuna (uma divisão administrativa do Chile) de El Bosque, uma das 32 comunas que compõe a cidade de Santiago, e que possui cerca de 175 mil habitantes.

Foto antiga do casal José Aedo e Blanca Sáez.

Era exatamente assim, que eles costumavam agir em todos os lugares: sempre um ao lado do outro. Portanto, a decisão que teriam tomado, após mais de 60 anos de casamento não era, apesar do impacto, inteiramente incompreensível para seus parentes e familiares.

Na noite anterior (04/02), seus corpos foram encontrados pela neta do casal, na casa que dividiam desde 1957, na rua Eleuterio Ramírez. Ao lado deles, eles encontraram uma carta, que teria sido deixada por ambos, de modo a explicar o motivo da fatídica decisão: eles se sentiam dependentes de sua família, e estavam cansados de viver.

Horas mais tarde, Eduardo Haro, comissário da Polícia de Investigações do Chile (responsável pela investigação de crimes, além de outras atribuições em âmbito federal), alegou que o caso se tratava de um feminicídio, seguido de suicídio, uma vez que Blanca foi morta pelo seu companheiro, o José. Para cometer o crime, José usou uma arma de fogo, que teria sido comprada por ele, mas que estaria legalmente registrada em nome de Blanca.

Era exatamente assim, que eles costumavam agir em todos os lugares: sempre um ao lado do outro. Portanto, a decisão que teriam tomado, após mais de 60 anos de casamento não era, apesar do impacto, inteiramente incompreensível para seus parentes e familiares.

Horas mais tarde, Eduardo Haro, comissário da Polícia de Investigações do Chile (responsável pela investigação de crimes, além de outras atribuições em âmbito federal), alegou que o caso se tratava de um feminicídio, seguido de suicídio, uma vez que Blanca foi morta pelo seu companheiro, o José. Para cometer o crime, José usou uma arma de fogo, que teria sido comprada por ele, mas que estaria legalmente registrada em nome de Blanca.

Embora não tenha sido confirmada a existência de um pacto entre ambos, é justamente essa hipótese que os familiares estavam acreditando.

Segundo Catalina Aedo, neta de José e Blanca, responsável por encontrar os corpos dos avós, os idosos não tinham sido abandonados, e viveram felizes os mais de 60 anos de casamento. De acordo com ela, o casal nunca brigou ou houve qualquer tipo de agressão entre ambos durante o tempo que estiveram juntos. Ela disse que, infelizmente, ambos estavam cansados, e essa era uma decisão que ninguém poderia ter previsto que ia acontecer.

Segundo a polícia, não havia histórico de violência doméstica em relação ao casal.

Segundo a polícia, não havia histórico de violência doméstica em relação ao casal.

Catalina também disse, que o casal comentava, que se algo acontecesse com um deles, o outro não iria seguir em frente (no sentido de permanecer vivo), porque tinham que estar juntos. Um dos filhos do casal, Jorge Aedo, por sua vez assegurou que, segundo a carta, “a ação foi por amor”. De acordo com as notícias, que foram amplamente divulgadas na mídia latino-americana, o casal tinha cerca de 4 filhos e 7 netos.

Apesar das declarações, a Catalina Aedo se mostrou naturalmente inconformada com o ocorrido. Em uma publicação no Facebook, divulgada pelo site do canal de TV chileno “24 horas”, ela disse que os avós tinham tomado a decisão de partirem juntos, algo que ela não conseguia acreditar ou entender, apenas queria despertar daquele pesadelo pelo qual estava passando. Disse que estava odiando a vida, por ter a afastado de seus avós, que eram exemplos para ela. Ela voltou a alegar, que nunca ninguém os abandonou, então não entendia a razão pela qual eles tinham feito aquilo. Ao final, Catalina pediu forças para seguir em frente, porque não sabia como continuar a viver sem eles. Triste, não é mesmo?

Catalina também disse, que o casal comentava, que se algo acontecesse com um deles, o outro não iria seguir em frente (no sentido de permanecer vivo), porque tinham que estar juntos.

O jornal chileno “La Segunda” revelou alguns outros detalhes do caso. Segundo o jornal, Catalina Aedo teria sido a última pessoa a ver os avós com vida. Naquela noite de segunda-feira, ela teria passado na casa deles, simplesmente para vê-los, por volta de 20h20 e, em seguida, foi embora para casa. No entanto, ela teria voltado 50 minutos depois, e se deparado com os avós mortos.

Também foi revelado o que estava escrito na carta ou ao menos um trecho dela: “Yo José Eduardo Aedo maté a Blanca Sáez porque el ánimo muy malo y enseguida me mato yo” (“Eu, José Eduardo Aedo, matei Blanca Sáez, porque o clima estava muito ruim e imediatamente me suicidei”, em português).

O jornal chileno “La Segunda” revelou alguns outros detalhes do caso. Segundo o jornal, Catalina Aedo teria sido a última pessoa a ver os avós com vida. Naquela noite de segunda-feira, ela teria passado na casa deles, simplesmente para vê-los, por volta de 20h20 e, em seguida, foi embora para casa. No entanto, ela teria voltado 50 minutos depois, e se deparado com os avós mortos.

No dia 6 de fevereiro, o site do canal de TV chileno “24 horas” repercutiu uma nova informação, que considero particularmente relevante para o caso. Jorge Aedo admitiu que seu pai, José Aedo, “tinha descoberto que a esposa estava muito doente, e não queria ficar sozinho”, dizendo em seguida: “Se minha mãe tivesse morrido, meu pai teria feito o mesmo“. Enfim, de qualquer forma não iremos fazer qualquer tipo de especulação em respeito aos familiares de José e Blanca.

Jorge Aedo admitiu que seu pai, José Aedo, “tinha descoberto que a esposa estava muito doente, e não queria ficar sozinho”, dizendo em seguida: “Se minha mãe tivesse morrido, meu pai teria feito o mesmo”.

As últimas informações que temos, até o momento da publicação desta postagem, é que a polícia está investigando o caso. Por enquanto, não há maiores informações sobre esse assunto na imprensa chilena.

Um Segundo Caso que Ocorreu de Forma Muito Semelhante Há Menos de um Ano, no Chile

A imprensa chilena também lembrou de um outro caso, que ocorreu de forma muito semelhante, em julho de 2018. Esse outro caso envolveu um casal de idosos, Jorge Olivares (84 anos) e Elsa Ayala (89 anos), que estavam juntos há 55 anos, na comuna de Conchalí. Jorge pegou seu revólver e atirou contra sua companheira e, em seguida, se matou. Embora nesse caso não tenha sido deixada nenhuma carta, a mesma motivação foi aventada: eles estavam doentes e cansados.

Foto antiga da casal Jorge Olivares e Elsa Ayala.

Segundo o site Glamorama, o casal não tinha filhos e chegou a velhice na “solidão”, com recursos financeiros escassos, doentes, porém sempre unidos e apaixonados. Elsa sofria de câncer de cólon, e úlceras varicosas nas pernas. Já Jorge se encontrava no primeiro estágio de demência senil, e estava usando fraldas geriátricas há alguns meses. Ele também enfrentava uma hérnia lombar, que o mantinha curvado, e uma pneumonia que vinha se prolongando por semanas. Nesse caso, no entanto, segundo vizinhos, familiares e cuidadoras, ambos já vinham comentando sobre o desejo de morrer.

Durante os meses anteriores a fatídica decisão que tomariam, a situação se tornava cada vez mais complexa. Elsa sofria ataques de dor, sendo que os analgésicos e calmantes, que ela tomava pareciam não surtir mais efeito. Jorge quase não dormia à noite na tentativa de cuidar de sua esposa, embora fossem acompanhados de perto por dois cuidadores (Denisse Gallardo Rojas, 33 anos, e Nicolás Orellana Mardones, 25 anos), que conheceram através de um programa público de saúde familiar. Eles também recebiam, esporadicamente, a visita de sobrinhos. Isso, no entanto, não parecia ser suficiente. Muitas vezes Elsa perguntava ao marido, se alguém havia ligado, e Jorge dizia que sim, mas que não quis acordá-la. A verdade é que ninguém havia ligado.

Durante os meses anteriores a fatídica decisão que tomariam, a situação se tornava cada vez mais complexa. Elsa sofria ataques de dor, sendo que os analgésicos e calmantes, que ela tomava pareciam não surtir mais efeito. Jorge quase não dormia à noite na tentativa de cuidar de sua esposa, embora fossem acompanhados de perto por dois cuidadores (Denisse Gallardo Rojas, 33 anos, e Nicolás Orellana Mardones, 25 anos), que conheceram através de um programa público de saúde familiar.

Outro detalhe importante é que o casal estava prestes a se separar. Elsa estava acamada, e seria internada em uma casa de repouso por decisão de um sobrinho. O local seria bem próximo de onde eles moravam. Segundo o cálculo de Jorge, ele poderia pagar pela internação de sua companheira, que iria custar cerca de $ 500 mil por mês (cerca de R$ 3.000 pela cotação atual). Enquanto isso, ele teria que procurar uma maneira de vender a casa, e sustentar suas próprias despesas. A transferência de Elsa estava marcada para uma sexta-feira, mas Jorge pediu tempo. Mais um dia para arrumar a mala. Elsa, no entanto, nunca chegou a ser transferida, e acho que não preciso dizer o que aconteceu na tarde do dia seguinte. Elsa ainda foi encontrada com vida, foi socorrida, mas acabou morrendo no hospital. Segundo uma “reflexão” do sobrinho responsável pela decisão, Jorge não queria se separar da esposa, e esse teria sido o motivo de sua atitude.

Muito triste mesmo, e para ser bem sincero, não me sinto em condições de continuar contando esse caso para vocês. Porém, caso queiram saber maiores informações sobre o assunto, e inclusive conhecer as versões apresentadas pelos dois cuidadores, cliquem aqui (matéria em espanhol do site do jornal chileno “La Tercera”).

Verdadeiro ou Falso?

Não, José Aedo não matou Blanca Sáez, e em seguida se suicidou simplesmente devido ao modelo de Previdência adotado desde 1981, no Chile, tampouco os idosos, de um modo geral, se suicidam no Chile simplesmente devido a esse motivo, conforme diversos sites de notícias tentam alegar.

O suicídio, ainda mais entre idosos, é um tema muito delicado, que precisa ser discutido, e cujas nuances não se resumem apenas a uma única motivação. Infelizmente, alguns sites de notícias, inclusive da América Latina, deliberadamente divulgaram, que tudo teria ocorrido simplesmente por uma questão de dependência financeira. Isso não é verdade. Iremos explicar direitinho essa situação para vocês, a partir de agora.

Os Assustadores Números no Chile e no Brasil

Segundo a revista digital chilena “Pousta”, em um artigo publicado em agosto de 2018, O Chile era o segundo país da OCDE (“Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico”) com as maiores taxas de suicídio depois da Coreia do Sul (ao menos até 2017). Na verdade, era a segunda causa de morte em adolescentes após os acidentes de trânsito. Estudos realizados também apontavam um crescimento sustentado da situação e, até aquele presente momento, o suicídio representava cerca de 2% de todas as mortes anuais no Chile.

Segundo a revista digital chilena “Pousta”, em um artigo publicado em agosto de 2018, O Chile era o segundo país da OCDE (“Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico”) com as maiores taxas de suicídio depois da Coreia do Sul (ao menos até 2017).

Nesse ponto é importante esclarecer que a OCDE é uma organização internacional, atualmente com 36 países que aceitam os princípios da democracia representativa e da economia de mercado, e que procura fornecer uma plataforma para comparar políticas econômicas, solucionar problemas comuns e coordenar políticas domésticas e internacionais. O Brasil não faz parte da OCDE.

A situação entre aqueles que os chilenos (assim como muitos outros países de língua espanhola) chamam de adultos mayores (idosos acima de 60 anos) era um pouco pior se fôssemos comparar com a média nacional. Em 2015, por exemplo, a taxa média nacional de suicídios a cada 100.000 habitantes era de 10,2. Em relação aos idosos entre 60 e 69 anos, a taxa era de 12,2; entre 70 e 79 anos era de 15,4; e entre os idosos acima de 80 anos chegava a alarmantes 17,7.

A situação entre aqueles que os chilenos (assim como muitos outros países de língua espanhola) chamam de adultos mayores (idosos acima de 60 anos) era um pouco pior se fôssemos comparar com a média nacional. Em 2015, por exemplo, a taxa média nacional de suicídios a cada 100.000 habitantes era de 10,2. Em relação aos idosos entre 60 e 69 anos, a taxa era de 12,2; entre 70 e 79 anos era de 15,4; e entre os idosos acima de 80 anos chegava a alarmantes 17,7.

Sei que muitas vezes as pessoas têm dificuldades com números, então vamos tentar explicar de forma mais simples o que eles representam. Bem, as estatísticas sobre suicídios, principalmente entre idosos no Chile estão bem defasadas. Os dados mais recentes são oriundos de um anuário chamado “Estatísticas Vitais 2015” do Instituto Nacional de Estatística do Chile (INE), que compilou informações entre os anos de 2010 e 2015. Entre esses anos houve, oficialmente, 2.853 suicídios de idosos acima de 60 anos, sendo que 935 casos, cerca de 32,7% do total, foram de idosos acima de 70 anos. Vale lembrar nesse ponto, que o Chile tem aproximadamente 2,8 milhões de idosos, de um total de cerca de 18 milhões de habitantes.

É  justamente a partir do número absoluto de casos vezes 100.000 habitantes e dividido pelo número de pessoas de um determinado segmento etário (ou número total de habitantes de um país, dependendo do caso), que chegamos a famosa taxa por 100.000 habitantes.

Os dados mais recentes são oriundos de um anuário chamado “Estatísticas Vitais 2015” do Instituto Nacional de Estatística do Chile (INE), que compilou informações entre os anos de 2010 e 2015. Entre esses anos houve, oficialmente, 2.853 suicídios de idosos acima de 60 anos, sendo que 935 casos, cerca de 32,7% do total, foram de idosos acima de 70 anos. Vale lembrar nesse ponto, que o Chile tem aproximadamente 2,8 milhões de idosos, de um total de cerca de 18 milhões de habitantes.

Já a obtenção de dados referentes ao número de óbitos decorrentes de suicídios entre idosos no Brasil é pouco mais complexa. Em primeiro lugar é preciso que vocês tenham em mente algo chamado CID-10 (Classificação Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), que é uma lista publicada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e visa padronizar a codificação de doenças e outros problemas relacionados à saúde. A CID-10 fornece códigos relativos à classificação de doenças e de uma grande variedade de sinais, sintomas, aspectos anormais, queixas, circunstâncias sociais e causas externas para ferimentos ou doenças. A cada estado de saúde é atribuída uma categoria única à qual corresponde um código CID-10.

Tendo isso em mente, é necessário saber que o risco de suicídio não tem uma classificação própria, pois é fenômeno que pode ocorrer em vários quadros clínicos diferentes e, mais raramente, na ausência de qualquer quadro clínico. A maior parte das pessoas que planejam, tentam ou pensam insistentemente em suicídio sofre de algum transtorno psíquico, devendo ser feito seu diagnóstico e sua classificação segundo o transtorno. Quando já ocorreu a tentativa, consumada ou frustrada, utiliza-se os seguintes itens da CID-10: X60 a X84, que correspondem as lesões autoprovocadas intencionalmente.

A obtenção de dados referentes ao número de óbitos decorrentes de suicídios entre idosos no Brasil é pouco mais complexa

Agora que você tem conhecimento disso, podemos consultar o TABNET (instrumento que possibilita o acesso às bases de dados de população e dos sistemas de informações do SUS: mortalidade, nascidos vivos, procedimentos ambulatoriais, internações hospitalares, estabelecimentos de saúde, saúde da família, câncer, AIDS, imunização, acidentes de trabalho e violências/acidentes) do DATASUS (departamento de informática do Sistema Único de Saúde do Brasil), que fornece dados desde 1996 até 2016.

Para sermos mais justos, optamos por restringir os dados sobre óbitos relacionados aos capítulos X60 a X84 da CID-10, na faixa etária acima dos 60 anos, entre os anos de 2010 a 2015. Assim sendo, verificamos que houve 9.788 suicídios entre idosos acima de 60 anos, entre 2010 e 2015, sendo que houve 4.581 ocorrências na faixa etária acima dos 70 anos, cerca 46,8% do total.

Para sermos mais justos, optamos por restringir os dados sobre óbitos relacionados aos capítulos X60 a X84 da CID-10, na faixa etária acima dos 60 anos, entre os anos de 2010 a 2015. Assim sendo, verificamos que houve 9.788 suicídios entre idosos acima de 60 anos, entre 2010 e 2015, sendo que houve 4.581 ocorrências na faixa etária acima dos 70 anos, cerca 46,8% do total.

Vamos considerar, que em 2015 a população de idosos acima de 60 anos no Brasil fosse semelhante a de 2018, logo teríamos cerca de 28 milhões de idosos no Brasil. Assim sendo, podemos facilmente calcular a taxa de suicídios por cada 100.000 pessoas. Em 2015, foram registrados 1.909 suicídios entre idosos acima de 60 anos, o que nos dá uma taxa aproximada de 6,81 nesse segmento etário. No Chile, nesse mesmo ano e nesse mesmo segmento etário, a taxa era 14, ou seja, mais do que o dobro.

Segundo a classificação de mortalidade por suicídio de Diekstra e Gulbinat, a mortalidade por suicídio é considerada baixa quando os coeficientes são menores que 5 óbitos por 100.000 habitantes; média, quando os coeficientes se situam entre 5 e 15 óbitos por 100.000 habitantes; alta, entre 15 e 30 óbitos por 100.000 habitantes; e muito alta, quando os coeficientes são de 30 óbitos por 100.000 habitantes ou maiores.

O índice brasileiro pode parecer baixo se comparado ao chileno, mas é importante ter em mente alguns dados muito importantes: Em todo o mundo, as maiores taxas de tentativas e atos consumados estão nas faixas etárias avançadas. No Brasil, não é diferente. Os dados nacionais ainda são escassos, mas evidenciam que o país acompanha a tendência global. O “Mapa da Violência 2014”, organizado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, apontou que, acima dos 60 anos, há oito suicídios por 100 mil habitantes, taxa maior que a registrada entre outros grupos etários. Entre 1980 e 2012 — período avaliado no estudo —, houve um crescimento de 215,7% no número de casos entre os idosos. Da mesma forma que ocorre com os mais jovens, os homens eram as principais vítimas (a proporção de homens é muito maior em relação as mulheres).

Segundo a classificação de mortalidade por suicídio de Diekstra e Gulbinat, a mortalidade por suicídio é considerada baixa quando os coeficientes são menores que 5 óbitos por 100.000 habitantes; média, quando os coeficientes se situam entre 5 e 15 óbitos por 100.000 habitantes; alta, entre 15 e 30 óbitos por 100.000 habitantes; e muito alta, quando os coeficientes são de 30 óbitos por 100.000 habitantes ou maiores.

Outro retrato do tema foi traçado por pesquisadores de sete instituições acadêmicas que, em 2012, publicaram uma edição especial da revista Ciência & Saúde Coletiva com dados quantitativos e qualitativos, coordenados pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz).

Um dos trabalhos utilizou o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, para calcular os registros de suicídio de pessoas com mais de 60 anos entre 1996 e 2007. Nesse período, os pesquisadores identificaram 91.009 mortes autoprovocadas, sendo que 14,2% ocorreram entre idosos.

Outro retrato do tema foi traçado por pesquisadores de sete instituições acadêmicas que, em 2012, publicaram uma edição especial da revista Ciência & Saúde Coletiva com dados quantitativos e qualitativos, coordenados pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Ensp/Fiocruz).

No Brasil, em 2017, cerca de 11.700 pessoas tiraram a própria vida, segundo dados levantados pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Outros dados preocupantes estão relacionados ao sexo e a faixa etária: os homens morreram mais por suicídio (79%), uma vez que a taxa de mortalidade por 100 mil habitantes entre eles era 3,6 vezes maior; e a prevalência de morte por suicídio entre os idosos com 70 anos ou mais, chegava a uma estimativa de 8,9 para cada 100 mil habitantes. No Chile, em 2015, nesse mesmo segmento etário, a taxa estava entre 15,4 e 17,7.

Portanto, os números do Chile, apesar de altos, refletem uma tendência global, ou seja, em todo o mundo, as maiores taxas de tentativas e atos consumados estão nas faixas etárias avançadas.

As Complexas Motivações Para o Suicídio Entre os Idosos no Chile e no Brasil

Segundo aquele mesmo artigo publicado em agosto de 2018, no site da revista digital chilena “Pousta”, uma das principais causas para os idosos acabarem colocando um fim em suas vidas era a falta de campanhas de prevenção voltadas para suas faixas etárias, visto que os recursos eram destinados a jovens e adolescentes. Evidentemente, uma outra motivação tinha relação com o sistema previdenciário vigente no Chile, em que o aposentado recebia, em média, cerca 430 mil pesos após 30 anos de contribuições (cerca de R$ 2.500 pela cotação atual), impossibilitando o pagamento do tratamento para suas próprias doenças em razão da idade avançada. Porém, o sistema previdenciário, é apenas uma das inúmeras motivações dos casos de suicídios entre idosos no Chile.

Um outro artigo, dessa vez publicado em outubro de 2018, no site do jornal “La Tercera”, expôs a opinião de Ana Paula Vieira, acadêmica de Gerontologia da Universidade Católica e presidente da Fundação Míranos. De acordo com Ana Paula, o suicídio de jovens e adolescentes tendem a receber mais atenção por parte da mídia. Além disso, ela acreditava que nenhuma ação preventiva nunca havia sido concretamente tomada em relação aos idosos, ou seja, tudo era realmente focado nas pessoas mais jovens.

Evidentemente, uma outra motivação tinha relação com o sistema previdenciário vigente no Chile, em que o aposentado recebia, em média, cerca 430 mil pesos após 30 anos de contribuições (cerca de R$ 2.500 pela cotação atual), impossibilitando o pagamento do tratamento para suas próprias doenças em razão da idade avançada. Porém, o sistema previdenciário, é apenas uma das inúmeras motivações dos casos de suicídios entre idosos no Chile.

Uma psicogeriatra chamada Daniela González chegou a mencionar, que há uma espécie de normalização do fenômeno do suicídio entre os idosos, e supõe-se que eles queiram morrer. Contudo, quem cometeu suicídio não estava bem, não podendo ser um fenômeno normal, independentemente da idade. Não é normal que alguém queira morrer por ter mais idade. Porém, quando há certas dificuldades, assim como doenças terminais irreversíveis, que geram uma impossibilidade de serem tratadas tão somente com dinheiro, acaba-se gerando no final uma enorme desesperança, e a questão do suicídio se instala como uma saída honrosa.

Segundo Ana Paula, nesses casos, quando se opta pelo suicídio, o que se busca é acabar com o sofrimento. Às vezes os idosos não querem morrer, mas querem acabar com o sofrimento diante da falta de esperança, da falta de um caminho para trilhar ou por não encontrar os recursos necessários para lidar com o que está acontecendo em suas vidas.

De acordo com Ana Paula (à direita), o suicídio de jovens e adolescentes tendem a receber mais atenção por parte da mídia. Além disso, ela acreditava que nenhuma ação preventiva nunca havia sido concretamente tomada em relação aos idosos, ou seja, tudo era realmente focado nas pessoas mais jovens.

José Miguel Aravena, diretor da Sociedade de Geriatria e Gerontologia do Chile, explicou que os principais fatores que predispõem ao suicídio em idosos são a solidão, a depressão, a morbidade e a dependência de familiares. José Miguel também apontou uma situação igualmente preocupante. Segundo ele, existe um grande problema em relação a pesquisa sobre saúde mental em idosos, visto que quase 50% dos medicamentos prescritos para depressão são inadequados para os próprios idosos. E, estudos mostram, que a população com diagnóstico psiquiátrico apresenta um risco de suicídio entre 6 a 20 vezes maior do que a população em geral.

De acordo com Claudio Martínez, diretor do Centro de Estudos de Psicologia Clínica e Psicoterapia da Universidade Diego Portales, todos os idosos em estado de abandono são um risco em potencial, especialmente quando existem doenças crônicas, que são um fator de risco para o suicídio em qualquer idade. Se forem acrescentados problemas econômicos e a velhice, o risco de suicídio aumenta.

Apesar do crescente envelhecimento da população, os idosos não recebem muita atenção.  Segundo Martínez, tem havido uma certa preocupação no aspecto econômico, assim como pensões e aposentadores, mas a saúde mental é menos abordada, ou seja, existe uma abordagem muito genérica, e pouca pesquisa sobre o suicídio entre idosos.

José Miguel Aravena, diretor da Sociedade de Geriatria e Gerontologia do Chile, explicou que os principais fatores que predispõem ao suicídio em idosos são a solidão, a depressão, a morbidade e a dependência de familiares.

Situações como a demência e depressão são frequentes nesse grupo. Portanto, de acordo com Aravena, o Plano Nacional de Saúde Mental, do Chile, deveria incluir medidas voltadas para eles. Muito mais acompanhamento direto seria necessário, estabelecendo visitas domiciliares. Se eles chegam até uma clínica com sintomas de solidão, são indivíduos que não podem ser deixados sozinhos.

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Daniela González também ressaltou, que o fenômeno do suicídio é multifatorial. É complexo tentar evitá-lo, porque há muitos fatores envolvidos, porém melhorar a rede de apoio social dos idosos é uma das medidas, que se mostrou decisiva na questão do combate a depressão. Já Ana Paula Vieira destacou, que socialmente a percepção negativa sobre a velhice não é favorável. A simbologia de um idoso sendo mostrado segurando uma bengala, por exemplo, não ajuda nesse sentido, pelo contrário. Ao ser tratado e simbolizado como alguém doente e já sem perspectiva de vida, outros idosos podem tomar isso como verdade para si próprios e verdadeiramente adoecerem em razão dessa exposição negativa.

Enfim, caso queiram saber maiores informações detalhadas dos fatores de risco em relação ao suicídio no Chile, assim como as estratégias de prevenção, recomendo fortemente a leitura da tese de mestrado em Políticas Públicas da aluna Francisca Lobos Mosqueira, da Universidade do Chile. É um texto escrito em 2016, e bem completo. Vale a pena conferir, clicando aqui (texto em espanhol).

Em relação ao Brasil, a situação não muda muito de figura. De acordo com um estudo chamado “Aspectos psicossociais do suicídio em idosos e percepções de sobreviventes”, desenvolvido pelas psicólogas Bruna Letícia Sancandi Almeida, Marta Lorentz e Lao Tse Maria Bertoldo, da Sociedade Educacional Três de Maio (SETREM), o suicídio de idosos tem se tornado, nas últimas décadas, uma temática de relevância para a saúde pública. Em relação aos índices entre idosos, a literatura estima que embora eles tenham números de tentativas menores em relação às outras faixas etárias, as taxas de suicídio consumado são maiores. O estudo realizado consistiu em entrevistar pessoas próximas a idosos que cometeram suicídio buscando compreender melhor o fenômeno.

Durante as entrevistas sobre as histórias de vida dos idosos, que cometeram suicídio, todas tiveram em comum as doenças físicas, os transtornos mentais, as relações familiares e as histórias de perda (perdas de emprego, separação conjugal, mortes prematuras de filhos e mortes de filhos por suicídio).

De acordo com os entrevistados, estas situações podem ter influenciado na saúde mental dos idosos que cometeram suicídio. Embora o tema da pesquisa seja atual e relevante, ainda carece de mais pesquisas específicas sobre os fatores psicossociais do suicídio devido à amplitude e complexidade do tema. Por fim, o estudo reforçou a preocupação com a temática do suicídio em idosos, visando expandir a discussão no âmbito de políticas públicas e ampliar as estratégias de cuidado à população idosa.

Em relação ao Brasil, a situação não muda muito de figura. De acordo com um estudo chamado “Aspectos psicossociais do suicídio em idosos e percepções de sobreviventes”, desenvolvido pelas psicólogas Bruna Letícia Sancandi Almeida, Marta Lorentz e Lao Tse Maria Bertoldo, da Sociedade Educacional Três de Maio (SETREM), o suicídio de idosos tem se tornado, nas últimas décadas, uma temática de relevância para a saúde pública.

Quem também publicou um excelente artigo sobre esse tema foi a jornalista Paloma Oliveto, do jornal Correio Braziliense, em fevereiro de 2017. Logo abaixo do título “Crescem os casos de suicídio entre idosos no Brasil” era possível ler: “Entre 1980 e 2012, o aumento foi de 215,7%. Para especialistas, acúmulo de perdas e isolamento social estão entre as motivações para o ato extremo“.

Segundo a psicóloga Denise Machado Duran Gutierrez, professora da Universidade Federal do Amazonas, na terceira idade, especialmente quando há doença degenerativa, com perda de capacidade funcional e dor crônica, e quando há perda de laços referenciais e de uma série de suportes, o idoso fica muito vulnerável. Diferentemente de outras etapas da vida, que se pode pensar no suicídio por impulso, por uma dor de amor, um arroubo de fúria, uma tristeza, o idoso não vive esse tipo de situação. Tem um período de tomada racional de decisão. Em média, o jovem faz 20 tentativas para um efeito, o suicídio. No idoso, são quatro tentativas. Muitas vezes, não há tentativa, é única. Eles usam métodos definitivos.

Por trás do desejo de antecipar o fim da vida, estão as perdas. Perda de saúde, autonomia, produtividade, papéis sociais. Perda de cônjuges, amigos, cuidadores e de outras pessoas nas quais eles depositam confiança. Ainda segundo Denise, a família tem uma responsabilidade enorme nesse processo. Ela disse que o idoso não só sofre processo de migração, de deslocamento. Mas, também, muitas vezes na própria casa, perde o quarto principal, vai pra um quartinho de fundo. Os filhos, quando o levam ao médico, falam por ele, o tratam como criança, desautorizam no médico. O idoso vai perdendo voz, espaço.

Segundo a psicóloga Denise Machado Duran Gutierrez, professora da Universidade Federal do Amazonas, na terceira idade, especialmente quando há doença degenerativa, com perda de capacidade funcional e dor crônica, e quando há perda de laços referenciais e de uma série de suportes, o idoso fica muito vulnerável.

Em uma pesquisa sobre 51 casos de suicídio cometidos por pessoas com mais de 60 anos, a professora da Universidade Federal do Amazonas identificou que o fator de maior frequência por trás do ato foi o isolamento social: ao investigar com familiares das vítimas, constatou que esse foi o motivo de 32,1% dos homens e 31,7% das mulheres.

O estudo também mostrou que, no caso dos idosos do sexo masculino, doenças e perdas que levam a invalidez, interrupção do trabalho ou limitação da capacidade funcional vêm em segundo lugar, seguidas por ideações suicidas (pensamentos constantes sobre esse ato), abusos físicos e verbais, morte/doença de parentes e sobrecarga financeira. Já entre as mulheres, as ideações e tentativas prévias, além de casos suicídios na família, ficaram em segundo lugar. Doenças e deficiências incapacitantes, impacto de mortes ou doenças na família, abuso e violências de gênero e endividamento se seguiram a esses motivos. Por outro lado, apoio de parentes e de amigos, incluindo os elos afetivos e os encontros de sociabilidade e lazer, foram destacados por familiares como possíveis fatores que poderiam evitar o suicídio dos idosos.

Curiosamente, houve uma grande semelhança na questão sobre a falta de assistência ao idoso, visto que especialistas criticaram a falta de recursos e de capacitação profissional. O enfermeiro Maycon Rogério Seleghim, pesquisador do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, lamentou a inexistência de uma base nacional de dados sobre frequência e distribuição das tentativas de suicídio, que, na opinião dele, poderiam ajudar a conscientizar gestores e trabalhadores do setor de saúde sobre a necessidade de se debruçar mais sobre o tema.

O enfermeiro Maycon Rogério Seleghim, pesquisador do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, lamentou a inexistência de uma base nacional de dados sobre frequência e distribuição das tentativas de suicídio, que, na opinião dele, poderiam ajudar a conscientizar gestores e trabalhadores do setor de saúde sobre a necessidade de se debruçar mais sobre o tema.

Além disso, outra preocupação dele era com amplo acesso de pessoas com mais de 60 anos a medicamentos controlados, utilizados por 45,5% dos indivíduos que tentaram cometer o ato. Segundo Maycon, uma situação que tem colaborado negativamente com essa questão é a prescrição inadvertida dos psicotrópicos por médicos clínicos gerais ou de família. Muitos dos medicamentos pertencentes a essa classe farmacológica são receitados por esses profissionais aos idosos sem uma avaliação neuropsiquiátrica mais específica ou abrangente, na maioria das vezes, sem considerar estratégias não farmacológicas de tratamento.

Conforme vocês podem perceber, mais uma vez, atribuir ao modelo previdenciário a responsabilidade pelos suicídios de idosos no Chile é totalmente leviano, beirando a hipocrisia. Enfim, a seguir, caminhando para o final desta postagem, vamos falar rapidamente como funciona o sistema previdenciário chileno e o brasileiro.

O Sistema de Previdência no Chile e no Brasil

Atualmente, tanto o Chile quanto o Brasil possuem diferentes sistemas previdenciários. No Brasil existe um modelo chamado de solidário ou repartição modelo de repartição, no qual os trabalhadores ativos bancam a aposentadoria dos inativos. Já no Chile há um modelo chamado de capitalização, em que cada trabalhador contribui para sua própria aposentadoria. Falar sobre previdência é sempre mexer em um vespeiro, visto que sempre há egos inflamados e muita desinformação em relação ao tema.

Vamos começar pelo Chile, utilizando como base uma excelente entrevista dada pelo economista Andras Uthoff, consultor internacional e conselheiro regional da OIT (Organização Internacional do Trabalho) e professor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile ao site “Infomoney”.

No Chile

O sistema de capitalização chileno originou-se em 1981, durante a ditadura de Augusto Pinochet. Até então, essa era uma mudança inédita no mundo, ou seja, o Chile foi o primeiro país no mundo a “privatizar” a Previdência. Nesse modelo, basicamente, um trabalhador com carteira assinada contribuía com cerca de 10% do seu próprio salário, durante um determinado período de tempo (cerca de 20, 30 ou 40 anos) e ao chegar a uma idade mínima de 60 anos para as mulheres ou 65 anos para os homens, era possível finalmente se aposentar. Não havia qualquer tipo de contribuição por parte de empresários ou do governo federal.

Então, os trabalhadores passaram a ser afiliados de um sistema de seguridade e ser consumidores de uma indústria de serviços financeiros, que eram basicamente oferecidos por administradoras de fundos de pensão, as AFPs, que os trabalhadores até hoje podem livremente escolher. Criaram-se 12 AFPs, que logo chegaram a 21, e atualmente são seis. Paralelamente, o Estado teve que fechar o sistema público, o que significou assumir a dívida. Um custo alto, mas por estar em um período de ditadura ficou extremamente fácil cortar gastos e aumentar impostos para pagar essa dívida, que sobrou do antigo sistema previdenciário.

Então, os trabalhadores passaram a ser afiliados de um sistema de seguridade e ser consumidores de uma indústria de serviços financeiros, que eram basicamente oferecidos por administradoras de fundos de pensão, as AFPs, que os trabalhadores até hoje podem livremente escolher. Criaram-se 12 AFPs, que logo chegaram a 21, e atualmente são seis.

As AFPs são basicamente as responsáveis por fazer o dinheiro do trabalhador render para que haja uma bom saldo no momento que ele pare de trabalhar, o que deveria resultar em pensões razoavelmente boas. A totalidade do dinheiro dos afiliados ia para mercado financeiro sem que o Estado fizesse uso dos recursos para pagar a dívida. E qual a razão para isso? Bem, as contribuições dos trabalhadores gerariam um generoso montante, que permitiria as administradoras investirem em empresas no próprio país. Além disso, uma vez os que empresários não teriam mais que arcar mensalmente com a contribuição previdenciária, a mão de obra ficaria mais barata e, consequentemente, haveria mais empregos, maior renda, maiores contribuições e assim por diante.

Na teoria, financeiramente falando, essa era a ideia de um esquema previdenciário maravilhoso. O problema é que deu quase tudo errado. As AFPs começaram a investir o dinheiro das pessoas, porém fizeram isso em instrumentos financeiros no exterior (terminaram vinculadas com grandes grupos financeiros nacionais e internacionais), não no Chile. E isso aconteceu por inúmeros fatores, entre eles a impossibilidade das AFPs investirem em ativos que fossem muito arriscados e a falta de instrumentos seguros para investir em pequenas e médias empresas. Somente isso já seria grave, mas a situação precária do mercado de trabalho, com alta informalidade, rotatividade e necessidade de empreender ajudou ainda mais a fazer com que a maioria não tivesse condições de contribuir de forma permanente durante os 40 anos de vida ativa.

As AFPs são basicamente as responsáveis por fazer o dinheiro do trabalhador render, para que haja uma bom saldo no momento que ele pare de trabalhar, o que deveria resultar em pensões razoavelmente boas. A totalidade do dinheiro dos afiliados ia para mercado financeiro sem que o Estado fizesse uso dos recursos para pagar a dívida.

O mercado de trabalho não foi inclusivo como prometeram e, como consequência, as pessoas não têm condições de poupar. Quem poupa não o faz com regularidade suficiente e a taxa é muito baixa. Os retornos entregues pelas AFPs foram muito altos no começo (acima de 10% reais), mas diminuíram e hoje em dia estão em 4% reais. E o que aconteceu? Em 2008, por exemplo, metade dos idosos não tinha nenhuma previdência. Depois disso, o Estado passou a prestar assistência aos idosos mais pobres (a partir dos 65 anos). Criou-se uma pensão básica solidária para quem não havia poupado nada, e um aporte provisório, complementar, a quem havia poupado algo. Mas os aportes são muito pequenos e o nível das prestações são insuficientes. Hoje, mesmo com a ajuda, 79% das pensões no Chile estão abaixo do salário mínimo (atualmente 286.000 pesos ou cerca R$ 1650 pela cotação atual), e 44% estão abaixo da linha da pobreza.

Isso é claro, com o tempo, gerou revolta entre a população, fez com que milhões fossem protestar nas ruas, e surgiu um movimento chamado “No+AFP” (“Chega de AFP”, em português). As AFPs claramente abocanham grande parte do valor das aposentadorias das pessoas, uma vez que o valor pago às administradoras não é muito transparente (juntamente ao valor pago é cobrado um seguro em caso de acidentes). Por outro lado, as pessoas infelizmente também não possuem uma educação financeira, que as tornem capazes de fiscalizar o que as AFPs fazem com o dinheiro delas. Enfim, as AFPs viraram uma espécie de bicho-papão do modelo previdenciário chileno, porém é notável que a falta de pulso e direcionamento do governo federal em fazer ajustes e mudanças ao longo do tempo contribuiu de forma considerável para o resultado desastroso.

Isso é claro, com o tempo, gerou revolta entre a população, fez com que milhões fossem protestar nas ruas, e surgiu um movimento chamado “No+AFP” (“Chega de AFP”, em português). As AFPs claramente abocanham grande parte do valor das aposentadorias das pessoas, uma vez o valor pago às administradoras não é muito transparente (juntamente ao valor pago é cobrado um seguro em caso de acidentes).

Em outubro do ano passado, a Previdência no Chile passou por uma reforma. O novo sistema é muito próximo do sistema dos Estados Unidos, misturando previdência pública com capitalização obrigatória, e incentivo para investimento em previdência privada. A contribuição dos trabalhadores foi aumentada de 10% para 15% – quem paga a diferença é o empregador – e espera-se que as mudanças gerem uma alta de 40% no valor das aposentadorias até 2025, quando estará finalmente implementado.

A aposentadoria no Chile agora é composta por 3 pilares: Solidário, Aporte Obrigatório e Aporte Voluntário.

  • O Pilar Solidário: É financiado por impostos e destinado aos 60% de idosos mais pobres para enfrentar o problema social.
  • O Pilar de Aporte: Obrigatório, sendo dividido em duas partes, a contribuição do trabalhador e a nova contribuição do empregador. O que o trabalhador pagou em sistema de capitalização será pago individualmente, com um reforço pela contribuição patronal, dividida entre todos os aposentados com critérios sociais para manter a equidade.
  • O Pilar de Aporte Voluntário: uma contribuição espontânea em sistema de capitalização, que recebeu incentivos fiscais do governo, com o intuito de arrecadar mais para pagar melhores aposentadorias.

Índice Mercer de diversos países, incluindo o Brasil, mostrando suas sustentabilidades e adequações, em relação aos valores dos benefícios.

Apesar do terrível resultado prático, que tentamos resumir da melhor forma possível, esse é um sistema muito bom, sustentável, previsível e que remunera mais, quem paga mais, mas que claramente precisava de adaptações e regulações mais sólidas por parte do Estado. Tais adaptações e mudanças demoraram muito para serem feitas devido aos clássicos interesses políticos (grande parte dos parlamentares financiaram suas candidaturas com recursos dessas administradoras), financeiros e empresariais. O que aconteceu e acontece no Chile, serve e continuará servindo de lição para o restante do mundo.

No Brasil

O sistema de Previdência Social no Brasil é uma verdadeira bomba-relógio, semelhante a uma pirâmide financeira. De acordo com o economista Kristian Niemietz, pesquisador do “Institute of Economic Affairs” ( IEA, Instituto de Assuntos Econômicos, em português) esse sistema foi criado pelo chanceler alemão Otto von Bismarck nos anos 1880, uma época em que os países tinham altas taxas de natalidade e mortalidade. Você tinha milhares de pessoas jovens o suficiente para trabalhar e apenas alguns aposentados, então o sistema era fácil de financiar.

Entretanto, conforme a expectativa de vida começou a crescer, as pessoas não morriam mais (em média) aos 67 anos, dois anos depois de se aposentar. Chegavam aos 70, 80 ou 90 anos de idade. Depois, dos anos 1960 em diante, as taxas de natalidade começaram a cair em países ocidentais. Quando isso acontece, você passa a ter uma população com muitos idosos e poucos jovens. Entenderam a receita do desastre? Pegaram a visão? Menos gente no mercado de trabalho contribuindo para mais gente envelhecendo e se aposentando com um bom tempo de vida pela frente.

O sistema de Previdência Social no Brasil é uma verdadeira bomba-relógio, semelhante a uma pirâmide financeira. De acordo com o economista Kristian Niemietz, pesquisador do “Institute of Economic Affairs” ( IEA, Instituto de Assuntos Econômicos, em português) esse sistema foi criado pelo chanceler alemão Otto von Bismarck nos anos 1880, uma época em que os países tinham altas taxas de natalidade e mortalidade. Você tinha milhares de pessoas jovens o suficiente para trabalhar e apenas alguns aposentados, então o sistema era fácil de financiar.

Esse sistema, operando sozinho, é invariavelmente fadado ao fracasso a longo prazo. Atualmente, seria preciso que muita coisa desse certo ao mesmo tempo durante décadas sem nenhuma instabilidade financeira ou política internacional. Isso, infelizmente, é praticamente impossível, utópico. A corrupção, as fraudes do sistema previdenciário, os privilégios concedidos as diversas categorias, os valores totalmente discrepantes de contribuição, assim como os diversos valores recebidos de aposentadorias e pensões em razão de diferentes tempos de contribuição e idades pelas quais as pessoas se aposentam agravam ainda mais a sobrevida do sistema. Algo que demoraria mais tempo para implodir, cujos ajustes poderiam ser feitos de forma mais fragmentada, demora muito menos tempo, e os ajustes acontecem de forma apressada e traumática.

De acordo com o site “Infomoney”, quando o sistema previdenciário brasileiro foi criado o governo não acumulou uma espécie de “colchão de recursos” para pagar quem se aposentasse no futuro. O dinheiro foi gasto de outras formas. Quem trabalha hoje e contribui, sustenta um caminhão de privilégios de gente que se aposentou aos 45 anos de idade ou que ganha R$ 30.000 por mês sem trabalhar.

Esse sistema, operando sozinho, é invariavelmente fadado ao fracasso a longo prazo. Atualmente, seria preciso que muita coisa desse certo ao mesmo tempo durante décadas sem nenhuma instabilidade financeira ou política internacional. Isso, infelizmente, é praticamente impossível.

Alguém pode argumentar que os gastos com a previdência não crescerão no futuro como cresceram ao longo dos governos do PT. Já outros podem dizer que o período de maior irresponsabilidade fiscal já ficou para trás.

Entretanto, é preciso considerar também, que haverá cada vez mais idosos no Brasil e cada vez menos trabalhadores ativos para sustentá-los. Além de serem mais numerosos, os idosos também viverão mais e receberão benefícios por um maior número de anos. O debate entre fazer ou não fazer a reforma da previdência só existe nas redes sociais. Na prática a escolha que se coloca diante da sociedade brasileira é entre a reforma da previdência, o calote (a dívida do governo para continuar pagando todos os benefícios será tão alta que ficará impagável) ou a hiperinflação (o governo terá de imprimir dinheiro para pagar a todos, desvalorizando a moeda).

Comentários Finais

Conforme fui pesquisando para elaborar essa postagem, me deparei com um ótimo artigo de opinião de Pablo Ortúzar, um antropólogo social chileno. O seu texto publicado no site do jornal “La Tercera”, no dia 9 de fevereiro de 2019, talvez sintetize bem o que acontece atualmente no Chile. Segundo ele, sempre que casos tão tristes de idosos, que tiram a própria vida (principalmente envolvendo casais) chegam até as redes sociais, o tema envolvendo o sucídio entre idosos esfria rapidamente. As pessoas se limitam a proferir discursos contra as AFPs, atribuem a morte dos idosos aos valores que recebem de aposentadoria e, pouquíssimo tempo depois, nada mais se comenta sobre o assunto. Sem dúvida alguma, os idosos tiveram que viver e trabalhar em um país muito mais pobre do que o atual. Isso se reflete em suas economias. Além disso, o sistema previdenciário chileno ainda precisa de muitas reformas estruturais. Porém, tudo indica que o problema da velhice no Chile não se reduz a dinheiro. A negligência e o abuso relatados pelos idosos nos remetem a uma escuridão mais profunda. É ridícula a ideia de que os idosos não podem fazer mais nada, exceto esperar sentados pela morte. É um problema cultural e coletivo não falar sobre a velhice e a morte. As cidades são verdadeiras selvas de pedra projetadas contra os idosos. É difícil não concordar com isso, basta olhar para o Brasil. Calçadas esburacadas, falta de acessibilidade, pessoas que ocupam bancos de ônibus e vagas de estacionamento destinadas a idosos, além de um mercado de trabalho que despreza a experiência e qualificação de profissionais com uma idade mais avançada. Porém, a questão é que todos nós, em um cenário ideal, vamos envelhecer, viver por um tempo na velhice e, invariavelmente, morrer.

Quando comecei a escrever essa postagem, imaginei apenas que precisaria mostrar que o suicídio entre idosos no Chile não se resumia simplesmente as consequências práticas do modelo previdenciário do Chile. Talvez isso fosse o suficiente, mas não é. No caso de José e Blanca, gostando ou não, José se tornou um homicida. Ele escreveu uma carta de próprio punho, apontou uma arma de fogo e matou sua companheira. Não foram duas armas de fogo, foi apenas uma, com a qual, posteriormente, tirou a própria vida. Se ele sobrevivesse seria preso, e posteriormente julgado. Enxergar a realidade exige muito das pessoas, que muitas vezes preferem transformar isso em um “pacto de amor”. Não, não foi um ato de amor. A culpa por isso ter acontecido também não é somente do modelo previdenciário chileno. Se fosse, não seria apenas das AFPs, porque a pólvora também estaria nos dedos dos parlamentares chilenos, que demoraram décadas para aprovarem ajustes a um sistema que, na prática, vinha se mostrando problemático em razão de uma série de fatores. A pólvora também estaria nos dedos de secretários de saúde, que pouco se importaram em promover programas de saúde destinados aos idosos, de promover atividades, cursos ocupacionais e, inclusive, novas perspectivas de renda, uma vez que o sistema não iria melhorar tão rapidamente. Em relação ao casal Jorge e Elsa, Jorge também se tornou, no fim de sua vida, um homicida. A pólvora também estaria nos dedos de familiares que, talvez, pudessem ter se esforçado um pouco mais, acolhido um pouco mais, visitado um pouco mais, porém nada aconteceu. Saber que Elsa esperava ouvir a voz de alguém ao telefone, de alguém que nunca existiu e que ainda por cima seria afastada da única pessoa, que durante anos permaneceu ao seu lado é de partir o coração. E essa realidade não está longe do Brasil, o tempo todo estamos brincando de roleta russa com os nossos idosos, e constantemente apertando o gatilho. A questão não é mais onde e quando, mas quem será o próximo.

Portanto, se você tem um avô ou uma avó em casa, um tio ou uma tia idosa, uma mãe ou um pai idoso, ainda mais se um deles estiver enfermo, o trate dignamente. Dê atenção, escute o que ele(a) tem para falar, sorria, conte uma piada, ensine algo novo, tenha paciência e saiba desfrutar de sua companhia e experiência de vida. Não são crianças, são pessoas que pensam racionalmente, talvez não tão rápido quanto antes, mas entendem perfeitamente tudo o que acontece ao redor. São pessoas que precisam ser tratadas como pessoas, que agradecem por gentilezas assim como qualquer outra, e que merecem ter o direito de ir e vir como todos. Não ajude a atravessar uma rua, por mais clichê que isso seja, porque acredita que precisa fazer isso ou porque o mundo diz para fazer isso. Ajude simplesmente, porque entende a dificuldade e quer, ao menos por alguns segundos, facilitar o cotidiano daquela pessoa. A única verdade que existe ao simplesmente negligenciar as necessidades morais, físicas e financeiras de idosos é que não importa quantas vezes as pessoas girem o tambor, em algum momento uma bala será disparada e, quando isso acontecer, não importará mais quem aperta o gatilho.

Conclusão

Dizer que o casal cometeu suicídio é ignorar, sob o aspecto criminal, o fato que José Aedo atirou contra sua esposa e, em seguida, se matou. Além disso, a motivação dessa verdadeira tragédia humana não pode ser simplesmente atribuída somente ao modelo previdenciário chileno, conforme inúmeros sites tentam, de forma política ou por falta de conhecimento, alegar. A razão específica desse caso ainda está sob investigação da polícia, porém é notável, diante das inúmeras fontes que trouxemos ao conhecimento de vocês, que existiram outras motivações, uma vez que a visita de filhos e netos aparentemente era constante. Em outro caso relacionado ao casal Jorge e Elsa também é notável a existência de outras motivações.

Além disso, a atribuição constante do suicídio de idosos ao modelo previdenciário chileno é totalmente leviano, beirando a hipocrisia. Existem inúmeros fatores, inclusive geográficos (assim como a quantidade de luz solar durante o dia, que também interfere na vida de idosos) muito pouco estudados, que geram uma predisposição ao suicídio na faixa etária acima dos 60 anos de idade. Uma das principais causas para os idosos acabarem colocando um fim em suas vidas, por exemplo, é a falta de campanhas de prevenção voltadas para suas faixas etárias, visto que os recursos são predominantemente destinados a jovens e adolescentes. Isso sem contar a solidão, exclusão social, depressão, entre diversas outras condições físicas e mentais. Evidentemente, a questão financeira importa, mas não é a única, e tampouco a principal resposta, para um problema que precisa ser amplamente discutido pela sociedade no Chile, no Brasil, e no mundo.


Atualização #1 – 01/03 às 7h40: Esclarecendo Alguns Pontos Levantados

Em nossa página oficial no Facebook, surgiu um usuário alegando, que a conclusão acima não levava em consideração o que geraria o sistema previdenciário chileno, e alguns pontos na economia, ou seja, que estávamos enganados. Esse usuário, alegando morar no Chile (embora conste em seu perfil que ele é morador de São Paulo) disse, por exemplo, que não havia SUS no Chile, e que chegou a pagar, convertendo o valor em real, cerca de R$ 1.000 por uma consulta com um clínico geral, além de outras alegações.

Curiosamente, em outro trecho do comentário, o usuário, que já havia compartilhado o link da notícia publicada pelo site “Hora do Povo” em seu perfil, chegou a mencionar, que tudo “lá” é caro. Enfim, vamos esclarecer essas questões, aproveitando, inclusive, a resposta de uma outra usuária nesse mesmo comentário.

Em nossa página oficial no Facebook, surgiu um usuário alegando, que a conclusão acima não levava em consideração o que geraria o sistema previdenciário chileno, e alguns pontos na economia, ou seja, que estávamos enganados.

O Chile possui o Sistema Nacional de Serviços de Saúde (Sistema Nacional de Servicios de Salud – SNSS), que por sua vez possui dois braços: o Fundo Nacional de Saúde (Fondo Nacional de Salud – FONASA), braço público do sistema, e as Instituições de Saúde Previsional (Instituiciones de Salud Previsional – ISAPRE), seu braço privado. Todo cidadão é automaticamente inscrito ao sistema de saúde pública, ou seja, ao FONASA. Apenas quando ele decide ter um plano de saúde particular, é que essa cadastro é modificado.

Além disso, todo cidadão, seja chileno ou estrangeiro, tem 7% do seu salário mensal descontado e destinado para a saúde. É uma lei, não há como fugir dela. Porém, aqui reside um detalhe crucial, que qualquer pessoa que more no Chile ou saiba fazer uma pesquisa decente deveria saber: Entre 2011 e 2012, a taxa de 7% deixou de ser cobrada para idosos que recebem um benefício chamado Pensão Básica Solidária (um benefício do Estado para pessoas que não tiveram acesso a uma pensão) ou Aporte Previsional Solidario. Além disso, a taxa caiu de 7% para 5% no casos de idosos maiores de 65 anos. Em 2015, essa taxa de 5% passou a não ser mais cobrada. Assim sendo, idosos em situação de extrema dificuldade financeira ou acima de 65 anos são atendidos e operados gratuitamente na rede pública credenciada pelo FONASA, ou seja, na prática se tornou um SUS para esses indivíduos.

O Chile possui o Sistema Nacional de Serviços de Saúde (Sistema Nacional de Servicios de Salud – SNSS), que por sua vez possui dois braços: o Fundo Nacional de Saúde (Fondo Nacional de Salud – FONASA), braço público do sistema, e as Instituições de Saúde Previsional (Instituiciones de Salud Previsional – ISAPRE), seu braço privado.

O sistema FONASA seria, grosso modo, equivalente ao “SUS” em nosso país, mas com uma considerável diferença: ele não é gratuito, exceto para os indivíduos que mencionamos acima. Isso significa, que além da contribuição de 7% por mês, o trabalhador irá pagar uma porcentagem por cada procedimento que realize: consultas médicas, exames, cirurgias etc. Essa porcentagem, no caso da saúde pública, é determinada de acordo com o grupo de classificação que a pessoa esteja (entre 10 a 20%). Essa classificação dá preferência a idosos e pessoas de baixa rendaConfira abaixo as categorias, cujos parâmetros estavam em vigor até mês passado (02/2019):

  • A) Essa categoria, até mês passado, era composta basicamente por pessoas sem nenhuma condição financeira, e que comprovem uma situação de pobreza extrema. As pessoas desse grupo são atendidas de forma gratuita;
  • B) Essa categoria, até mês passado, era composta basicamente por pessoas com uma renda mensal igual ou menor que 288 mil pesos mensais ou então todos aqueles que recebem a chamada o Aporte Básico Solidário ou Pensão Básica Solidária, um benefício do Estado para pessoas que não tiveram acesso a uma pensão. As pessoas desse grupo são atendidas de forma gratuita;
  • C) Essa categoria, até mês passado, era composta basicamente por pessoas com uma renda mensal maior que 288 mil pesos mensais e menor ou igual a 420.480 pesos. Pessoas desse grupo pagam 10% do valor de uma consulta, procedimento médico, cirurgia etc. Caso a pessoa possua 3 ou mais dependentes (denominados como “cargas”) ele é colocado na categoria “B”, ou seja, passa a ser atendida de forma gratuita;
  • D) Essa categoria, até mês passado, era composta basicamente por pessoas com uma renda mensal maior superior a 420.480 pesos. Pessoas desse grupo pagam 20% do valor de uma consulta, procedimento médico, cirurgia etc. Caso a pessoa possui 3 ou mais dependentes (denominados como “cargas”) ele é colocado na categoria “C”, ou seja, complementa apenas 10%;

Os beneficiários do sistema público, filiados ao FONASA, podem eleger duas modalidades de atendimento: Modalidade Institucional prestada pelos estabelecimentos públicos; e Modalidade de Livre Eleição, com acesso direto a estabelecimentos privados conveniados ao FONASA, mediante copagamento (onde o beneficiário arca com uma parte do pagamento).

Idosos acima de 55 anos, na modalidade Livre Eleição, possuem atendimento preferencial em toda a rede credenciada do FONASA. Também contam com descontos na compra de óculos e aparelhos auditivos, além de cuidados de enfermagem domiciliar, em certos casos, e cuidados de enfermagem integrais em centros de idosos.

Os beneficiários do sistema público, filiados ao FONASA, podem eleger duas modalidades de atendimento: Modalidade Institucional prestada pelos estabelecimentos públicos; e Modalidade de Livre Eleição, com acesso direto a estabelecimentos privados conveniados ao FONASA, mediante copagamento (onde o beneficiário arca com uma parte do pagamento).

Já idosos acima de 60 anos, na modalidade Institucional, possuem atendimento gratuito em hospitais e clínicas públicas, acesso a próteses e órteses gratuitas, atendimento preferencial para determinadas cirurgias, e cobertura total em tratamentos de alto custo, assim como implante de marcapasso.

Já idosos acima de 60 anos, na modalidade Institucional, possuem atendimento gratuito em hospitais e clínicas públicas, acesso a próteses e órteses gratuitas, atendimento preferencial para determinadas cirurgias, e cobertura total em tratamentos de alto custo, assim como implante de marcapasso.

No caso do braço privado do sistema de saúde, o ISAPRE, o indivíduo basicamente contrata um plano de saúde. Aqueles 7% do salário mensal ao invés de ir para o FONASA vai para uma ISAPRE, sendo que a pessoa ainda paga uma porcentagem em relação a consultas ou procedimentos médicos, que é definida por cada plano. Além disso, há a possibilidade de contrar um seguro complementar para cobrir a porcentagem que será paga. Não irei me aprofundar sobre isso, porque ficaria longo demais (podem conferir maiores detalhe aqui, embora os valores estejam defasados). Uma vez que muitos consideram a rede de atendimento do FONASA obsoleta, que faltam medicamentos, que há uma demora para marcar consultas, exames ou cirurgias (praticamente as mesmas reclamações que temos em nosso sistema de saúde), em tese, contratar uma ISAPRE talvez seja melhor para quem pode pagar, é claro, mas esse é um assunto bem complexo e precisaria de uma análise muito mais profunda.

Agora, sobre a questão dos valores das consultas no Chile, irá depender, obviamente de qual médico e clínica a pessoa deseja se consultar. Uma usuária, em nossa página no Facebook, chegou a levantar os valores de consultas em algumas clínicas particulares do Chile. Esses valores estão disponíveis para consulta pública na internet. Em uma clínica particular chamada “Maiposalud”, uma consulta com um cardiologista custa cerca de $6.080 (R$ 34 pela cotação atual) pelo FONASA, e $25.000 (R$ 142) se for particular. Já uma outra clínica chamada “Dávila”, a consulta com um geriatra custa cerca de $20.045 (R$ 114) pelo FONASA, e $30.280 (R$ 170) se for particular, ou seja, muito abaixo de R$ 1.000.

No caso do braço privado do sistema de saúde, o ISAPRE, o indivíduo basicamente contrata um plano de saúde. Aqueles 7% do salário mensal ao invés de ir para o FONASA vai para uma ISAPRE, sendo que a pessoa ainda paga uma porcentagem em relação a consultas ou procedimentos médicos, que é definida por cada plano. Além disso, há a possibilidade de contrar um seguro complementar para cobrir a porcentagem que será paga.

Evidentemente, cirurgias e procedimentos mais complexos em determinadas clínicas particulares possuem um custo extremamente elevado, atualmente impagável para a absoluta maioria dos idosos. Porém, no âmbito de consultas médicas, é possível encontrar valores acessíveis em clínicas particulares. Isso sem contar, é claro, a gratuidade fornecida pelo modelo Institucional, do FONASA, caso o idoso possua mais de 60 anos de idade.

Em termos de medicamentos, o governo chileno disponibiliza gratuitamente, através dos centros de saúde, medicamentos para tratar: Diabetes Mellitus tipo 2, Hipertensão, Colesterol Alto e Triglicérides Elevados. Além disso, assim como no Brasil, são vendidos medicamentos genéricos no Chile, o que também colabora e muito para a redução de gastos mensais.

Para finalizar, assim como já havia publicado no texto, atualmente, mesmo com a ajuda por parte do governo, 79% das pensões no Chile estão abaixo do salário mínimo (atualmente 286.000 pesos ou cerca R$ 1.650 pela cotação atual), e 44% estão abaixo da linha da pobreza. Contudo, ainda assim, conforme foi amplamente explicado ao longo de toda essa postagem, que possui a análise e estudos de diversos especialistas e acadêmicos chilenos, a questão financeira não é a única, e tampouco a principal resposta, para o suicídio de idosos no Chile, no Brasil e no mundo. Portanto, a conclusão está correta.

Enfim, essa atualização também serve para mostrar como as pessoas acabam curtindo e acreditando cegamente em declarações em redes sociais, muitas vezes por mero viés de confirmação, ou seja, simplesmente pela ânsia de ter que acreditar em algo, que tem tão enraizado em suas mentes, porém sem fazer qualquer tipo de pesquisa sobre o assunto. Temas complexos, infelizmente, geram textos complexos. Não há resposta fácil, assim como alguns justiceiros virtuais acreditam.

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13 Comentários

13 Comments

  1. Gilberto

    1 de março de 2019 em 8:18

    Excelente trabalho Gilmar. É um equilíbrio delicado, e deve ser observado com olhos bem atentos até que se estabilize, sofrendo eventuais intervenções e correções de rota quando necessário. É, grosso modo, como criar um filho. Queremos que eles andem sozinhos, mas devemos estar sempre atentos a desvios de rota. Não é simples.
    Sucesso!

  2. Raiane

    1 de março de 2019 em 9:38

    Parabéns pelo post. Bastante informativo. Tinha muita coisa sobre o Chile que eu tinha curiosidade de saber e agora sei.

    • Marco Faustino

      1 de março de 2019 em 11:04

      Ficamos felizes que tenha gostado, Raiane! Sem dúvida alguma deu um certo trabalhinho reunir todas as fontes, que fossem confiáveis, é claro, sobre esse assunto, e apontar a realidade sobre o que realmente acontece no Chile. Tanto os aspectos negativos, quanto positivos. Tentei resumir o máximo possível, porém, diante da complexidade do assunto, invariavelmente a postagem iria ficar maior do que o habitual 😀

  3. Ivo Morais

    1 de março de 2019 em 9:41

    Caramba o Gilmar zerou a internet, a bagagem que ele trouxe é imensa, parabéns pela matéria, parabéns ao E-farsas por uma publicação tão rica de informação, estou perplexo com o nível dessa matéria.

  4. Rodrigo Ferreira

    1 de março de 2019 em 17:38

    O sistema brasileiro estava fadado ao fracasso, mas o chileno é sucesso? com 79% recebendo abaixo do salário mínimo? Dou parabéns pela pesquisa, explicou bem o sistema chileno, mas faltou explicar bem o sistema brasileiro. Se fosse explicar em detalhes o sistema brasileiro, talvez entraria na polêmica de que dizem que a previdência não tem deficit? Pois além da contribuição dos trabalhadores e dos empregadores para a previdência, ela também recebe recursos de outras fontes da sociedade?

    • Marco Faustino

      1 de março de 2019 em 19:06

      Olá Rodrigo! Agradeço verdadeiramente por ter acompanhado a postagem, e fico feliz pelo reconhecimento. Sim, a Previdência Social do Brasil possui déficit, e isso mostra como a situação foi agravada ao longo do tempo (algo explicado ao longo do texto). É possível fazer uma postagem somente sobre isso, porém a atual é mais voltada ao Chile, uma vez que a temática é relacionada ao suicídio de idosos naquele país. E, mesmo assim, inventaram narrativas torpes sobre esse assunto. Jamais foi mencionado nesse texto que a execução do sistema é um sucesso. Em teoria, de modo sustentável, o modelo previdenciário é muito bom, porém a execução dele pelo governo chileno, ao longo das décadas (entre as mais diversas vertentes) foi péssima. Prova disso é que, no texto, foi mencionado que “quase tudo deu errado”. Praticamente nada ocorreu conforme o prometido, e os ajustes necessários demoraram muito para serem realizados ao longo dos anos (principalmente por motivos políticos). Por isso que o Chile serve e servirá de lição. Não dá pra ficar de braços cruzados esperando um sistema falir para propor outro. Se algo é viável e sustentável, e precisa de ajustes, que sejam feitos. Por lá demorou muito para acontecer. Precisa de apoio do Estado, de empresários, de contribuintes e assim por diante. A questão é quanto cada pilar terá que contribuir, entende? Acredito que isso esteja bem explicado no decorrer do texto.

      O modelo “solidário” (e que não é tão solidário assim) adotado pelo Brasil não funciona a longo prazo. Funcionaria bem entre o início até meados do século XX. É um modelo relativamente muito simples de ser entendido, tanto que o comparativo é muito mais um apanhado geral. Porém, não significa que esteja incorreto. Esmiuçar dá trabalho, consome tempo, noites sem dormir, e muitas vezes não importa o que seja dito, sempre haverá alguém dizendo que uma vírgula está errada. Um ciclo vicioso de enxugar gelo, porque é necessário desmentir ponto a ponto constantemente. Seria necessário trabalhar somente pra desmentir cada ponto que acrescentam ano a ano. Infelizmente, as pessoas constroem narrativas para tentar encaixar nos discursos que querem, de ambos os lados (por motivos diversos), seja lá quais eles forem, e muitas acabam acreditando. Essa é a “política” de sempre, não importa o país.

      • Chrystian

        4 de março de 2019 em 13:36

        “É possível fazer uma postagem somente sobre isso”
        Seria bom, pois a discussão entre a existência ou não de déficit geralmente foca na DRU e em levar em conta as várias fontes de arrecadação, ou ignorar todas as que não são as arrecadações do empregador e do trabalhador.
        Aliás, afirmar que o debate só existe nas redes sociais é um tremendo argumentum ad verecundiam, pois vários economistas dizem que a previdência não tem déficit, não são só pessoas opinando sobre o que não entendem.
        Se existe algo sobre o que não há dúvida, é que o governo deveria ser mais transparente em relação às fontes de arrecadação e aos gastos, não só das aposentadorias mas também da Desvinculação de Receitas da União.

  5. Evandro

    1 de março de 2019 em 21:03

    Matou a pau com esta pesquisa!

    • Marco Faustino

      1 de março de 2019 em 21:59

      Olá, Evandro! Agradecemos pelo reconhecimento! 😀

  6. Rosa Cruz

    4 de março de 2019 em 15:22

    Vc se superou no esclarecimento.

  7. Daniel

    15 de março de 2019 em 16:31

    Muito boa a explicação dada, Gilmar, bem esclarecedora. Alguns acreditam inclusive q o Brasil devia privatizar a saúde, educação, segurança, mas o Chile é um exemplo de que certas coisas não podem ser ao pé da letra como querem certos “justiceiros virtuais” pois Fundamentalismo é péssimo em qualquer que seja a situação. Os “Chicago boys” ultraliberais implantaram este modelo previdenciário em 1981, no Chile, em plena ditadura militar do Pinochet, que já havia privatizado a educação, limitando o ensino superior às classes mais abastadas, criando um abismo social extremo entre pobres e ricos neste pais. Recentemente, graças à democratização e aperfeiçoamento desta, voltamos a ter alguma gratuidade no ensino superior e também houve melhora no sistema previdenciário que causou muitas dores de cabeça enquanto vigente. No Brasil, simplesmente implantar um modelo previdenciário ao estilo “1981” seria condenar nossos velhos à extrema pobreza. Sou favorável sim a existir um teto de aposentadoria máximo para todo o cidadão. Quem tem dinheiro que busque empresas privadas para aumentar sua renda futura; eliminar privilégios do judiciário, políticos, militares (cabe ressaltar que tem categorias aonde a aposentadoria tem que obedecer critérios específicos como doenças e esgotamentos mentais e físicas, só para citar alguns exemplos policiais militares, professores e agentes de saúde), cobrar corretamente as empresas suas dívidas estratosféricas e diminuir a corrupção são fatores que podem contribuir para uma previdência mais justa, porque somente fazendo o pobre pagar a conta como querem certos picaretas, não vai ajudar em nada este país em seu futuro crescimento.

    • José Silva

      1 de abril de 2019 em 15:50

      Pobre já se aposenta com 65 anos e salário mínimo e o atual modelo previdenciário Brasileiro privilegia a classe mais ricas. Os dados são muito claros nisso e basta pegar os vários estudos do IPEA…

  8. Daniel

    3 de abril de 2019 em 21:42

    Faz tempo que não leio um apanhado de dados mais cansativo, uma batelada de informações desnecessárias e inconclusivas pra refutar algo inegável: que o casal de idosos, entre vários problemas, era seriamente afetado pela renda minguada da previdência que a ditadura socou no povo do Chile. Passada de pano no plano de Paulo Guedes que chega a ser cômica.

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